quinta-feira, 26 de abril de 2012

IMPERFEIÇÃO E EDUCAÇÃO...

    "Vamos celebrar a aberração
    De toda a nossa falta
    De bom senso
    Nosso descaso por educação"


    Tenho um amigo professor que trabalha numa escola pública faz mais de vinte anos. Aliás, tenho muitos amigos professores... Mas a história deste, em particular, é, no mínimo, dramática. Há três meses conseguiu terminar seu Curso de Matemática. Enfim, depois de quase ser jubilado (trabalhar, estudar à noite e tentar viver – não é fácil), recebeu seu tão “sofrido” Diploma de Licenciatura em Matemática por uma universidade pública aqui do Sul da Bahia.
    Ele estava feliz com seu Diploma, ganharia um pouco mais, porquanto agora tinha o Curso Superior. Qual nada! Ontem, por telefone, me disse que vai receber uns centavos a mais. E continuou, em seu desabafo mais do que lógico: “Ser professor neste país, é patético”. Como não concordar? Digam-me senhoras, senhores, senhoritas, mancebos, meninos, meninas e homo afetivos em geral?
    Quando acordei e fui tomar meu fraco café com pão e margarina (graças a Deus por isso), ouvi um moço na TV Cultura conversando com outro moço, o Dep. Raul Henri. Eles falavam sobre uma Lei da Responsabilidade Educacional.
    Antes de dormir, nas minhas preces, jurei três vezes que não queria mais ser educadora (e comecei faz pouco tempo...). No entanto, como jurei três vezes, era muito certo de que a promessa falhasse na primeira prova. Deu-me uma agonia na cadeira da mesa da cozinha, e quando ouvi o repórter perguntar “como é essa Lei deputado?” Corri para a sala e quis também saber do que se trata.
    Trata-se de uma Lei que ajustará as incongruências que acontecem com a Educação em todo o Brasil. Segundo ele, os pais dos meninos e meninas e homo afetivos em geral, da escola pública, não notam a má qualidade desta. Eu, de cá da sala da casa de minha mãe (“eu moro com meus pais”) respondi em voz alta ao deputado: Eles sabem sim, só não podem fazer nada senhor deputado!
    Tenho essa “mania” de debater com os repórteres e ganchos de jornais televisivos, quando me indigno com alguma notícia ou opinião (e vivo indignada). Acho que puxei a mamãe... Mas caio em muita armadilha... Uma delas foi a escolha do Curso Superior (Licenciatura em Letras). Sempre achei linda a profissão de professor (a) e minha professora dos primeiros anos de escola tem muito a ver com isso: ela era professora-pesquisadora desde antes de se “solicitar” que os professores o sejam.
    Voltando ao deputado e sua Lei... Meu irmão, que tem opiniões bem urdidas e engraçadas, disse que “está bom é de tudo se acabar”, numa postura de quem já está fatigado com tantas notícias sobre a Via Sacra da Educação e do Educador...
    Anterior à notícia dessa Lei da Responsabilidade Educacional, houve outra, também ligada à Educação (falta de educação familiar?) que disse assim: “o problema da obesidade deve ser discutido amplamente na escola, numa semana temática”. Não quis levantar para ouvir, ouvi dali mesmo, sentada à mesa da cozinha (tomando meu café preto com pão e margarina). Comentei com meu irmão sobre o assunto e desabafei: daqui a pouco teremos de abrir Maternidades nas escolas... Ele sorriu e deu a grande ideia de abrir também motéis para os pais.
    Lógico! Por que não se pensou nisso antes?! Os pais vão e... Vocês sabem... O casal engravida. Em seguida o rebento nasce e já tem uma vaga garantida na Creche da Escola. Essa criança é criada e educada lá. Apenas dorme em casa com seus “pais”. Na escola haverá uma cozinha em cada sala de aula, porque é cada vez mais frequente os alunos de escolas particulares e públicas chegarem com fome.
    Os alunos da particular chegam com fome pela manhã, porque a mãe foi para a academia e de lá vai para sua vida e o pai saiu cedo. Eles têm carro, mas o menino (a) vai de transporte para a escola... E mesmo que more ao lado da escola, perde o horário, porque dormiu às duas da manhã, ou jogando ou num site qualquer (não se trata de site educacional...). Os alunos da pública, vocês sabem, saem de casa (quando têm casa) por falta de pão, café e margarina (graças a Deus que ainda os consigo adquirir, com meu magro salário de professora de escola dos anos iniciais).
    Desse modo, poderia se pensar na construção de alguns dormitórios para alunos (as) que tenham problema de pais com falta de controle na disciplina do horário de dormir dos pequenos. Assim, a escola particular passaria a ser um planeta: o PLANETA DOS ABANDONADOS AMOROSA E EMOCIONALMENTE. No caso de ser entidade pública: PLANETA DOS ABANDONADOS DO AMOR, DA EMOÇÃO E DA SORTE.
    Para laquear minha tristeza, ouvi no rádio a música Perfeição de Renato Russo... Veja só, a vida é um mistério mesmo... Há anos não ouço essa composição no rádio e justo agora, nesse instante (06h35min da manhã), ouço tal bela harmonia!
    Perfeita é a maestria do poeta-compositor, mas penso que a “eventualidade” quis trazer a mensagem de que não devo me indignar tanto, já que “a felicidade não é deste Mundo”. Já que meu amigo continuará ganhando pouco e mal, já que a Lei da Responsabilidade Educacional, não alcançará os problemas causados por pais que querem TER filhos, mas não querem SER pais. Já que eu, com mais de trinta anos, não consigo rever o caminho profissional que comecei a traçar...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Vida (ou "o meu Reino não é deste mundo.")

