terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Aniversário

Estou muito cansada. 
Há vários dias sem dormir, pensando se devo ou não, mentir que gosto e dizer o que não sei direito.
A vida dizendo não - quase a todo momento. O dia cheio de ervas daninhas para serem aparadas. A cama sem me dar sono e carinho...
Estou atrasada há quarenta anos.
Meu Deus! Quarenta anos?!
Como é que se pode envelhecer sem ser ou ter sido, tido...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Minha casa

Não precisa ser grande. 
Basta ter mesa e cadeira e um relógio na parede.
Uma máquina de costura e uma estante,
para acolher livros e fotos. E fatos...
Uma cama muito simples, basta.
Um quadro de uma paisagem qualquer.
Um ventilador de teto.
Um brinquedo de criança.
Uma janela.
Não precisava ser grande...

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto,

ensina-me sobre
pedra,
mesa,
cadeira, maçã,
poesia.

Ensina-me como escrever
terra,
lama,
rio,
sol e não ser repetitiva.

Ensina-me a ser eu mesma,
quando tento pela milésima vez
escrever sobre o pó das palvras
que acho que entendo
(e que acho que escrevo).

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um dia a gente vai ser humano feito Amilton dos Santos

Um dia a gente vai conseguir ser humano...
Porque não é coisa de ser humano,
jogar gente viva para fora de casa 
e passar por cima dos móveis,
dos documentos, 
da bicicleta, 
do casasquinho do bebê, 
da geladeira,
ou mesmo da sala do barraco sem nada.
O barraco de uma pessoa que só tinha aquelas coisinhas. 
Ou aquele nada de nadinha...
Um dia a gente vai ser humano, 
feito aquele motorista de trator, 
que se recusou 
a passar por cima da vida de uma família
e destruí-la.


http://www.ibahia.com/detalhe/noticia/por-onde-anda-o-heroi-tratorista-que-se-recusou-a-demolir-casas-e-emociou-o-brasil/

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Blhete saudoso

Sinto saudades de ti, mas não mais repetirei.
Saudade fica maior quando a gente diz que a tem...
Amo-te. Isso é tudo.
Vá e sejas muy feliz.
Eu, de cá, tentarei ser também...


Para Sandra Carneiro (minha eterna professora do dedo verde).

domingo, 22 de janeiro de 2012

Dormindo com um poeta II

Noite passada, o poeta fingidor dormiu comigo.
Ungiu minhas mãos com algumas palavras e asserenou meu coração, por dois minutos.
Depois, fez um desassossego total...
Descabelou versos inteiros, que pensei ter havido compreender.
Desarrumou uns parágrafos, que pensei tê-los bem escritos.
Riu de umas reticências... Fez silêncio em algumas passagens de versos muito pueris.
Eu, calada e extasiada, continuei a ler aquele homem amplidão!

Para Simone Paulino (e suas leituras profundas).

Saber é difícil. 
E quem sabe, não diz que sabe: compartilha.

Solineide Maria (22/01/2012)



Saudades de Clínio!...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A salvação pela leitura

Sem vontade de nada,
sentei e vi um livro:
ele me olhou sem jeito...
Olhei para o lado,
sem graça.
Depois de uns minutos,
ouvi uma palvra: ânimo.
Olhei para a estante:
o livro me olhava, ainda.
Levantei e colhi
aquele objeto.
Era um livro lido,
conhecia a história,
mas comecei a lê-la de novo.
E, de repente, navegava
por palavras que não
havia lido na primeira leitura.
Já não lembrava que estava prestes
a desisitir de tudo.

domingo, 15 de janeiro de 2012

REDE SOCIAL - tempo que não volta

O que estou fazendo aqui?

De cara pruma coisa sem vida,
escrevendo para pessoas que posso
encontrar...

Que tipo de pessoa me tornei?
Que tipo de diálogo é este?

São tantas pessoas plugadas,
apenas dois ou três me dão
BOM DIA
e saúdam
o poema e a poesia...

São dez da manhã,
sentei-me aqui às nove...
Quanto tempo ainda tenho,
para dar ao triste
(e solitário) clarão
desta tela?

Desejo de poesia

Queria escrever poesia,
para me resgatar da inutilidade.
Queria escrever poesia,
para ampliar meu campo de visão...
Queria fazer poesia,
como quem faz pão
para alimentar o espírito e
dá de comer à esperança.

