sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Livrai-me meu Deus de mim!

Na santa paz de Deus quero vestir a roupa de dormir e sonhar com meu marido jovem e feliz. Sonhar é uma possibilidade: então, vamos a ela, preciso se faz.
Ontem ele me bateu até sangrar. Não acreditei quando me olhei no espelho, um olho roxo e um dente frouxo. Como pode? Solucei. Como pode uma mulher formada, Psicologia Social... Mãe de dois homens casados, boa filha, carro na garagem, alunos na escola me esperando e essas marcas na cara? Como pode meu Deus?
Não tenho força de para com isso, e o que é isso afinal? Que tipo de doença, já que não se sabe ao certo o que nos faz ficar com homens assim. Medo? Medo eu tenho de alma, de fantasma, de terremoto e de vulcão. Mas isso?
Responde meu Deus! Não me deixe esse silêncio incorreto e solitário como única testemunha disso que nem sei nomear... Arranca de mim esse, esse, esse o quê? Essa?
Não pode ser medo, não deve ser medo, porque lembro que na infância, tinha medo de lesma. Mas aí, depois, descobri que era fobia. A fobia paralisa. É fobia meu Deus? Ela me paralisa a ação de sumir desta casa? Deste lugar, desta vida e deste “homem”?

Solineide Maria – Para O Livro de Orações da Mulher

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Sobre ALI LONGE NO MAR - Livro desta humilde poeta, prestes a ser publicado pela Editora Scortecci!

O mar sempre ali e nós longe
Longe lá aqui. Longe perto.
Nunca mais a janela aberta.
Nunca mais a porta aberta.
Perdemos as chaves de tudo e
Nunca mais.
O mar sempre ali e nós.
Onde é que se perde a esperança de um reencontro?
Mas nenhuma perda é para sempre
e todo mar está Ali, mesmo que seja longe.


Solineide Maria - hoje de 2010

Um breve comentário

Meus Caros e Caras!
ando muito inquieta (novidade).
Tenho me embriagado em Pessoa, o Fernando Pessoa e, quero, humildemente solicitar que LEIAM Fernando Pessoa, para o desassossego ampliar e resgatar a indignação, que nunca deve ser desamparada de nossas almas incautas! Sejam PESSOA e discutam com ele e resmunguem com ele e avaliem a vida com ele...
O poema Guardadora de mim, que publiquei hoje, é uma singela homenagem que faço a este poeta perefeito. Hoje o poema é para ele e para vocês, evidentemente.
Apenas quis comentar a inquietude frutífera que essa pessoa, Fernando Pessoa, me causa.
Um grande abraço poético!

Solineide Maria de Oliveira hoje 2010.

GUARDADORA DE MIM

Eu não quero ser poeta.
Quero saber ser sozinha.
Às vezes não. Às vezes quero estar acompanhada.
Talvez, por saber intimamente,
Que verso nenhum me salvará de mim.

Eu não quero ser poeta.
Quero andar por aí e saber dar conta de mim.
Ver o sol e apenas ver o sol.
Não quero sentir nada, além de frio e calor.
Sede, talvez.
Ser poeta é o mesmo que arder num labirinto de paz.
Eu não quero.

Quero ir para a praia e ver as nuvens,
Apenas ver as nuvens e tomar banho na água salgada
E voltar para casa.
Não quero ter o dom de ouvir silêncios.
Não quero.
Quero ser simples feito um cisco,
Uma erva que brota no meio da relva.
Feito tudo o que é simples.
Não quero saber de atalhos também,
Não quero. Não faz bem.
Quero a leveza de não ter à mão, nenhum cajado.
Não quero ser poeta e me ver recortada.

As idéias borbulhando sem teto e sem chão,
Num mundo que escorrega no abismo das mentiras.
Não quero compreender de flor e de amor,
E de tristeza e de solidão,
E de paz e de amplitude nenhuma.
Nem quero fingir que compreendo.
Não quero mais...

Eu queria você. Vê-lo tirar o chapéu e me abraçar.
Abraçar esta, que não sabe escrever resumos informativos.
Para que serve a brevidade mesmo?

Quando virás à minha porta?
Não. Não venha.
Apenas quis lhe saudar.
E dizer que não consigo mais dormir direito,
Porque a poesia me perturba
Numa janela, ou na porta,
Ou na cadeira, ou na cozinha enquanto tomo café.
E ouço umas vozes que me embaraçam,
E elas sabem ler meus pensamentos.
Sinto-me então uma folha em branco,
Pululando palavras ao crepúsculo de
Uma tarde que ainda não chegou.
Estou cansada.
Não quero mais.

Solineide Maria - final de 2008 - Para Fernando Pessoa.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Padaria II

A perplexidade não é de nada
não paga a conta do açougue,
nem enfeita a janela,
onde a roseira murchou.
Dane-se a vizinha que não entende,
que não quer ver,
que não percebe que o lixo dela
pode descer e entupir a boca de lobo.
A perplexidade só dá mais trabalho pra gente viver...

Solineide Maria - ontem 2010

PADARIA

Não sou nada
não quero ser nada.
Se um dia chegar a ser eu mesma
já está muito bom.

Solineide Maria de Oliveira - hoje 2010.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Faz uma música pra mim

Faz uma música pra mim.
Assim, serena, assim lisinha
Feito quando você me amava.
Se apaixonou.

Faz assim, assado preu comer
Um peito aberto de paz
Preu deitar de vez
Faz eu amanhecer... me faz...

Faz uma música poética
Para dizer que não me quer mais
Que não me deseja mais
Que não nada...

Faz comigo coisa à beça
Ouvindo essa música, e atravessa
Minhas bobagens vazias.
Atravessa meu medo, minha ironia.

Faz uma música pra mim.
Depois põe preu ouvir
Deitada no teu peito
Cheio de paz.

Faz uma só, que seja...
Uma vez você me disse:
Gosto de você, fica mais...
Só por isso faça esse favor.


Para dar inspiração
Lembre daquele tempo bom
Tanta ingenuidade,
Tanta juventude... tanto afeto.

Esquece que crescemos
Senão não sai essa canção
Senão não surge a vontade
De letra, verso, arranjo...

Por favor.
Pelo amor de Deus!
Faz uma balada pra mim.

Preu dormir ouvindo
E acreditando que vou lhe encontrar
Me encontrar.
Que vamos nos encontrar.

Faz?

De Solineide Maria de Oliveira - Para 1986

Longe lá aqui

O mar sempre ali e nós longe
Longe lá aqui. Longe perto.
Nunca mais a janela aberta.
Nunca mais a porta aberta.
Perdemos as chaves de tudo
Nunca mais.
O mar sempre ali e nós...
Onde é que se perde a esperança de um reencontro?

Solineide Maria - 22/01/2010

Necessidades, Prioridades e o raio que o parta!

É preciso ter uma casa
Com móveis bons e bonitos.
É preciso ter conta no banco
E dinheiro na conta.
É preciso não se vestir mal
Nem simploriamente.
É preciso fazer faculdade
Mas um curso “de status”...
É preciso não vestir a mesma roupa muitas vezes...
É preciso estudar pouco,
Mas ter condição financeira boa.
É preciso se ferrar de estudar
E passar num ótimo concurso.
É preciso ser feliz com muito...
É preciso esquecer o que é mesmo ser correto.
É preciso esquecer mesmo o que é ser sincero.
É preciso esquecer o que é ser Médico...
É preciso amar sem ir a fundo.
É preciso não ir, nem mesmo isso.
É preciso não ter nada a ver com isso
É preciso não andar com boas companhias.
É preciso aprender sobre mentiras.
É preciso ir ao shopping uma vez por semana
Pelo menos...
É preciso escalar o morro da insensatez e fincar uma bandeira...
É preciso passar o dia mentindo.
É preciso esquecer as informações sobre sensibilidade e interesse.
É preciso ir à missa e fazer tudo ao contrário
Durante a semana.
É preciso não se descuidar dos dentes.
É preciso acreditar que o planeta tem recuperação.
É preciso crer na salvação dos injustos
Porque não há mais justos mesmo...
É preciso não enxergar meias e cuecas
Com dinheiro
E presidentes que choram lágrimas de crocodilo.
É preciso acreditar na poesia
Mesmo quando tudo o mais lhe sentencia!

