sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Passará


Vai passar...
Daqui a pouco será lembrança.
Daqui a pouco... Será mais nada.
Passará.
Daqui a um ano será reverberação
de uma canção longínqua.
Tudo passa...
Daqui a pouco será um poema
triste.. Três...
Um livro de cem páginas... Talvez
dois.
Mas olha, querida:
passará.
Lembra de quando perdeu a boneca?
Aquela que mais amava,
a única?
Passou não foi?
A falta virou lembrança,
depois... Depois mais nada,
apenas um rostinho disforme.
Passou.
A roupinha colorida dela,
também passou.
Então... Passará...
Daqui a um século, será mais nada.
Chora não...
Chora sim, porque isso também passará.
E um dia,
um dia,
um dia,
tudo não passará de aprendizado.

Solineide Maria
Para Renato Russo
(porque ouvi muito Passerá para ajudar a passar...)


Expressão de adeus

Ato de descontração

Juro que não quero Senhor, ser um pedaço de carne para qualquer um... Uma taça de vinho e pão e luz para uma noite qualquer. 
Juro que não desejo mais, a pouca nitidez de palavras que não ficam. Dessas que a gente se esforça em rememorar. 
Prefiro a Tua voz a me dizer que fique e descanse no Teu ombro a falta de coragem. 
Depois, deixa que Te faça um peixe ao azeite, deixe que Te sirva água, depois Decidirás se será vinho ou não. 
Depois eu quero Teu pão que me alimenta muito mais. 

Solineide Maria do Livro de Orações da Mulher (em edição)



Há outros textos meus no endereço abaixo:


Visitem-me. Deixem comentários!

ENQUANTO ISSO

Enquanto isso,
vou espiando a vida
e tomando nota do que sim
e do que não...
E do que talvez,
e do que agora
e do que depois.
Assinalando xis
para a alegria.
Xis para a fantasia.
Xis para as gôndolas de festa.
E xis para um tempo feliz.
Solineide Maria
05h38min

Itabuna, 22 de agosto de 2013.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Envelheci em tuas mãos

Envelheci em tuas mãos. 
Presenciei teus silêncios... Todos recheados de um vazio causticante. 
Envelheci na frente da tua TV, em tuas mãos, em teus braços... Presenciando os detalhes de tuas horas de enfermidade, das falas apaixonadas que não existiam... 
Vi alguns barcos indo embora, e tu no quarto, dormindo após o sexo...
Nunca, nem de longe, tu me acenaste dizendo: 
"Fique, fique! Não saia nunca mais daqui". 
Toda impressão de querer ficar que tateava, morria no início. E nenhuma impressão de querer ficar se torna verdade... Dessa maneira, envelheci em tuas mãos... 
Bebi do teu vinho - aquele mesmo que ofertava a todas as mulheres do teu passado, mas vinhos não saciam a falta de projetos de vida... 
O medo de não funcionar, fazia de ti um homem em busca de prazer... Para amenizar a dor. E sempre existia uma dor (ao menos quando estavas comigo)...
Aos poucos eu adoecia. Envelhecendo, assistindo tua dor, velando teu sono (pós-sexo). Aquela de sempre: a que encontrava solidão ansiando companhia (no mínimo)...
Nenhuma companhia chegou a ser companheira. Tu nunca entendeste.... Quis tanto ficar... TANTO.
"Nenhuma impressão de amor torna-se verdade" a protagonista do filme disse ao rapaz... Eu falei para ti:
"Viu que bonito?" Tu não estavas. Tu estavas dormindo... Pena... O filme foi lindo, este e todos os que não chegavas a assistir até o final. Tu dormias... Eu velava teu sono...
Ou a gente ama ou acompanha, sempre te dizia isso, mas tu não ouvias... "Como me livrar dela?" (acho que pensavas em silêncio).
Ainda uma vez mais repeti aquela frase, mas tu te mantinhas onde nunca pude alcançar. "Tu me amas?" Perguntavas para mim. Cansei de responder positivamente, mas tu nunca me respondeste nada, nem que sim, nem que não, apenas sorria e dormia (pós-sexo).
O que houve de pior, que guardo na memória e sinto na pele, foi não ter encontrado novamente aquela ansiedade de ficar bom, você já estava bom, saudável... Daí, não precisavas mais de mim...
Aquela ansiedade por saúde era apaixonante... Por causa dela (também) resolvi ficar contigo e te amar. Sempre fui A COMPANHEIRA, a parceira, a pastora amorosa, mas não notaste...

Solineide Maria - Agosto de 2013

Essa é uma obra de ficção...

sábado, 7 de setembro de 2013

Amigas inseparáveis

A insônia é amiga íntima da solidão.
Elas não dormem
para se acompanharem.
A solidão é muito silenciosa,
a insônia não...
A insônia fala muito,
atropela os pensamentos todos,
e não deixa a solidão se ajeitar.
A solidão não fala nada.
é silenciosa,
Tem uma cara triste,
triste de dar dó...
A solidão tem olheiras imensas!
A insônia tem grandes olhos,
imensos olhos que nunca piscam...
Mas não tem olheiras... Curioso isso...
A insônia nunca toma café,
prefere Chá Mate Leão,
a solidão não.
A solidão adora café e é viciada
em limonada.

29-08-2013


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Reflexões dolorosas...