Pensamos que vamos
mas só estamos voltando...
Voltamos para o pó:
para o útero do Cosmos,
para a Vida "verdadeira".
Voltamos para a Pátria mais Real:
a Espiritual.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

LIVRO - O melhor amigo!

Um amigo que ouve suas queixas, dá notícias e muito mais: ideias.
Abre a janela da alma e a mantém limpa.
Um querido amigo de todas as horas.
Uma criatura ampla de todas as coisas:
tem navio, tem avião, tem bonde...
Ele é rico:
tem Terras muitas, sem fim...
Ele é simples:
feito um José qualquer...
Ele é forte e astuto:
que nem Ulisses.
Ele pode ser lírico:
como Zé Orocó...
Ai quem dera pudesse ver
um livro
sendo lido por todas as crianças!
Todo dia, toda hora:
todo o sempre!
Quem dera pudéssemos sentar
numa grande Praça de Leitura:
ter estantes cheinhas desses amigos:
e crer, de fato,
que existe esperança!

domingo, 22 de abril de 2012

Facebook cancelado. Motivo? Outro...


O Facebook pediu para explicar o motivo pelo qual estava cancelando a conta (pela centésima vez). Marquei em "outro".
Eles me pediram uma descrição do motivo. Decidi respondê-los assim:

Não posso mais
perder tempo na mentira...
Dizer que estou feliz a bater papo;
quando em verdade, 

aqui, 
só, 
nesse quarto,
a pele, 

o que deseja, 
é um abraço!

Solineide Maria de Oliveira

terça-feira, 17 de abril de 2012

A Guardadora de Rosas rejeitadas

Eu colho rosas,
mesmo que estejam já desbotadas.
Mesmo que sejam já, filhas orfãs,
nessa jornada.
Mesmo que não enfeitem Missa,
enterro ou casamento.


Eu colho rosas que vivem dentro,
em meu pensamento.
Rosas que falam de dores tristes,
de vãos de internos.


Colho e converso muito com elas,
pobres coitadas.
Vítimas de uns homens
que só se ocupam de uma só beleza.


Eu colho rosas que nunca foram
bem arrumadas,
aquelas que sempre foram
- logo - descartadas.
Colho e reformo os seus corpinhos
frágeis,
feridos...
Declamo poesias
enquanto ajeito suas mazelas.


Sou a guardadora de rosas velhas,
malquistas,
descartadas e feridas.
Elas me presenteiam com o perfume
indizível
que sai de suas lesões,
enquanto declamo poesias
e remendo seus botões.