Solineide Maria de Oliveira - 22/01/2010 PARA DRUMMOND.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Uma análise superficial sobre o filme Encontros ao acaso

Uma moça sem muita opção de lazer. É mais ou menos o que a gente sente ,quando assiste ao filme Encontros ao acaso, tendo como atriz protagonista Ashley Judd. Ashley faz o papel de Lucy, a tal mulher sem muita opção de lazer. Mas tem mais, tem que ela vive atrelada a uma família problemática, cheia de pessoas mal resolvidas e com condutas alcoólatras. Difícil, mesmo, ser feliz num meio tão conturbado. Não fosse a atuação da atriz, a melhor dela, em minha opinião, não valeria ter lacoado...
É mais ou menos assim: a moça trabalha, tem uma amiga com quem divide a casa e as agruras de viver saindo aos finais de semana e dormindo com os caras que conhece, sem maiores envolvimentos emocionais, ou nenhum. O fato de ela fazer isso a deprime muito, mas parece um vício sobre o qual ela não tem controle, parece.
No outro dia a personagem volta ao nada emocional de onde não consegue se desprender. E, quando chega em sua casa, joga a calcinha que vestiu na noite de farra sexual, no lixo. Não dá certo, é uma simbologia que não funciona para Lucy, nem para o telespectador. Jogar a peça íntima que usou na noite de sexo e vazio sentimental, não a resguarda, nem a retira daquele ciclo situacional, nem a sublima. Um tiro vazio, se o autor queria que tais caminhos fossem percorridos.
O filme vai tentando ficar bom. Aparece um carinha interessante, uma ou outra cena de enlevo do ser, onde o sol brota pela janela e a criatura sorri e diz: hoje não vai chover, hoje vai dar tudo certo. Mas não passa disso. Ainda que não seja uma experiência nula, assisti-lo, existem filmes muito mais, muito mais ricos e histórias muito mais bucólicas, com maior qualidade, para quem gosta.

Solineide Maria

Referência
Cal Percell (Jeffrey Donovan) e Lucy Fowler (Ashley Judd). Direção de Joey Lauren Adam e roteiro dele idem.
Informações de autor e atores retiradas do site http://www.adorocinema.com/filmes/encontros-ao-acaso

domingo, 17 de janeiro de 2010

VIGÉSIMO

Meu relógio tange
gentes, jogos, o jornal.
Tange a indigestão do jantar.
Gestos injustos de um jogo em seu vigésimo aniversário.
Meu relógio rege,
ajeita, rejeita, chantageia o meu sono.
Não tem jeito:
o relógio vigia meu estômago no encontro noturno com a geladeira.
Um contrato de comer sem júbilo, sem ojeriza e... sem geléia!
Angelina consumiu toda geléia de jaboticaba.
Ela faz isso de pirraça! É genético.
Esse pensamento agita o meu gênio e afugenta o trejeito
do sono desejado.
O jeito é esquecer a geléia e o relógio:
o casamento arranjado,
a degeneração do conceito de estar junto,
o gesso no coração há vinte anos.
Quanto gelo a geladeira nutre, constato.
Olho o relógio e giro o botão até o zero. Melhor degelar.
Voltamos para a cama gelada. Eu e meu coração engessado.
O mesmo gesto-jaula em seu vigésimo aniversário.

Solineide Maria - 17/04/2008

sábado, 16 de janeiro de 2010

“A uma da tarde”.

A alegria tinha hora e lugar.
Arrumei a sacola e o vestido.
Avancei para a tarde feito uma criança para aquele balanço
único,
vazio,
na praça.
Arrumei o cabelo e aparei as unhas.
Comprei coisas novas: caneta e caderneta, para as poesias.
Chá de alecrim e torradas, para logo mais à noite...
Seria bom. Arrumaríamos tempo até para a insônia.
numa satisfação enorme, feito quando nunca estamos cansados.
A alegria tinha hora e lugar. Teria...
_ Alô!
Eufórica e tola atendi ao telefonema.
_ Ta certo... Tudo bem, eu entendo... (menti).
Você desmarcava a hora da alegria e o lugar e o dia.


Solineide Maria - Março de 2009

Análise do poema Olha Marília, As Flautas Dos Pastores - de Bocage

Olha Marília, as flautas dos pastores,
Que bem que soam, como são cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes
As vagas borboletas de mil cores!

Naquele arbusto o rouxinol suspira;
Ora nas folhas a abelhinha pára.
Ora nos ares sussurrando, gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira,
Mais tristeza que a morte me causara.

Este é um dos poemas líricos mais conhecidos do poeta português Manuel Maria Barbosa Du Bocage. A natureza serve de cenário para o acontecimento sentimental: “Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes”.
O amor neste poema está alegre, o eu-lírico está satisfeito em amar Marília e deseja aproveitar a manhã com ela: “Vê como ali, beijando-se, os Amores/Incitam nossos ósculos ardentes!”. É um convite, mas também uma ilustração: “Ei-las de planta em planta as inocentes/As vagas borboletas de mil cores!”
É ornamental, porque tais composições neoclássicas valiam-se de forma a exacerbar na descrição do campo. O poema é arrumado em soneto, marcado pelas regras: catorze versos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos. Esse rigor sempre exige do poeta uma certa habilidade literária.
Segundo este eu-lírico, tudo quanto de encantador a natureza exprime quando a contempla, não teria a mesma beleza sem a sua amada, como é perceptível no terceto seguinte: “Que alegre campo! Que manhã tão clara! /Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira, /Mais tristeza que a morte me causara”.
A flauta, que faz alusão a Pan, deus que chefiava os pastores que se dedicavam além do pastoreio, à poesia, na Arcádia, região mitológica da Grécia: é daí que se origina o nome Arcadismo. A flauta está presente, como que para harmonizar ainda mais o ambiente: Olha Marília, as flautas dos pastores, /Que bem que soam, como são cadentes!”.
A pureza que há na natureza supõe-se estar presente nas borboletas que este eu-lírico cita:” Ei-las de planta em planta as inocentes/ As vagas borboletas de mil cores!”.
O amor deste eu-lírico tem luz, e pode até entristecer-se no caso de Marília não aparecer para, juntos, desfrutarem do ambiente natural que narra, mas não irá desfalecer, não irá desesperar-se e nem fenecer. Ficará triste, mas não mais que isso.
Segundo pesquisadores, Bocage teria amado Gertrudes, a quem denominou em seus poemas Gertúria. Mas Bocage também teria amado Marília, que conta, teria sido Maria Margarida Rita Constâncio Alves, filha de um médico da Corte Portuguesa. Era típico dos árcades e neoclacissistas, usarem em suas composições poéticas, nome fictício para aquelas por quem se enamoravam na vida real”.

A análise acima, foi solicitada para crédito na Disciplina Literatura Portuguesa, no IV semestre do Curso Letras. Hoje estou no VII semestre.
Lembram que falei de postar umas atividades antigas aqui, por conta da faxina no computador? É apenas para compartir.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Insônia

Ontem, na cama, fiquei duas horas tentando entender minha insônia.
Não consegui. Sou humana, deve ser natural não sentir sono de vez em quando.
Mas faz semanas que insisto nisso...
Sou muito egoísta mesmo. Tanta coisa mais grave do que minha
Insônia, onde já se viu!
Agora mesmo Jesus deve estar muito ocupado, velando famintos. Meninos desamparados, velhos, bons e maus, esquecidos. Em muitos lugares...
Tanta coisa mais importante do que minha insônia!
Quanta grosseria de minha parte.
A insônia deve ser consciência pesada, as coisas que deveria ter feito e não foram feitas, daí, elas
aparecem salientes e sem sono.
Preciso desacompanhar as intenções não legitimadas...