Para escrever nova história é preciso apagar a antiga?
Essa questão incômoda abriu a porta do dia que parecia prometer calor.
Umas vozes longínquas avisavam que era hora de levantar (acordar já não precisava).
Um café preto iniciou a investida do dia. Primeira escrita do dia... A prece saiu fraca, sem ciso, sem muita voz. Mas houve a prece...
Como é doloroso ter escrito mal uma história que poderia ter dado inúmeros capítulos... Mas vamos ao dia, que agora não prometia mais calor, chovia...
Sair e andar, mesmo quando a vontade é de ficar quieta e dormir, dormir, dormir... Não precisava nem sonhar.
A chuva engrossa e paro numa marquise que protege a sobrinha frágil e a sapatilha. Um gato também pede abrigo e me olha. "Nunca estamos sós"... Penso.
Olho uma vez mais para o gato e ele a mim. Sinto que é um abandonado, está com a cara ferida e as patas um pouco sangrentas, sangradas... Ele lambe as patas e me olha novamente. Entendo que está tentando melhorar as feridas... Tentando curar suas feridas...
Eu também preciso lamber as minhas, mas estão por dentro, no coração... Em verdade estão na alma. Como lambê-las? Fico me perguntando: como é que se cura as feridas do coração? Seria muito bom se pudéssemos lamber tais ferimentos e insistir mais uma e mais uma vez... Até que sentíssemos que estariam (estivessem) ao menos, apresentáveis...

Solineide Maria
03/09/13


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Nosso SUS é JeSUS (texto antigo, mas atual...)


Sentada esperava o atendimento médico (terrícola). Desde cinco horas da manhã, estava numa fila para pegar uma senha. A senha me daria direito à marcação de uma consulta. A consulta seria marcada para uma semana seguinte (ou mais, é meio uma coisa de"sorte"). 
Segundo Dona Maria, companheira de fila, a chamarei assim, "tudo é coisa de sorte". Dona Maria é uma dessas mulheres idosas, que
assomam os Postos de Saúde do país (Brasil). Mais especificamente, da cidade de Itabuna, no Estado em estado de lamúria: Bahia.
Todos estavam meio sonolentos, mas ela estava a todo vapor. Estaria excelente, não fosse a catarata que aguarda cirurgia faz um ano... "A televisão diz que é só vim no Posto né minha fia?" Perguntou afirmando - aquela senhora simpática, apesar de "nitidamente" sofrida. As mãos calejadas, as unhas (duas) ausentes dos dedos. Soube que fora por causa de tanto lavar roupa "dos outros". 
Respondi que a televisão mente. Ela riu. Confirmando minha suspeita: ela não tinha mais nenhum dente. A televisão também mente sobre isso... Brasil sorridente? Aonde? Não seria: Brasil, o país que sorri, mesmo sem dentes?! 
Fiquei sentada num dos batentes da porta (fechada) depois de pegar o número 28 - minha senha. Dona Maria pegou a senha 29, dos idosos... Ela me olhou e falou: "quase que a gente se inguala né?!" Mostrando-me seu número. Respondi que poderíamos trocar, para que ela fosse atendida antes de mim, que cheguei depois. 
A criatura, bem humorada, àquela hora da manhã disse: "precisa não minha fia, quando saí de casa, deixei o feijão no ponto. Quando vortá é só fritar uma carne e tô sartisfeita." Tive inveja dela. Quietinha, calada ali, senti inveja, admito, daquela mulher. Conversadeira, faladeira e animada. De seu, uma sacola de plástico com a documentação necessária para o atendimento no posto: identidade, cartão do SUS e cartão da farmácia do posto. 
Contou-me que tinha ganhado uma "casinha do Governo", mas não deu para se mudar, porque invadiram-na. Disse-lhe consternada: oh meu Deus, que coisa... Dona Maria, muito fervorosamente disse-me para não ficar triste porque foi Deus: "mataram um lá 'drento' minha fia!" E fez o sinal da cruz. 
Nisso já eram sete horas e a movimentação indicava os funcionários chegando. Minha amiga logo me aconselhou tomar meu lugar na fila: "o povo enrola, fique esperta!" Nós duas ficamos empareadas: ela na fila dos idosos e eu na fila comum. "Dá pra continuar a prosa ne?!" Toda contente me oferecendo seu lanche, um pacote de biscoitos "poca zói": "é meu biscoitcho favorito!" 
Deu -me vontade de chorar, porque aquela mulher me trazia vontade de ser tão pobre, mas tão pobre, feito o mais pobre dos devotos de Cristo... 
Lembrou-me Madre Teresa, lembrou-me Irmã Dulce, lembrou-me Santa Clara, porque fiquei sabendo ainda, que aquela senhora, cuidava de uma vizinha que fora abandonada pela família, uma senhorinha de setenta e seis anos, paraplégica e asseverou-me: "ô minha fia, fiquei pensano anssim, que eu não tenho nada, mas posso ser uma irmã de coração dela né?" 

Quis morrer de vergonha!... Eu, que tantas vezes acordo para a inutilidade de um dia inteiro de bobagens vãs... Contou-me que às vezes ela agradece aquela vizinha irmã ter aparecido, porque era sozinha no mundo. Não casou, não teve filhos, nem marido... "Querdita?!" 
Acredito. Acredito Dona maria... No final, estávamos pertinho do atendimento da senha, a moça olhou para ela e disse: "a marcação para oftalmologista acabou." Ela me olhou, sorriu e disse: "é minha fia, nosso Sus é JeSUS!" 
Pedi que fosse ao "Lactário" (posto do bairro vizinho). Ela disse que iria no outro dia, falar com uma amiga na Prefeitura. Abracei-a e disse tão do fundo do coração: obrigada! Ela respondeu, "oche! por mode os biscoito? Quê mais minha fia?!" 

Agradeci e respondi: "obrigada por tudo!" Nem sabia mais se queria marcar consulta depois de ter estado com aquela senhora, tão simples e tão rica. Acho que foi um presente Dele para me curar um pouquinho de mim... Concordo Dona Maria: nosso Sus é, definitivamente, JeSUS.