Queria fazer versos de criança,
e acreditar que a vida é dança
de muitos pares.
Queria fazer versos para o amor,
depois sair amando mundo afora, 
adentro...

Queria nunca mais ser triste...
E cada verso que escrevesse,
poderia refazer a possibilidade
de a tudo resistir:
incluso às gentes sem harmonia,
ou falsa harmonia...

Queria ser poeta e semear palavras
de se esconder e de se mostrar.
Para que a vida fosse leve,
e,
se pesada,
poeticamente carregável.

Para Rafaela

Ser humano é ser maior

Não nasci para viver,
nasci para ser humano.
Desse modo quero ser.
Vou viver, claro,
é da vida. Estava no Plano...
Mas ser humano é maior.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

No caminho inteiro

Antes do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra antes do caminho
tinha uma pedra
antes do caminho tinha uma pedra.

No início do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no início do caminho
tinha uma pedra
no início do caminho tinha uma pedra.

No meio do caminho aparece a mesma pedra
a mesma pedra aparece no meio do caminho.
A mesma pedra, parece...
No meio do caminho, aparece, a mesma pedra.

Quando chegaremos ao final,
se as pedras insistem triunfantes
nesse espetáculo melancólico
de ombros frágeis servindo a ignorantes?


Com muito amor e constrangimento, por tantas lutas em troca de não tão muito... 
Dedico este poema para aquele que MAIS tem me ensinado e amparado e acolhido e sido companheiro, companhia e paz.
Para Agildo Santos Silva de Oliveira, que não me deixa desistir de acreditar. 
Porém meu amigo, hoje não estou com o entusiasmo de sempre, com relação a profissão que acolhi. 
Peço desculpas... Hoje não dá para sentir alegria com relação ao caminho eleito. 
Quem sabe amanhã...

domingo, 8 de janeiro de 2012

Festa de "estilo"

Perífrase
convidou Catacrese
para um sarau.
Foi uma sinestesia só!

Para Sandra Carneiro (minha eterna professora do dedo verde!)

sábado, 7 de janeiro de 2012

7 DE JANEIRO - DIA DO LEITOR



I Oração do leitor

Para qual Santo ou Santa devo endereçar esta prece?Eu, que nada sei de nada, que apenas busco nas palavras o que, talvez, nem elas tenham o poder de me ofertar. 
Digam-me:
Santo Agostinho? Santa Teresa?
Suplicar a qual dos seres que já cresceram em todos os graus de leituras possíveis, minha possível melhor leitura? Aquela que me abone de mim. Aquela que não me deixe apagada (o). aquela que abra meus verdadeiros olhos.
Qual ser divino, pode ser o que trará a luz da leitura exata. Exata - e não - estática? Não aquela leitura rígida, que finda, que estagna. Quero uma leitura além dos vãos e vielas dos olhos medíocres de um leitor qualquer.
Santa Luzia? Ela que protege a visão, será que também protege a leitura, já que ler é um modo outro de enxergar?
São Francisco de Assis? Ele que foi o homem que soube ler a alma do universo, sendo homem e santo a um só tempo. Leu os ares, mares e lugares. Santa Clara, sua amantíssima companheira de jornada? Ela que soube ler as pessoas por dentro, feito a Blimunda de Saramago?
Qual santo me apoiará na missão (admirável) de ler? Ir descobrindo saídas, feito um “operário em construção” de mim mesmo? 
São Pedro, o escritor de epístolas?  
Moisés foi profeta. Acho que posso considerá-lo santo, já que registrou em pedras os primeiros escritos que diziam - o que fazer e o que não fazer - num mundo que crescia adoentado.
Posso rogar lucidez à Santa Teresa de Jesus dos Andes? A carmelita que escreveu longas cartas para Jesus, se dizendo confusa com o mundo e suas armadilhas para o pecado...
Rogo a todos os santos, já que falta um, que se digne à missão de proteger o leitor.
Guiai-nos em nossas navegações diárias pelo mundo da leitura,
Amém.



Poema sem assunto

A palavra amor
não sei.
Serve de pretexto
para uma cena:
erótica.

Serve de enfeite
para uma porta.

Serve, talvez,
para escrever
um poema sem assunto.

É preciso mais do que sorte

É preciso mais do que sorte na senda da poesia.
Inicialmente, é preciso que você não vá embora.
Porque sem sua presença, o vácuo tece os versos,
elabora vielas de nada a dizer.