Solineide Maria de Oliveira

LÍGIA...

Não era assim uma crise qualquer, era a crise dos trinta que anunciava muitas tensões e balbuciava perguntas tolas, perguntas rasteiras, perguntas sérias e perguntas seríssimas. Todas sem respostas. Além do mais, havia o desemprego que aconteceu sem mais nem menos. Todo desemprego acontece assim e instala medo e horror em todos aqueles que experimentam sua aparição. Uma aparição desagradável e tamanho único.
Trinta anos e pouca maturidade. Pouco jeito com as coisas, com as pessoas, com a maternidade. Apesar da filha ter completos seis anos de idade. A falta de tato para com decisões e conselhos maternos não era novidade alguma. Talvez, a tal crise tenha chegado em momento oportuno, pois estava mesmo na hora de decidir. Decidir, por exemplo, se queria ou não a cidade de prédios e pessoas se esbarrando em todas as ruas, vielas, pontes ou preferia um pouco menos de prédios e mais de casas. Voltar? Ir para o Japão? Parar por uns tempos? Voltar e recomeçar a partir de alguma sugestão ou a partir de sua própria intuição? Muitas perguntas. Todas sem respostas...
Dizem que a melhor decisão é fazer um movimento. Mover-se é alguma coisa entre o que pode ser feito e o que se tem a fazer num momento de crise. Lógico que existem aqueles casos que pedem silêncio e calma absoluta, mas não era esse o caso. De todas as buscas, a maior delas sem dúvida, é à busca de si mesmo. Dificílimo achar o caminho de si sem o envolvimento necessário com as crises. Talvez, sem tal envolvimento, o encontro nunca aconteça. Agora nem mesmo tais movimentos e envolvimentos garantem o achamento de si mesmo. Complicado não é mesmo? É tudo questão de paciência, leia-se Rilke.
Acender uma luz é alguma coisa entre necessário e mágico. Recorda o momento do nascer das coisas, do desabrochar das idéias e dos encontros. Encontros são um pouco luzes que se ascendem. Pode ser o contrário, mas aí tem de ser muito azarado para que todos os encontros sejam escuridão total. Estou falando de todos os encontros: os amorosos e os diários. Os acidentais e os calculados ansiosamente. Quando caminhamos para encontrar algo, alguma coisa, alguém, sentimos uma vastidão de emoções. Por causa dessa vastidão tamanha ,nos deparamos com a tristeza total, quando o que se esperava encontrar não era bem aquilo, aquela coisa, aquele resultado, aquela pessoa. Eu não sei como se chama isso em Filosofia, mas deve ser um nome bem melancólico.
Em Literatura existem vários, mas tentemos simplificar ao máximo. Sentimentos, emoções e afins, devem ser simplificadas quando escrevemos. Falando Religiosamente o nome disso deve ser falta de Deus. Um Frei disse uma coisa muito bonita quando ela foi visitá-lo num período onde esteve muito angustiada com tanta busca e pouco resultado. Ele lhe disse, que devemos colocar Deus em tudo o que fazemos. Ela perguntou com medo, porque o Frei trazia uma intelectualidade latente: mas Ele já não está em tudo? E o Frei lhe respondeu: mas tem de acreditar que Ele está.
É isso. Devemos acreditar que vamos encontrar. Visualizar o encontro com o que se deseja, o que se quer, aquele ou aquela a quem desejamos encontrar. Isso deve ter nome em Psicologia, mas não me interessa saber qual. Não gosto de nomes. Manuel de Barros disse “que o nome empobrece as coisas”. Se foi opinião do poeta, concordo, se foi conselho, acato.
Aprofundei-me demais em coisas que precisavam mesmo de aprofundamento. Sem esse aprofundamento não seria capaz continuar escrevendo essa história.
Aprofundei-me na vida dessa moça, era preciso. Não podia começar uma história sem o mínimo de apresentação. Aliás, sempre precisamos de alguma apresentação. Ainda que seja panorâmica, a Literatura que disse... Mesmo porque, história sem aprofundamento é igual a amor sem amor. Igual a carinho sem vontade. Igual a casamento sem companheirismo. Existe? Talvez exista, mas não quero saber onde, com quem, nem quando.
Ontem Bete esteve com Lígia.
O nome Lígia foi presente da tia solteirona. A tia, fã de uma com igual nome, do Tom Jobim, que fala de uma moça e tal, e um pino, e um telefonema abortado. Coisas do tipo. A menina em questão, da realidade viva, nasceu com cabelos fartos e pretos. Cresceu ouvindo quase diariamente a história da escolha de seu nome. A tal tia nunca se casou, nunca pariu nada, nem filhos, nem planos. Nem abortou, na mesma ordem. Às vezes (Bete me contou ) que sente que essa tia imprimiu em Lígia um pouco de espectro de sua própria falta de sorte com as coisas. Sobretudo com os relacionamentos. Contribuindo para as infelizes escolhas e desfechos nas histórias amorosas pelas quais Lígia se embrenhava.
Como estava dizendo: ontem Bete esteve com Lígia.
Lígia lhe contou que esteve com aquela pessoa. Aquela, pela qual carregava um bonde há algum tempo. Já contei sobre encontro deles dois? Bete me perguntou. Acho que não, respondi. Animada ela prosseguiu: Então contemos a partir do início.
Bete descreve tudo com minúcias. A gente tem que gostar dela para ouvi-la até o fim... E o fim para Bete não é o fim, ela sempre tem um ar de mistério, um silêncio mudo demais. Não sei ao certo, acho que uma cor que mistura tudo isso. A gente ouve Bete e ela parece que esteve lá, que viu tudo e que participou. É incrível como Bete dá um aspecto melhor às histórias, mesmo que não sejam histórias das quais tenha participado.
Lígia me disse que separou o vestido que aguardava ocasião específica, o cachecol para afastar a crise de garganta e a cara alegre. Aquela cara alegre de encontro. Aquela igual a todas as caras alegres de encontro com o ser por quem se pensa estar apaixonado.
Estava. Estava mesmo apaixonada.
Comprou duas tortas de limão e chocolate, dois sorvetes de maracujá (que acabou esquecendo na sorveteria), um cd que acabou desistindo de presenteá-lo. Tomou a decisão mais acertada de toda a sua decadente vida amorosa-psico-emocio-sentimental. Percebeu em meio ao almoço, que dali não passava. Mas tentava enganar-se, criava imagens, ilusões que tomavam sua cabeça. Enquanto isso, a cada garfada, ele silenciava a imensa indiferença que sentia. Já era alguma coisa, para quem dizia que não acreditava no amor.De repente o silêncio foi interrompido pela pergunta tola:
Você sempre come tão pouco?...
Ele devia saber que sim. Já que notadamente Lígia não passa de uns 45 quilos, distribuídos de forma a não parecer alguém com dificuldade de alimentação diária. Ela respondeu idiotadamente:
Sempre. Acho que é culpa de minha mãe. Desde pequena ela separava para mim, o menor pedaço de tudo quanto é alimento. Achava que não aguentaria comer mais. Mas sempre fui mingnon...
Ele parece ter fingido dar um riso frouxo o que fez Lígia desejar sumir dali por dez minutos. Em Língua Portuguesa isso deve ter um daqueles nomes estrambóticos de figuras de estilo, mas deixa pra lá. Melhor esquecer.
Desabafou que continuou, no entanto, pesquisando seu coração. Queria ver até onde ela agüentava encontros desastrosos. Até parecia real, mas não era. Definitivamente, aquele ser não estava interessado nela.
Lá no fim do encontro, triste além da conta, falou num tom marrom que era hora de partir. Ir para casa. Ele, alegremente disse que a tarde foi muito agradável. Agradável? Ela pensou: que bom. Pelo menos não disse “que bom que você já vai”, ou, “é tava na hora mesmo”.
Deveria parar de acreditar em encontros, mas não consegui ainda. Deixou escapar para mim. Senti pena de Lígia... Disse-lhe, para melhorar minha consciência, que em Semiótica isso deve ter nome, mas que naquele momento não tinha muita importância.
Lígia partiu, derramada, para casa. Suas pernas pesavam. O coração tamanho largo, pesava. As vistas enxergavam mal e pouco, mas avistou o ponto de ônibus. O caminho que muitas vezes percorrera sozinha, mais uma vez seria realizado da mesma igualita forma. O cobrador perguntou num tom cansado se não tinha trocado. Respondeu no mesmo tom que não. Até tinha, mas as mãos também estavam pesadas para realizarem o movimento de abrir a carteira e encontrar, sabe Deus onde, a moedeira.
Senti-me mal por não estar na cidade naquela semana. Poderia ter atendido o seu telefonema para minha casa, em busca de uma palavra amiga, confortadora, ou apenas de um par de ouvidos.
Um par de ouvidos sempre faz falta em momentos parecidos. A gente fala, o outro escuta até certo ponto. Depois, paramos para o silêncio cumprir a grande missão do que não sabemos esconder. O silêncio é o maior dos amigos para a maioria das ocasiões.
Ela decidiu que não iria mais encontrá-lo. Eu sabia que era mentira, que aquilo era da boca pra fora. Ela sempre ia até o fundo das histórias, principalmente das histórias de amor, mesmo que tudo sinalizasse para dar um basta, para não seguir, para... Nunca adiantou.
Ela seguia, irremediavelmente seguia... Talvez, por conta da grande resposta que procurava, a grande questão: Por que ninguém fica? Por que ninguém quer ficar?
Senti medo. Toda pergunta sem resposta dói, e minha amiga não suportaria chegar ao final daquela história, sem a tão desejada resposta. Pensei sem interromper Bete: tem pergunta que não merece ser respondida. Ou bem melhor, tem pergunta que não nos deveríamos fazer. Bete continuou me contando sobre Lígia e seu encontro desajeitado.
Lígia, então, decidiu que ficaria quieta por uns dias. Não ligaria, não mandaria e-mail, não respiraria. Conseguiu. Estava orgulhosa de minha amiga, estava conseguindo mesmo, duramente, a realização de suas promessas. Estava, já, quase curada. Mas eis que o moço não teve dó do coração de minha amiga e acenou de longe, sorrindo e garboso, com um par de olhos brilhantes. Eu, que estava ao lado de minha amiga, naquele ponto de ônibus lotado em dia de chuva, senti logo que ela sucumbiria... Quem não sucumbiria a tão bem disfarçados olhos e imenso sorriso (decorado) de enganar?
Já viram né? Ele chegou, disse umas improvisações. Disse que estava quase morto, que sentiu sua falta, que não sabia por qual razão não a havia procurado antes. E, por fim, implorou, quase, que fosse vê-lo em dia e lugar ardilosamente planejados. Ela disse sim.
Logo percebi que Bete deveria estar em casa durante um mês seguido. Certamente receberia uma ligação de Lígia, por ter sido mais uma vez, despreviligiada, em qualquer dia a partir daquele.
Lí-gi-a... Lí-gi-a... Você não aprende...

