quarta-feira, 3 de junho de 2015

REITOR ELETRÔNICO

Ilustríssimo Reitor

Venho através desta, proferir algumas palavras. Mesmo desconfiando de que não conseguirei alcançar o Senhor... Pois que, ao que parece, Vossa Excelência está muito “automatizada”. E eu, Ilustríssimo, com todo respeito, não possuo essa disposição: ser eletrônica, ser um Ser autômato.

A Educação passou por períodos de grandes transformações. Isso, óbvio, a partir de muita luta de seres “pensantes” e autônomos. Essas transformações necessitaram de coisas contrárias ao que trava o pensamento. 
Tais alterações precisaram Senhor Reitor, da liberdade e da autonomia daquelas pessoas que, por serem fomentadoras do pensar, construtoras de teorias em favor da Educação, alicerces de modificações do “ato do pensar”, necessitaram.
O que nos difere, a nós humanos, dos seres todos do Planeta Terra, diz-se, é o pensamento. E atrelado a este, o livre arbítrio: podemos escolher. O Senhor sabia disso não Senhor Reitor?
Temos, nós os humanos, o importante dom de pensar; e de pensar sobre o pensar! Então o Senhor imagine, o quanto isso é majorado com relação àquele que lida com a Educação, de modo mais íntimo: o professor.
O Brasil já teve alguns grandes ditadores. Mas isso faz algum tempo, foi na época da Ditadura. Hoje, depois de algumas décadas de Democracia, não deveríamos excitar a construção de novos ditadores. Até por que, estamos numa DEMOCRACIA.

Não quero falar sobre o tema Democracia (embora isso tudo a fira duramente). Não. Porque esta, já está constituída.
Pode ser que estejamos sob o jugo de um simulacro de uma Democracia fragilizada, mas tal tópico é penoso demais para ser debatido junto a esse outro tão deprimente (opinião pessoal) do Ponto Eletrônico para professores de um órgão federal... Ou de qualquer outro órgão onde se fomente o pensar.
O Senhor é professor?
O Senhor já ministrou aulas?
O Senhor sabe que a construção de pensamento não bate cartão?
O Senhor sabia que a Escola nasceu LIVRE, debaixo de árvores, com os filósofos? E que os filósofos não batiam cartão?
Pois já imaginou? Se o tivessem feito, a Nova Escola não teria seu advento.

O Senhor já se imaginou tendo que correr contra o tempo de 50 minutos de uma aula (tempo acuradíssimo) e em seguida correr para outra sala e em tempo igual ministrar outra aula e apressadamente bater o cartão para só depois parar para pensar nos Planos e Planejamentos e posteriormente corrigir provas organizar novos textos novas produções aulas de campo com o CAPATAZ Ponto Eletrônico a perseguir o relógio do professor? (As vírgulas não foram usadas propositadamente).

Nunca imaginei que isso ocorreria: Ponto Eletrônico para professor. Jamais...
Talvez a liberdade do pensamento seja mesmo muito frágil, a ponto de ter que se submeter a bater cartão.
Talvez, Senhor Reitor, deveríamos todos desistir de vez de pensar, porque o tempo corre apressado demais e não poderia nos esperar...

Estamos muito atrasados em questões que já deveriam estar encerradas, tal como esta: o desrespeito à construção do pensamento de cidadãos pensantes, autônomos, livres para se conceberem ainda mais livres e maiores do que seus mestres. 
Para, a partir daí, conseguirem construir uma SOCIEDADE onde o retrocesso não a visite mais, emperrando em pontos e cartões um futuro melhor. Ou menos abjeta que este presente travado...

Lembra-se do filme “Tempos Modernos”? O filme narra a história de um trabalhador de linha de produção de uma fábrica que simplesmente enlouquece porque é obrigado a viver uma realidade completamente automatizada. Assista Senhor Reitor. É um belo clássico de Charles Chaplin: o Senhor já deve ter ouvido falar (o inventor do Cinema mudo).
Note Senhor Reitor, o filme expõe a história de um “trabalhador da linha de produção de uma fábrica”. Ele, supostamente, deveria estar “acostumado” à automatização de sua função, mas ainda assim, enlouquece.
O Senhor então imagine o que aconteceria com o professor... Que lida com gente... Seres humanos... O professor, este que seria um dos principais elementos para a construção de cidadãos pensantes, autônomos e livres, Senhor Reitor...

Afligiu-me imenso, saber que tal Instituição tem um Reitor Eletrônico e que este, está disposto a “eletronizar” os professores...
O que será dos nossos filhos? Cidadãos eletrônicos? Resultado de uma Educação Eletrônica?
O Senhor sabia que a EaD está revendo o que pode ser feito para “humanizar” o seu modo de lidar com o aluno que se insere no Mundo Virtual, através dos milhões de Cursos que já são disponibilizados em todo o Mundo?
Como encerro meu texto Senhor Reitor?:
Bato cartão? Ou continência?

Solineide Maria de Oliveira do Patrocínio Rodrigues

(Mãe de aluna de uma Instituição de Ensino que almeja adotar o Ponto Eletrônico).