De forma que é preciso mais que sorte para o poema,
o doce e bom poema, nascer. Trazendo flores inéditas
em pétalas de palavras novinhas, exalando perfume
igualmente novo, que espalhe um pouco de paz.


É preciso que você não saia sem dizer palavra:
que não escreva dizendo adeus,
que não olhe sem dividir seu olhar,
É preciso que fique, que fique, que fique.


De outra maneira, a sorte não adianta...
Não tecerá nenhum verso que preste,
nem para ser lançado à lama...


Não vai adiantar compor poemas,
se sua presença- que anima - a poesia
partir (de fato) para longe e nunca mais.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Podem me chamar de passadista. Nostálgica e o mais. Gosto de ouvir o Renato.


Podem me chamar de passadista. Nostálgica e o mais. Gosto de ouvir o Renato.
Outro dia me disseram assim: ele era um hipócrita! Falava e não fazia o que falava. Não respondi nada. Em silêncio segui ouvindo o mar (estava na praia). E o mar me lembrou outra bela canção, com o tema de despedida (Vento no litoral) deste poeta brasiliense, que me fez companhia na adolescência.
Hoje, ao abrir a caixa de e-mails, um amigo havia me enviado a canção  Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto, num clipe antigo, onde, ao final, o Renato balançava os braços, o corpo e teatralizava com as mãos (naquele jeito característico de dançar). No texto de remeto, meu amigo dizia assim: haverá outro compositor igual?
Olha meu amigo querido, queria lhe dizer que sim, que haverá. Mas já procurei tanto... Deve haver, não sei... E deve ser que esse russianismo da gente, seja apenas coisa nossa. Talvez seja mesmo alguma coisa entre nostálgica e pueril. Entre ridícula e improfícua, num mundo que parece descambar no óbvio e no tosco.
No entanto, fico confusa. Porque ouvindo “Quando o sol bater/Na janela do teu quarto,/Lembra e vê/Que o caminho é um só,” lembro da época em que contava com os meus quinze aninhos juvenis e tinha decisões jovens a adotar. Mas o mesmo verso serve para mim, neste momento da vida (quando conto com mais de vinte anos...), e tenho de me decidir entre seguir com a doutrina que me pus a crer e trabalhar (de fato).
O Shopenhauer disse que “não há nenhum erro maior do que acreditar que a última palavra dita é sempre a mais correta.” Ora, o Renato escrevia canções lindas. Isso é fato. Lógico que seria muito bom se as escrevesse e se cuidasse igualmente: estaria conosco agora. Infelizmente não foi assim.
A última palavra não era a dele. Assim como não será a minha. Nem a do meu amigo que desgosta das atitudes de Russo até hoje. Shopenhauer também diz que “um livro nunca pode ser mais do que a expressão dos pensamentos do autor”. Pode-se dizer que uma letra de canção, também seguiria esse caminho. Trata-se de obra (letra de música – poesia em canção, no caso das deste compositor).
Nesse pensar e ouvir - o Renato Russo - experimentei alívio. Porque tenho em mãos, mais uma vez, a chance de recomeçar. E “Porque esperar/ Se podemos começar/ Tudo de novo?/Agora mesmo?”
Daquela criatura que criticou meu compositor juvenil predileto, ficou a pergunta para reflexão que me interessa: ele era um hipócrita! Falava e não fazia o que falava. Acho que se continuar falando que acredito e não fizer nada, serei hipócrita... E lá vem o verso para arrematar: “Lembra e vê/ Que o caminho é um só,”.
Podem me chamar de passadista. Nostálgica e o mais. Gosto de ouvir o Renato.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Três versinhos para celebrar um fim

Fique tranquilo:
feito um doido
vou dominar
esse malogro.

Não fique triste:
feito bandido
vou dar um tiro
nesse destino.

E não duvide:
igual criança,
esperarei 
por outra dança.

Amor sem rota

Feito menino sem destino.
Está assim o meu amor.
Todo sem jeito,
sem motivo...
Está assim a me olhar.

Chegou cansado, sem palavra,
sentou quieto e me acenou.
Feito menino sem destino,

falando a esmo para o ar.

Não tive nada o que fazer,
também sentei a lhe olhar.
Toda sem jeito e sem alento,
também fiquei a repensar...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012