Solineide Maria de Oliveira

É Deus que a gente tem memória

Devia ser para sempre, mas não sei, parece maldição... O tempo vai levando as tradições... É Deus que algumas resistem. Quando não fisicamente, mas dentro de nós.

Parece ontem... A rua sendo enfeitada em véspera de São João.
Animação total em plena madrugada, nem o frio, nem o cansaço arrancavam o animo típico da data.
Minha mãe toda dona da satisfação em ver os filhos reunidos, unidos em prol da vida, numa diversão tão saudável. Ela sempre foi a mais alto astral nessas épocas, providenciando o milho ralado para a canjica, o amendoim e o licor de jenipapo.
O licor de jenipapo... Vinha primeiro da roça de painho, ou de tio Cravo, depois, das roças dos amigos dela, ou era algum tipo de presente dos vizinhos, que já sabiam da boa mão para licor, que ela sempre teve (e tem).
Em tempo! E que mão abençoada para todo tipo de comida, quase todas, e, no São João, parecia (em meu pensamento de criança) havia um quesito à mais naquelas mãos, para deixar tudo o que concebia, tão mais saboroso.
À essa altura já havíamos confeccionado as bandeirolas, balões e correntes, nas noites anteriores. Todos ajudavam, uns davam dinheiro, para compra de cordões e plásticos, e papéis coloridos, outros com a feitura das bandeirolas, e do restante dos enfeites.
Com a modernidade, as bandeirolas já vinham prontas, era só costurá-las nos cordões, mais prático, mas igualmente salutar.
Nada havia que não nos animasse, a rua havia de estar enfeitada.
Para os pequenos, a madrugada era muito comprida, então, vencidos pelo sono dormíamos logo, ao som das músicas juninas, embalados pelas vozes do pessoal arrumando a rua em véspera de São João. Os sonhos eram coloridos, enfeitados de balões e animados por traques e bombinhas, e busca-pés...
Quando amanhecia, pelas janelas avistávamos as fileiras de bandeirolas enfeitando tudo, até o fim da rua.
Quando o vento batia, fazendo dançar todas elas, num compasso que parecia ensaiado, dava vontade de danças e de soltar traque e de acender logo a fogueira, mas era preciso esperar entardecer.
Os quitutes estavam prontos lá pelas seis da tarde, faltava arrumá-los na mesa na cozinha; na sala os móveis eram impelidos para bem perto das paredes.
Decidido, painho colocava as caixas de som na janela da sala, separava os discos (bolachões) de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Marinês e sua gente, e outros, preferidos dele.
Quando vestíamos as roupas novas, de Festa Junina, a festa tomava então o corpo, a alma já estava toda imbuída de São João.
O som era um três em um, que tocava a noite inteira, sem fazer feio, repetia-se muito, o Trio Nordestino, outra pérola, que meu pai e minha mãe sempre gostaram.
Fica difícil contar direito, sobre a alegria daqueles dias, naqueles anos a fio... Pois tem coisas que apenas o coração saberia descrever com perfeição, mas ele, bombeando a vida imensamente, segue sentindo.
As feições de alegria de todos e as crianças e seus traques e bombinhas, busca-pés... Os tições da fogueira em chama que queimava até as tantas; minha mãe e meu pai animadíssimos.
Vez por outra uma ameaça de dançarem juntos, era raro, acho que tinham um pouco de vergonha, coisa dos mais velhos, mas dançavam uma ou outra música.
Algumas vezes um bêbado aparecia de alguma rua vizinha, embriagado também, pelo licor, mas eram mansos, ou dormiam, ou acabavam dançando sozinho até curarem a bebedeira.
Chegava uma hora da festa, em que todos trocavam os bolachões no três em um, isso fazia a festa seguir sem muitos minutos de descanso para os dançantes.
O frio? Um adereço para festa.
Cansaço? Nenhum.
É Deus, que a gente tem memória...

Solineide Maria - Junho de 2003
Para meu pai e minha mãe.

Projeção

Hoje, quando vi um casal de mãos dadas, senti falta de ti.
Caminhei em silêncio com os meus pensamentos fusos, difusos.
Confusão mental, coração em riste.
Não gostavas de mim. Não, como aquele velho segurando firme a mão de sua velhinha.
Mesmo assim, senti falta de ti, de tua ausente e reticente companhia.