Santa Ceia

Dois passarinhos
dividiram um jambo comigo
Santa Ceia.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

De vontades e desejos...

Ando amando uma ideia
em semente:
um dia ela vira flor...

MAIS UM AMOR NÃO CORRESPONDIDO...

O sorriso nasceu alegre
e cumprimentou o "Amado Mestre".
O Mestre apenas disse: 

Olá.
Não sorriu,
não deu a mão,
não se interessou pelo carinho...
Mais um amor não correspondido...
pensei baixinho comigo,
enquanto voltava para minha cadeira.
Ele não analisou meu discurso amoroso,
nem o meu outro discurso,
dessa vez físico:
de tristeza
e desapontamento.
Foi embora e não procurou meu olhar
para dizer tchau, 

sei lá...
Amor não correspondido sempre afeta...



Dedico este poema para meu ENORME amigo Agildo.

domingo, 15 de abril de 2012

Esse lixo é antigo... (Coitada de Itabuna)

Esse lixo é antigo!
Vem de eras ancestrais: 
cobriu mato, subiu cerra. 
Fez matador virar coronel, 
fez homem de bem se matar, 
fez gente humilde e boa 
passar pro lado de lá. 
Fez (e faz) pessoa boa
virar político carcará.

Esse lixo nos persegue
come nossa diginidade, 
come a honra, 
come a escola, 
como casa e Hospital. 
Come menino e menina, 
come Senhor e Senhora, 
come professor de escola 
e de Instituto Federal. 
E come, também, 
alguns bons profissionais 
da Universidade local. 

Esse lixo é antigo...
levou o ouro do cacau, 
levou o Rio Cachoeira, 
levou poeta e poetisa, 
escritor e jornalista 
gente boa do Rádio 
e da mídia da TV: 
todos viraram chorume
e envenenam notícias 
pessoas e tudo o mais 
que seja um pouco são... 

Esse lixo é antigo.
Desfaz tudo o que é 
bom.
Aterra mesmo... 
E aquele que tem algum dom 
alguma percepção 
do que não seja "legal": 
mingua triste, 
morre de lucidez, 
desanima de tão saudável. 
Não apodrece, 
mas desiste...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Viver em que tempo?

No futuro é ruim viver.
passada a nuvem de ilusão,
o trovão ronca.
No passado é fácil se perder,
futuras instalações de tristeza
vivem eternamente acesas.
No presente não sei se dá jeito,
é tudo 
depois, depois...

domingo, 8 de abril de 2012

DOMINGO DE PÁSCOA: MINHA LIBERTAÇÃO A PARTIR DE ELIS REGINA!

“Depois da perereca vem o grilo/cri/cri/cri.” 

