sábado, 26 de janeiro de 2013

Poema sem título


Não cabe em mim o que sinto.
Insiste em querer lamber a praia,
teima em se aventurar pelas nuvens.
Quer abrir os dias brincando de escorregar
nos primeiros raios de sol.
Não cabe em mim...
Entra em meus sonhos devagar,
faz parte de todos eles.
Enfeita as árvores que não dão frutos
com flores mais do que belas.
São a razão do cantar dos pássaros
nas florestas que permanecem intactas.
Não cabe...
E quando estou triste, 
bem triste,
triste de dar pena;
transforma-se em palavras
para me beijar em forma de poema.

Te amo.

Solineide Maria

sábado, 19 de janeiro de 2013

Alzheimer


De quem é essa respiração 
sonolenta e falha,
que não se atreve a perder o ritmo?
De quem á mão que me cobriu a pele,
num  cobertor que não estava aqui?
Para onde foi minha memória?
Aonde as coisas começam a acontecer?
Quem sou eu, 
não essa pessoa que não sabe,
não lembra...
Lembra mal,
lembra pouco,
esquece,
esquece...
Esquece!


Dedico aos que sabem o que é lidar com alguém que foi alcançado por esse enigma...

Solineide Maria

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

"Regi faz falta né Glória?"

Minha mãe foi para a roça.
A vizinha lamenta com a outra:
"Regi faz falta né Glória?".
Eu ouço, daqui da cozinha...
Minha mãe faz falta mesmo.
Lamento não ter o poder de transmitir
o amor que sinto.
Lamento não conseguir dizer 
todos os dias:
obrigada por tudo.
Lamento ter de admitir
que não a amo com gestos,
tanto quanto mereces.
Mas sim, a amo muito.
Todos os dias quando chego e a vejo
atribulada nas coisas da cozinha...
Todas as vezes que recebo o comprimido
contra a sinusite e a tendinite...
Todas as vezes que dispara em minha cara:
"você se queixa demais!"
É coisa de poeta minha mãe...
As queixas e o jeito distante.
A alegria sem jeito e a presença ausente...
O aceite rápido por qualquer prato do dia...
A indecisão em ir ou ficar...
A vontade maior de ir
em vez de ficar...
Perdoe-me por ser esta que sou,
mas  concordo com a vizinha 
e com a casa:
"Regi faz falta..."

Dedico este poema aos meus irmãos de sangue.

O Mestre (de obras)

O homem constrói uma casa do outro lado da rua.
É mestre de obras.
Disse que pegou o serviço por empreitada, quer ser disciplinado e acabar no prazo: "ganhar nota dez"! Fala e mostra o sorriso vazio dos banguelas...
Ofereço um café (mania de pobre solícito) e ele acata o carinho ofertado.
Diz que me vê no computador todos os dias (a janela da cozinha dá para a laje da casa onde ele trabalha).
Ele pergunta: "você é professora?" Consinto com a cabeça.
Ele diz que não teve força para estudar. Eu investigo o que seria isso.
Ele diz que não aguentava trabalhar durante o dia e ir para a escola no turno noturno. "Muita canseira"; acrescentou...
Contou que tinha uns professores que não estavam nem aí para ele (e para outros alunos).
Perguntei o que seria esse "nem aí". Ele respondeu: "eles não sabiam quem eu era, nem quando estava presente, nem quando estava ausente." 
"Se tivesse tido apoio, seria professor"... Continua, com voz um pouco triste.
Eu o olho com pena e alegria.
Alegria por saber que ele teria ido muito mais em frente, que poderia ter chegado ao Ensino Médio, passado por ele, talvez. Poderia ter chegado até uma universidade pública sim.
Alegria por perceber que ele poderia construir sua casa íntima do saber. Alegria de vislumbrar, mesmo num momento rápido, seu sorriso (com dentes) por ter chegado mais rapidamente ao Conhecimento...
Volto do meu sonho instantâneo e sinto pena.
Pena por perceber que ele crê que em sendo professor, teria menos cimento em suas mãos... Menos pedras em suas mãos... Menos ferro em suas mãos... Mais consolo em suas mãos... Mais reconhecimento em suas mãos... Mais dinheiro em suas mãos...

Solineide Maria



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Gramática para a vida


Não basta saber o que é artigo,
se você não sabe quem são os malandros 
que não querem que você entenda:
que você é o sujeito que "eles" querem 
que viva se sujeitando!

Solineide Maria

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Uma tarde deserta



Uma tarde deserta
tem uma doçura triste,
feito um coração indiferente.
Feito uma cama arrumada...

Uma tarde deserta
convida a deitar de olhos abertos,
sem crer nem duvidar,
como fazem os covardes.

Uma tarde deserta
não serve para escrever cartas.
As palavras não aparecem,
nem sinalizam sequer...

Uma tarde deserta
pertence àquele grupo de coisas
de entristecer.
Divide parede com a solidão vazia.
As noites sem poesia são as suas tias.

Solineide Maria 
(Livro De guardar, de esquecer, de lembrar. Prontinho para edição).

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Oração número 2013!

Deixa Senhor, subir até a Sua casa.
Tomar café, chá ou água.
Falar de minhas meninices vãs,
num mundo cheio de "adultices"...
Queria tanto começar de novo a aprender
ser gente grande...
Queria tanto começar de novo a ser quem devo ser...
Deixa que suba até Sua varanda,
e de lá possa trazer respostas certeiras.
Queria ser mais forte,
mais esperta,
mais alta,
mais bonita,
mais, mais, mais...
Mas o mundo a mim
tão pouco oferta...

Solineide Maria

"ESCRELER!"

"ESCRELER!"

É o que venho tentando fazer.
Ver a palavra escrita
na retina de minha vida!














Solineide Maria
Castorina 
 (minha Tutora atual) 
 tem uma cara séria... 

Olha como quem vê 
que não curti, 
que ainda não li, 
que não sei ao certo, 
o que ela quer de mim... 




Solineide Maria
Para Castorina
Tutora no Módulo:  Construção da Identidade do Educador

QUANDO A VIOLÊNCIA VIROU POESIA

Peço desculpas gerais
mas quero falar em versos
o que ocorreu noite passada.
A violência cansou de esperar por suas férias
chamou a paz e falou:

- Vamos para a boa terra da poesia minha cara?
A paz respondeu contente:
- Vamos!
Quero ser feliz ao menos num verso rápido,
tosco e pequeno...
pode ser que seja até incoerente com os moldes
das narrativas legais...

Declarou em tom muito calmo, a violência para a paz:
- Quero ser falada em versos
Declamada aos demais
Quero ver todos suspensos pela beleza dos ais
que tanto ajudo ocorrer.

Em versos,
posso conseguir o feito de estabelecer
sincero contato emocional com os leitores!
E eu (a violência),
lida e tomada como banalidade diária,
talvez...
Quem sabe...
Possa, de fato,
passar a ser notícia que precisa ser esclarecida e banida,
em moldes profissionais...

Solineide Maria
04/01/2013