Solineide Maria - Dez. 2001

Velha e recorrente infância

A infância foi-se indo embora, deixando um largo caminho pela frente a ser assimilado, concebido, amado.
Um caminho, muitas vezes medonho, às vezes encantador, às vezes solitário e frio.
Os amontoados de papeis, desenhos, riscos de inocência e paz que talvez nunca mais voltem, todos eles farão falta.
As várias brincadeiras todas, a sós ou reunidos, agora com outras crianças, na sala da casa na rua onde moramos.
A infância foi-se indo embora, mas ainda restam coisas que de tão fortes que existiram, visitam-me pela manhã e pela tarde, e pelas madrugadas.
Então, se as sinto tão intensamente vivas em mim, suponho que não deixam de parar de ir embora de mim.
Eu é que me vou embora das coisas. Caminho em torno de mim, como se estivesse indo ao meu encontro, penso que devo ter-me deixado perdida em minha infância.
Aquele puro estar sendo, puro pensamento, puro ser eu mesmo.
Eu vou-me indo embora atrás de mim.


Solineide Maria - em 2003

Rua dos Jornalistas

Eu não distribuo aquilo que não é meu, mas pedem que eu tire a máscara,
a máscara sou eu.

Eu não jogo, sou essa a quem veem, mas o mundo pede retornos materiais,
eu não os tenho.

Eu não entendo a vida, nem ela a mim me entende.
Eu não sou isso aqui.
Fui outra pessoa e não esqueci.

Solineide Maria - Março 2003

Acolá – Acode aqui, acode lá...

De onde eu vim o céu é azul e voam pássaros. Onde estou, os céus são cinza, os pássaros, de aço.
A tarde de onde eu vim, o sol deita sereno e tranquilo, as pessoas voltam calmamente para suas casas, alguns param para bebericar e comer acarajé, ou vão para suas casas e simplesmente abraçar a paz de um belo café preto, puro e bom.
Aqui a tarde é medonha pelas ruas, os carros voam loucos, ultrapassam os sinais, as lotações enchidas, todos com apreensão de chegar em casa, pois a noite é curta e logo é de manhã, para tudo recomeçar atordoadamente. O descanso é cansado, morno, pouco.
O sustento de onde eu vim, dá para levar a vida, simplesmente, numa espécie de resignação cristã, às vezes frustração, às vezes melancolia.
Aqui se ganha e paga-se, na mesma moeda. Às vezes, algum lazer, pouco e caro, às vezes gratuito...
Onde fica o caminho para a satisfação?
Seguimos então um caminho feito de incertezas, aqui, ou lá.


Solineide Maria em 2003. Quando estava em São Paulo.
Hoje, relendo tal texto, verifico que Itabuna não está tão diferente da cidade de aço que conheci e amei e odiei. Hoje Itabuna cresce em violência urbana, descaso público e egoísmo, coisas que pensava comuns, apenas, numa grande capital. É que somos os mesmos em qualquer parte do Globo não é mesmo?

A VOLTA DA POESIA ALEGRE

Poesia alegre é a vida, quando acorda o coração.
Nalgum sentimento extinto que revive do porão.
Aqueles que já viveram a dor de uma rejeição sabem bem do que eu falo.
Poesia alegre é alguém que volta a dizer bobagens de carinho ou de outra coisa.
Que volta a querer ter perto, alguém para um longo abraço.


Solineide Maria em 12/2003

PROFECIA DESPEJADA

Deixa eu dizer:
os favelados aos montes estão por aí, entrando nos lugares mais recônditos.
Por aí também, a indiferença ampara os descontentes.
Nenhuma novidade, mas ao fundo existe uma mensagem, e se olharmos com carinho, quase explícita.

Deixa eu dizer:
a vida organiza a virada aos poucos, mas aos montes, as mudanças invadem os lugares e sobretudo as pessoas.
Dos moradores de casa de papelão, pode vir a solução.
Dos que comem restos (sobras) virá a comoção do Amor Divino, espalhará luz cintilante. Avante.

Dos ombros dos que carregam além de pedras, sonhos.
Desses ombros hão de aparecer asas flamantes e a força de um novo homem surgirá estonteante.

Deixa estar.
Plantai vida nas crianças, são os homens a seguir.
A angústia comerá as horas vazias dos que sujam o dinheiro.

Deixa-me dizer:
Dos que saem as três da matina, vai aparecer o homem que mudará e, então, a límpida mudança há de reinar e o sol do AMOR há de apontar.

Deixa estar.


Solineide Maria em 25-09-03.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A viagem

A mala carrega as roupas e a esperança.
As meias e o cachecol.
A mala carrega o silêncio dos tecidos dobrados, arrumados.
Eles se perguntam o que há de ser? Para onde estamos indo?
Deve ser tão difícil ser roupas dentro da mala.
Nada saber do destino, nada saber a que horas o vôo pousará.
Em que estação vai estar o lugar que não se sabe...
Qual peça, primeiro, sairá?
À dona da mala, com o coração ansiosamente preparado ou pré parado.
Ainda não se sabe, porque a viagem nada aconselha. A viagem é puro caos
Na cabeça. Pensamentos amarrotados querendo neurônios mais calmos.
Em vão o desejo de calma.
Calma? Apenas quando descer...
Sair, desembrulhar a vida para a vida que será.


Solineide Maria - janeiro de 2010

domingo, 10 de janeiro de 2010

Pessoal:


Devem ter notado que postei uns trabalhos escritos para granjear pontos no Curso que faço. Granjear no bom sentido. (rsrs)
Espero que não se sintam engasturados. Rejeitem o que não gostarem e leiam o que acharem interessante; feito?
Com o passar do tempo, e da faxina no meu computador, tenho descoberto algumas coisas que considerei úteis, então, encontrarão outros trabalhos, escritos para granjear pontos no Curso que faço na UESC, (rsrs) por aqui.
Sem ressentimentos? Está bem então.

Solineide Maria de Oliveira
"Ter fé é acreditar nas coisas que você não vê; a recompensa por essa fé é ver aquilo em que você acredita."

Santo Agostinho

Nossa Senhora dos Rejeitados

Peço que debruce em mim os Seus cabelos, para que eles toquem meus olhos e eu esqueça. Para que eu esqueça como é o olhar de quem não me quer, mas aceita minhas poesias, poemas e tolices oralizadas.
Rogo, Senhora, que uma hora dessas, ele me fale em bom tom: saia de minha frente! Saia do meu e-mail! Como quem quer dizer: “desapareça, pois eu não te quero”.
Clamo, Senhora, com o coração esgarçado feito uma luva velha, feito um tapete envelhecido, feito um desses lençóis puídos - que isso que não cessa, esse sentimento intranqüilo por não ter sido recebido, seja retirado como em mágica.
É minha culpa, foi minha grande culpa eu sei, mas agora basta Senhora.
Assumo que sou pueril, que fui pueril, que insisti e que pequei por isso. No entanto, neste momento Nossa Senhora dos Rejeitados, apanhe minha sacola de pano em vão bordada, a minha mão caída e me guie em outra direção. Outra, que não tenha nenhum homem leitor. Outra, onde minha poesia rechaçada, possa ser escrita para o silêncio das paredes despovoadas.
Amém.

Solineide Maria - Para O Livro de Orações da Mulher - 18/11/08 (23:47)

Santo Antonio dos desencontrados

Outro dia li, que não devemos andar sozinhos por aí, que o homem não nasceu para ser desamparado. Decidi, então, solicitar Vosso olhar. Peço, não deixeis de mirar em minha direção, já que sou “a desencontrada”.
Solicito que não me desencontreis.
Seja um meu guia companheiro e carinhoso. Não consigo mais mentir que ando me acostumando em estar sozinha, desencontrada.
Santo Antonio dos desencontrados, suplico então, humildemente, seja minha companhia.