 Não me considero preconceituosa, mas convenhamos... O que dizer do refrão acima? E depois de quinhentas repetições, desde as 08h00 da manhã de um Domingo de Páscoa? 
E o que dizer do verso, não menos “bizarro”:
“rala a tcheca no chão/a tcheca no chão”- mil vezes a tal da tcheca no chão?! 
O que pode uma criatura fazer contra esse tipo de ataque madrugador, em pleno domingo-feriado? 
Tudo isso, quando se está envolvida em muitas atividades para correção (sou professora)... 
E vai uma música (?), vem outra e a transgressão dom bom senso (bom tudo, na verdade) desempenha o escárnio às partes íntimas das moças:
“Passa na cara dela/na cara dela/passa a... na cara dela!” 
Não aguento! 
Levanto da cadeira onde tento corrigir provas e planos e ler textos e estudar uma prova! 
Levanto cheia de decisão!
Tenho de fazer alguma coisa contra isso e pronto! 
Saco da estante de livros e CDs a maravilhosa Elis Regina (1973). Primeira música: 
Oriente, de Gilberto Gil. Aumento o som de um coitado Philips 4,0WRMS e danço aos berros! 
Enquanto isso (meu som não é um carro de som, arma do vizinho...) dá para ouvir:
“na hora “agá” que é gostoso/não é precoce não/beijou pegou/acelera e vai/tatatatatatatata acelera e vai!” 
No entanto, demora pouco e O caçador de esmeralda me traz a salvação! Olavo Bilac? Não. Ou talvez sim, mas a “pequenina” Elis me salva da impunidade desse dia de domingo cheio de nadas sonoro... 
Avante querida! Ela brada com a próxima canção: a mais bela do cd? Não sei! Todas são igualmente belas e grandes e eternas, feito a moça forte, filha de mãe lavadeira e pai pobre:
“Andar/pacatá/que Deus tudo vê!”. 
“Agnus sei que sou também” Elis querida! 
Continuo no caminho de ouvir a voz que nunca cessa em nossa alma (a dos que têm alma de ouvir). 
Quando ela diz: 
“só quem tentou/sabe como dói/vencer satã só com orações”, lembro de mim e minha peleja musical... 
Só quem tentou Elis! 
Só quem tentou sabe como é difícil vencer esse “som” (?) que entra em minha sala, cozinha, quarto, tímpanos, apenas com um Philips 4,0WRMS! 
Sambo do meu jeito pela cozinha com janelas cerradas (para defesa das “canções” que vem de fora) e grito como em devaneio: 
“fazer um gol nessa partida/não é fácil meu irmão/entrou de bola e tudo!” 
Já sinto a luz entrar em mim, com a voz de Elis me abençoando grandemente num tango mais que perfeito... 
Que realeza de voz, de interpretação! 
"Um cabaré" cheio de classe acontece de aparecer na cozinha, cato uma flor de plástico cor cenoura e imito uma moça dançarina: 
 “quem sabe de mim/quem sabe dos outros/quem sabe das grades/dos muros.” 
Ai “a lama de não ser o que se quis” querida cantante! 
Talvez se alguém me visse, pensaria que a loucura é definitiva. Sorrio. 
Continuo a dança e me emociono:
“lá fora a luz do dia fere os olhos.” 
Em verdade: lá fora a “música” fere os ouvidos... Não ligo! 
Estou subindo a ladeira e novamente dou minha sambadinha e de repente grito:
“que nem lá/na Ilha do Frade/essa ladeira...” 
Rememoro que faz algumas décadas que subo e desço a ladeira Santa Luzia (Bairro Mangabinha), a mesma ladeira onde o carro de som está tocando umas coisas... Nunca ouvi "coisas" tão horríveis.
A canção de Gil, belamente interpretada por Elis Regina, trouxe-me um fato de volta: quando estive em São Paulo, escrevia longas cartas para todos os maigos e parentes daqui (Itabuna), mas quase não as postava. Coisa feia não é? No entanto, trouxe-as e entreguei-as pessoalmente. Escrever escrevi... 
“Salina das Margaridas/essa é a ladeira da preguiça...” 
Tomei um copo de suco, sentada para descansar e ouvir quietinha a maravilhosa Folhas Secas. Gente do céu! Que composição maravilhosa! Que interpretação de ouro! Que coisa mais rica! 
Fico com dó das moças na calçada da casa cujo carro de som está encachaçando o ar da ladeira. 
Dá vontade de chamá-las para ouvir comigo essa música, dá vontade de trazê-las para a luz!... Mas elas estão abandonadas ao delírio de um verso infeliz que diz mais ou menos assim: 
“quando ela desce... quando ela sobe...” 
Lembro-me da fala de Jesus: “quem tem ouvidos de ouvir que ouça”. Acho que aquelas moças ainda não têm ouvidos de ouvir... 
Ressuscito feliz com a belíssima composição "É com esse que eu vou".
Vou todas as vezes com esse belo som para bem longe da ignorância desses vizinhos que pensam que democracia é acordar os outros às 07:30, com um refrão infame sobre as partes íntimas das mulheres sendo rasgadas no chão. 
Posso até sambar na multidão, mas só se for com Elis! 
Aí sim vou:
“sambar até cair no chão!
Com Elis eu vou desabafar meu coração!
Sambar na multidão!
Com ela eu vou, desabafar meu coração...
Com Elis eu vou! 
Desabafar na multidão!”