Solineide Maria 22/11/08 - 19:55 - Para O Livro de Orações da Mulher - inédito.
Naquele tempo, quando tu não existias em mim, minha calma era paciente. Havia cor para separar as claridades.
Naquele tempo, quando eu não sabia de tuas maravilhas, meu andar percorria por onde eu ordenava. Encontrava tranqüilidade em tudo (quase) que diziam ser coisas de sossegar.
Naquele tempo, quando nunca antes havia degustado do teu abraço, conseguia me concentrar.
Naquele tempo, quando tu não existias em mim.

Solineide Maria de Oliveira em 02/10/2008

O PODER DOS NEWSGROUPS (O mercado jovem e o marketing do cool)

O PODER DOS NEWSGROUPS
(O mercado jovem e o marketing do cool)

“NENHUM ESPAÇO FICOU SEM MARCA.”

A contradição dos que buscam ser diferente sendo exatamente igual a todo mundo é deprimente. Enquanto as marcas usam e abusam dos corpos e mentes, é possível verificar a auto-alienação que acontece (sobretudo) com os jovens e sua cultura. É como se da luz viesse as trevas, a escuridão, a negação de outra “alternativa”. Ser alternativo não existe mais. Podemos imaginar aquela brincadeira de criança que usa a pergunta “cadê a carne que estava aqui” sendo usada para outra finalidade. Saber “cadê a cultura tal que estava aqui?”. Evidente que a resposta seria: A MARCA COMEU...
Quando as marcas descobriram que os jovens eram um mercado extremamente promissor, começaram a investir pesado nas criações para essa fatia. Havia aparecido a oportunidade tão esperada. A cultura jovem torna-se uma verdadeira mina de ouro no início da década de 90 quando começou “a crise da marca”, quando surgiu a carência de uma nova classe de compradores.
Esse deslocamento de foco da fábrica para a empresa traz os caçadores de diferença: pessoas que vão em busca do que está sendo usado pelos jovens, o que está atual, o que está sendo aceito. Essa caçada começa nos guetos já que “as roupas mais empolgantes são as das pessoas mais pobres” segundo o estilista Christian Lacroix. A Tommy Hilfiger habitua-se a utilizar modelos negros “unido” a brancos e a bandeira dos EUA de fundo, fazendo referência a imagem de sociedade ideal. Redesenhou roupas, adotando o estilo cores mais fortes, roupas maiores e mais largas.
A Nike foi além, se apossou do estilo e atitude dos negros do gueto e adotou uma prática que eles definem como “bro-ing”, que nada mais é que enviar uma equipe de marketing às quadras de basquete da periferia e dizer” e aí bro, o que você acha desse tênis, dessa calça, dessa camiseta?”. É ridículo, mas é verdade. Funcionou. Tanto que hoje a Nike desenvolve centros de recreação para periferia, promovendo seus produtos e “testando” seus produtos. Em áreas mais elegantes da cidade onde os ricos moram isso seria chamado de publicidade e o espaço teria de ser pago, mas no gueto a Nike não paga nada e toda a exploração é chamada de donativo.
Mercantilizaram (sobretudo) a cultura jovem. “A maior parte da cultura jovem” se transformou no que os sociólogos Robert Goldman e Stephen Papson chamam de “desenvolvimento interrompido”. Eles acreditam que sem a exploração comercial do punk, grunge ou hip hop não teríamos idéia do que seriam.
Para que as marcas sejam de fato cool começam a fazer o marketing da negação do cool ― que fatalmente acaba por toná-las cool.
Acaba que o cool usado é o novo cool. O espaço mental então é alcançado. Toda essa teia é extremamente planejada. Todo o espaço então é invadido e as marcas se apropriam até do passado, do “retrô”, das histórias reconsumidas.
Não sabemos se há algum espaço que a marca não tenha conseguido sorver. Além do capítulo pesquisado, o livro, em seu bojo, nos convida a refletir sobre o cerne de tais questões. E muito maior, fornece material para outros questionamentos igualmente importantes, acerca dos perigos da globalização que envolve toda a estrutura das marcas.


COOL é uma expressão em inglês, significa: "legal!!" uma definição para o termo - encontrado em: br.geocities.com/cucagelada/glossario/c.htm

Resumo do capítulo O poder dos newsgroups - O mercado jovem e o marketing do cool; do Livro SEM LOGO da AUTORA: NAOMI KLEIN.
Este Resumo foi apresentado por Solineide Maria de Oliveira na Disciplina CHF 109 Sociologia II do Curso de Letras da Universidade Estadual de Santa Cruz como avaliação do 2º crédito.

Um bilhete para Flora Maria

No breve espaço, escrevo seu nome.
Você, meu único poema perfeito, sem equívocos.
Arde o meu coração, de tanto amor.
Resguardo o fôlego.
Flora Maria de mãos pequenas, mas tão companheiras...
Por que confias tanto assim ?
Ser mãe não quer dizer ter fortaleza,
você é que veio encorajar meu jardim.

Solineide Maria - 2000

RETRATO

Sou dos cantos,
e falo pouco.
Eu sou das frestas mais apertadas.
Perco a visão,
vejo em metades.
Entanto enxergo longe,
às vezes...
Sou mesmo esse
quase
irritante,
talvez por opção.
Sou meio gente,
meio bicho.
Um pouco camaleão.
Sou.
Um pouco restrita,
tudo em vão.

Solineide Maria - 17-03-02

PALAVRAS INVISÍVEIS

Nossas palavras sempre foram invisíveis.
Sem o mínimo de força: nem para levantar brisa,
nem o mínimo de amor,
nem o mínimo de ódio.

Sempre insossas.

Cansava só em pensá-las.
Logo se desfaziam em suas inutilidades de palavras invisíveis.
Na mímica do diálogo que nunca acontecia.
No engasgo do brado que poderia surgir de uma discussão,
que poderia surgir... mas nunca surgia.
As falas sempre às favas.
Sempre.
Nossas palavras sempre foram invisíveis.


Solineide Maria - 2001

Oração da mulher em momento de decisão

Pai,
meu nome não importa, sou uma sua filha, buscando as respostas para minhas aflições e dúvidas.
Dai-me Senhor de todo o universo, sabedoria para discernir qual é o meu caminho, que rumo devo seguir e qual a trilha que devo pegar.
Fazei meu Deus, que essa angústia seja calada, que Tua paz alcance o meu coração, que minha decisão seja a Tua decisão.
Amém

Solineide Maria de Oliveira - Para O Livro de Orações da Mulher - no prelo.

VÓ AUGUSTA

Quando era pequena, mais ou menos sete anos, as nossas merendas ou eram concebidas por mãos maternais ou vindas da casa da Vó Augusta.
Aliás que a vó Augusta era uma senhora magra, alta, branca, a qual chamávamos de vó, por ser muito amiga de nossa mãe, por ter um íntimo convívio conosco e, penso intimamente, por ter tido sempre, aquele ar de avó, jeito mesmo, e aquela mão cheia para doces e gostosuras tadvindas de uma cozinha típica de avó.
Ela fazia de tudo: amendoim torrado (carinhosamente embalados em papel de embrulho) bijus de coco bem molhadinhos, enrolados ainda quentes em folha de bananeira cuidadosamente limpas, e, a tão cobiçada cocada-puxa.
Sua casa, que ficava ao lado da nossa, tinha o chão vermelho, liso e limpo. O fogão à lenha, servia de palco para o surgimento das delícias que ela sempre inventava, ouvindo o louro (seu companheiro de muitos anos) tagarelando em seu poleiro.
Uma vez, presenciei a limpeza semanal que fazia na cristaleira antiga. Aquele móvel tomava uma parede inteira que dava no segundo quarto. Tanto carinho em seus olhos, tanta leveza em suas mãos. Ela limpava cada copo, cada compota, depois os punha de volta em seus devidos lugares nas prateleiras limpinhas.
Sentia alegria em ter uma vó postiça, já que a minha avó paterna morreu quando era pequena, dez ou onze anos, não me lembro, e a materna, não conheci. Então, essa vó com mãos tão talentosas para merendinhas, para colchas de retalho, para bordados em toalhas de linho branco, para lidar com a vida simples que tinha; representava bem as minhas avós.
Mais tarde percebi que aquela mulher, havia se tornado mais do que vó Augusta, acabou virando uma figura folclórica da infância de minha vida.


Solineide Maria - Para Na casa aonde estão os meus dias- livro de recordações que venho trabalhando. Ainda nos primeiros textos.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Aqui, data atemporal...

Sou estagiária de mim mesma. Não me condene por estar borrada em palavras quase incomuns. Não sei ser exatamente. Fujo das coisas que não brilham. Mas quem não foge? Por isso corri tanto em sua direção.
Queria ficar ao seu redor, no entorno de você. Minha luz, afinal, depois de muito tempo na penumbra.
Não me condene por arriscar tanto, tão insistentemente. Esfreguei muitas vezes as mãos para conseguir um pouco de calor, antes de conhecer um pouco do seu.
Eu não estou escrevendo uma carta, estou me declarando pela última vez.
Última vez por culpa de um destino que me empurra para longe de você. Não mereço a sua luz? Não poderia responder a tal questionamento nesse momento. Meu peito dói e minha cabeça não pensa direito e meu pouco estímulo está sendo gasto sobre as teclas deste computador antigo, mas útil e...
Gostaria de voltar ao e-mail inicial, onde escrevi apenas um convite. Outra vez a luz foge?
E o que deve ser diferente daquilo que tanto você quer. Não agradei por tanto insistir? Desculpe. Outra vez a insistência por questões definidas já.
Peço perdão. Há um poema do Vinícius que se inicia assim: “peço perdão por te amar de repente/embora o meu amor seja uma antiga canção em teus ouvidos”. Peço ao poeta a licença dos que se esvaziaram em palavras tolas e dedico tais versos a você.
Sinto muito por tanta tolice em plena era contemporânea. Época em que já deveria ter aprendido ao menos, que poesia e amor se entendem apenas, nas vielas belamente iluminadas das folhas em branco.
Não sei dizer adeus, no entanto. Não sei. Acho que não consigo. É isso. Não consigo, porque você foi a melhor novidade antiga que me apareceu nesses últimos tempos de paradeiro emocio-sentimental.
Uma pessoa triste é uma bomba. Escrevi isso no último e-mail. E é verdade. Ainda mais, quando tal pessoa viu a luz e a luz olhou, sorriu e se apagou.
Talvez, o imenso momento de silêncio noturno, entre a leitura mal feita e o sono mal dormido, consiga resgatar minha homeopática vida afetiva. Para voltar a ser com empenho, a estagiária de mim mesma, que sempre fui.
Ainda que tenha sido rápido, feito uma lufada de vento na primavera dos amores incompletos, eu agradeço por você ter aparecido.

Solineide Maria de Oliveira
Dedicado a todos que buscam um endereço definitivo para cartas, bilhetes, cartões, e-mails...

Te quiero

Yo te quiero para dividir mi silencio,
para cambiar de problema,
para mirar las estrellas,
para oir el mar y para no oirlo.
Para salir de noche y no sentir más miedo.
Para salir solamente.

Yo te quiero para cambiar de teléfono,
para hablar alto y para hablar bajo.
Para no tener preocupación com el desconocido.
Para decir que quiero y que no quiero tener.
Para escuchar tu voz ecoando en mis pensamientos.

Solamente te quiero
hasta un momento,
hasta un ratito.
Para poner mis manos en tus manos.
Para aquietar mi corazón descompassado...



Solineide Maria - em algum mês de de 2006

Mas às vezes...

Mas às vezes fica triste
O que sinto.
Sente frio e põe-se a chorar vontade
De ser recompensado.

Às vezes vai pro cinema sozinho e perde a fome.
Nunca incomoda, quase. Mas sente incômodo.
Mas às vezes, deixa que eu lhe diga,
Fica doente, o que sinto.

Acamado, não sente sede, paz, tesão
Por nada que não seja você.
Às vezes, o que sinto,
Levanta tarde da noite pra escrever.

São palavras que nunca alcançarão você.
Palavras cheias de insônia e auto-piedade.
Mas às vezes fica assim
O que sinto.

Solineide Maria - hoje de 2010

O que sinto



O que sinto não tem a ver com amor banal.
Esse que dizem existir por aí aos montes.
Ele pisa leve, não quer mal.
O que sinto é assim, quase total.

O que sinto (por você) me perdoe
Não é corriqueiro. Não é tinta comum,
Não fecunda com duas gotas de esperma.
O que sinto meu amor, já ficou pra semente.

Por isso é que não morre.
Mesmo quando você passa e disfarça.
Mesmo quando não vê sentido e cai em desgraça.
Ainda assim fecunda e volta mais quente.

Não é isso que falam por aí. Toma, toma, toma...
É puro amor brasão antigo, silêncio tinto.
É doação de tempo e crença firmes.
O que sinto é assim, quase total.

Solineide Maria - 2008

VOCÊ É VICE-REAL...

Você é vice-real. Tem medo de tudo, quase. Sabe escrever, leu muito, pensa rápido e bem, mas não concebe emoções. Não sabe lidar com elas. Pior, delas, você foge.
Nascido para a vida.
É bonito ver você. Solto. Liberto. Empolgado. Vice-real, como as sombras dos que não suportam calafrios.
Você é bonito.
Desajeitado, descolado, desarranjado das coisas sensíveis, mas no duro? Você é frágil. Muito frágil.
Talvez, na sua intimidade, existam dragões maiores dos que dos seres normais. Claro, pois sendo vice-real, não há mais nenhum ser que se pareça com você.
E sendo vice-real, você instiga, incide à dúvida, deixa uma sensação de querer mais, mais, mais... Mas não existe esse mais de você.
A sua vice-aparição causa inquietude, porque você chega e sai ileso. Ela causa danos aos incautos. E quase todos somos incautos. Você não.
Sendo vice-real você é apaixonate, aterrador, chocante, lúdico e telúrico, forte, farto.
Você sai ileso de qualquer coisa. E qualquer coisa pra você é tudo. Quase tudo pra você é comum. Mas você se entristece, quando chega perto da linha tênue do querer mundano.
Maldito mundo real. Vida real.
Sendo vice-real você se assusta. E daí, toda a Literatura lida, escrita, resumida, deglutida por você, é derrubada por terra. Nada do que venha dela aquieta seu coração.
VICE-REAL!
Você sofre com a falta de tato com as coisas sutis.
Você é muito bonito assim, frágil. Sua sentimentalidade é guardada em potes de barro indizível, reforçada com areias translúcidas.
És frágil.
És belo.
Homem de algum dia, de algum lugar.
Você é vice-real.


Solineide Maria - 11/08
PARA AMEMÓRIA DE UM VICE-RELACIONAMENTO


SALVAR COMO?

Logo o passado virá, para as cobranças dum presente sem progresso.
As mãos sem uso, os pés cansados, o coração sem amor.
Na varanda, a visão perfeita de um dia perfeito, mas sem uso coerente.
Onde foram parar meus rascunhos sobre um certo futuro promissor?
Hei de lançar-me louca, feito lagarta no cio?
E dos tantos sonhos, o que dizer? Se todos estão amarelecidos por conta do tempo...
Quantas esquinas tem uma dor? Depois do clarão da dúvida, nenhuma certeza se assoma.
Resta apenas acordar e dormir. Gestos tão automáticos quanto respirar.
O som de uma voz que não ouvi, lembrando que o tempo não perdoa.
Então que doa em mim toda a dor de uma incessante busca.
Quem sabe exista um zero oitocentos para o sucesso, mas onde estaria?


Solineide Maria - em 2005
Zimermam é o nome do meu amigo

No início era antes. E antes era apenas antes. Não tinha tampa de nada, nem de remédio e nem de panela. Nem tinha remédio. Era tanto, tão diferente, que as árvores tinham mais cores e eram mais altas. Antes, eu não sei quando, pampa era um lugar sem ladeiras, todo verdinho e bonito. Hoje quer dizer muito.
Minha mãe, que não estudou muito, me contou que as palavras mudam de sentido. Minha mãe sabe quase tudo. Ela só não sabe trançar as linhas de fazer artesanato, mas nem precisava, ela trança seu cabelo, tão bonito.
Antes, pra saber o que uma coisa queria dizer, a gente usava o dicionário. Hoje, a gente usa a internet. O meu coleguinha disse para a Andressa, que o computador da casa dele tem isso, a internet. É tanta novidade que ele conta, que às vezes eu demoro um tantão assim pra acreditar.
A semana está grande feito um avião, mas eu vou pro campo de futebol com meu amigo Zimermam. Eu sei, o nome dele é meio esquisito, mas é meu melhor amigo. Outro dia ele me contou, que eu escrevia o nome dele errado. Fiquei tão chateado... Como é que eu erro o nome do meu melhor amigo, e por tanto tempo.



Solineide Maria de Oliveira - em 15/08/2008

Texto escrito por mim, para uma Atividade de Pesquisa de Campo, na Disciplina do Maravilhoso Professor Doutor Odilon Pinto, na Disciplina Linguística III.
Estávamos verificando o uso dos fonemas, e, posteriormente, escrevemos eu e o Agildo Oliveira, colega de empreitada, um Artigo SOBRE OS ASPECTOS DA REPRESENTAÇÃO DO FONEMA /ã/.
Durante a pesquisa verificamos ainda, a ocorrência da troca de ão por am e o contrário. Bem como a confusão de uso de n em vez de m. Negritei as palavras que mais meninos e meninas (estudantes de 5ª e 6ª séries) fizeram confusão. Tudo muito compreensível.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A tecnologia e seus produtos quase frios

O e-mail não tem nada.
Fico abrindo a toda hora e a todo momento
e não tem nada,
nenhuma novidade.
Algumas notícias, algumas mensagens,
mas não tem aquele tchan de abrir a carta;
não tem aquele susto do telegrama,
não tem.
Abre – abriu... passou!
Acaba fácil a novidade.
Acaba fácil a urgência.
O e-mail não é de nada...

Solineide Maria - Para Clinio Jorge.

Oração pelo entendimento, crescimento e encontro de si

Senhor,
não desejo criar filhos sem o mínimo de pão e leite espirituais. Não quero, também, alimentar as incertezas de fidelidade daquele que se diz meu companheiro, esposo, marido... Fazei com que eu seja tão feliz quanto triste, mas não me deixe cair na tentação de julgar a vida de outros, sobretudo daqueles que nem sei direito, que não enxergo, que não vivo perto.
Fazei com que entenda sobre as verdadeiras relações, aquelas que ficam, apesar das distâncias, as que vingam, apesar das diferenças e as que desejam ficar, ainda que a vida teime em negá-la a existência.
Essa comunhão verdadeira é a que desejo aprender, Senhor. Ensina-me a ser o que ainda não sou e preciso ser.
Amém

Solineide Maria - para O Livro de Orações da Mulher - no prelo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

EU QUERIA

Eu queria abraçar-te um só momento,
e dizer-te num meigo e curto beijo,
que nunca esquecerei tua presença.
Que antes de aqui terdes aportado,

nesta pequena e tristíssima sala solitária,
já havias de mim te apropriado.
Não permitas que antes de ir-me embora
nunca mais possa ver-te a desejar-me

boa noite, bom dia e bom adeus.
Eu queria ainda mais um pouco,
que teus dedos formassem uma
benção no meu rosto:

que anda triste, que anda só, que anda saudoso.
Mas é tudo num futuro inexistente
que desejo tais loucuras meu amado,
pois bem sei que estás em outros braços

e bem sei que estes, são mais encarnados.
Não te culpo, sou frágil mesmo e não sou bela.
Não te culpo, sou mesmo falha e meus versos
não dão conta de enfeitar a tua casa: não bordam,

não cozinham e nem tecem...
Eu queria que antes de encontrar-te, já tivesse
minha vida organizado e assim, tranqüilos,
escreveríamos versos pela tarde.


Solineide Maria de Oliveira – para o Livro de Orações da Mulher – no prelo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Incompreensão

Como pode uma voz ser tão doce
e encorajar sentimentos
e lembrar rios correndo
e adocicar os ouvidos, e não me enxergar?

E mesmo em não me enxergando
como pode, eu, que tantas vezes
pequei por palavras, atos, omissões
e outras, não desencantar?

Para Darcy Moreira Sales com carinho. Feliz 2010!
terça-feira às 19:46

Dos espetáculos não entendidos

Também já vi uma bailarina
Dançar sem pés sobre uma pista
De folhas secas
E terra musga.

Nunca pensei juro, que fosse
Tão infeliz.
Seus pés inchados,
Choravam dores...

Tal bailarina, fatigada e só
Consumiu o que tinha
Para dançar de peito aberto
Para os pagantes.

Horrorosos esses que pagam,
E nada.
Sentam-se e aplaudem,
E nada.

A bailarina sabia que ali
Estavam seres tão insensíveis
Aos movimentos
Quanto aos seus pés.

Seres assim como os não seres...
E os não saberes daquelas almas
Nem sei, seriam
Saberás? Almas divinas?

No espetáculo dos que se agastam
Estariam interessados?
Seriam amigos desolados
De outras eras?

De onde, diz? O vão sorriso?
Sombra de alguma vastidão
Nunca alcançada.
Espelho cru, imagem-nada.

Também já vi uma bailarina
Dançar sem pés sobre um monturo
De indiferença
E ódios hirtos.

Solineide Maria de Oliveira – Outro poema para Cecília Meireles

Navegações de dentro

hoje a varanda não tem flores
e uma voz ecoa palavras que quero esquecer.
hoje não será mais, a mesma coisa. Nunca será. Nunca é.
e não habitará mais, em mim, a impressão de afinidade.

toda verdade acrescenta.
e num piscar de olhos, a gente conhece direito,
ouve direito,
vê direito.

mas sempre é um difícil exercício, esse, de
ter ouvidos de ouvir,
olhos de ver,
coração de sentir,
e alma de entender.

Solineide Maria 05/01/2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

Deus:
purificai minha imaginação, para que possa desenhar as palavras feito criança inocente, nos papeis que encontra.
Não deixai em mim, presa feito água podre, a palavra que dilacera e fere.
Trazei minha narrativa sem nódoa.
E, definitivamente, livrai-me de mim.
Amém.

Solineide Maria 02/01/2010

Navio bom, é navio longe.

Também já fui marinheiro
só não sabia nadar
nem alinhar todas velas.

Não esquecia porém,
de tomar a precaução
de acender minha luz.

Luz que nunca se apagara
embora a maré da vida
e os ribombos a chacualhe.

Fiquei em Chipre, parado,
talvez esteja por lá
meu anel desencontrado.

Também já fui marinheiro,
amei, desamei, sonhei em vão.
Navio bom, é navio longe.

Solineide Maria - 02/01/2010

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010