domingo, 31 de outubro de 2010

Gula

vontade sem freio
de encher a carne
de dar peso ao corpo
de inchar,
de inchar,
até explodir deste mundo!

(Do Livro dos Poemas Pesados
em análise para publicação)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Depoimento de Clinio Jorge de Souza sobre a autora e seu livro Ali longe no mar

A princípio você me pareceu frágil, tímida e eu esperava de você o que espero de meus alunos, pelo menos no começo dos nossos encontros: algo assim mais ou menos que vai aos pouquinhos criando jeito de texto, tateando, germinando.

Porém, você me surpreendeu logo com sua força estranha, de uma forma muito agradável. Passei a ter prazer ao ler seus textos, fosse o que fosse o que lhe pedisse. Hoje sei de suas crônicas, poemas, crônicas poéticas, enfim até daquele seu artigo que escapava, sempre que podia, para a praia poética.

Não posso estar aí ao vivo, mas creia, Solineide, estou aí em espírito (ainda que vivo, que fique bem clara a metáfora...). Para lhe dizer da alegria de tê-la conhecido, participado um pouco de sua vida poética, dividindo com você leituras, textos, impressões. Foi muito gratificante ter sido convidado a deixar registrado em seu delicado livro um pouco do que penso de você e da sensibilidade dos seus viceversos. São mesmo vices e versos porque falam de mais de uma coisa ao mesmo tempo, palavras-dupla-face, simples por fora mas complexas por dentro e por debaixo, que falam-não-falando.

Só, Sol, Soli, obrigado por existir e escrever coisas que nos tocam.

Que seu livro se espraie por muitos cantos e encante a muitos.

Boa sorte e um beijo saudoso do seu amigo de sempre,

Clinio Jorge de Souza

Eu e professor Odilon. Segundo semestre de 2008.
Obrigada por tudo professor.

Solineide Maria

Gula

comer tudo
todo o lixo
que possa estar à mesa.
comer muito
até o ódio
a deslealdade
a vileza
a mentira.

Do Livro Dos Poemas Pesados
(em análise para publicação)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Luxúria

sangue e pele
veias vão pulsando.
pele e unhas
boca latejando.
asas coxas
de sexo murchando.


Do Livro dos Poemas Pesados
de Solineide Maria
(em análise para publicação)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

POEMA PARA SARAMAGO, PARA OS QUE SE LEVANTARAM, PARA OS QUE SE LEVANTAM E PARA OS QUE ESTÃO A LEVANTAR-SE.


Nesses tempos difíceis já vivemos.
Pais e mães e filhos e netos e cães.
Fomos mendigos da Terra e da terra vencedores.
Mataram-nos,
sobrevivemos.

Fomos carpindo a nós mesmos a terra e as coisas todas.
Sofremos.
Sobrevivemos.
Ainda hoje lutamos contra a miséria da fome, contra a fome da miséria,
Contra homens que destroem e contra outros que mentem que querem reconstruir.
Ainda hoje, aqui, ali. Em todo canto.
Em todo o mundo.

Somos os mesmos mudados,
melhorados graças ao Cosmos,
graças à pedra que é outra,
graças ao trabalho morto e vivo de nós mesmos.

Somos a Revolução dos Cravos,
mas somos a de Chico Mendes.
Somos os homens sabidos e idiotizados,
estilo de homem que nos fizeram.
Mas sabemos.

Alguns sofrem e o sabem.
Alguns não querem (ainda) saber de nada.
Como antes. Mas sabe-se que todo tempo de mudez
já não tem cabimento.
Sabemos.

O levante ainda se faz todo dia,
aqui ali Além: no Alentejo.
Sabemos que fomos Sara e Domingos,
sabemos que fomos todos os que sofreram Salazar
e sabemos que os daqui também sofrem como os de lá.
As palmeiras no final das contas, são as mesmas.

O sofrimento, a alegria de levantar o facão
pra capinar no que é seu,
a tristeza de parir e não ter o que dar de mamar,
a emoção de ver os olhos azuis
ou pretos do filho e lhe escolarizar.
Sabemos.

Levantamos ainda, estamos a levantar.
Aqui, ali e além mar.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

TODOS OS POEMAS QUE PUBLICO AQUI, SÃO DE MINHA AUTORIA.

Exceto citações, mas aí, são citações: dou o nome dos autores.
É que ontem, uma menina me perguntou assutada: mas são todinhos seus?!
Na hora ri, mas percebi que precisava notificar por aqui esse acontecimento.
Um abraço a todos.
Solineide Maria

O novo poema não vem, porque a vida anda com pressa demais.
Não vem, porque estamos todos falando com nossos ais.
O novo poema não quer nascer aqui.
Aqui não está acolhedor,
sereno,
bom.
O novo poema quer paz.
O novo poema quer o êxtase do encontro,
quer o veludo da calma,
quer as liras mais tranquilas.
Aqui não tem dessas coisas,
não vem tendo.
Acabou.
O mundo não é viável para um poema assim.
O novo poema, se viesse, desmaiaria profundo.
Não de êxtase, mas de horror!

imagem: "O Êxtase de Santa Tereza", Bernini, 1645-52. Escultura - Capela Cornaro, Santa Maria Della Vittoria, Roma.

SAUDADES DA INFÂNCIA


Por que o mesmo caminho,
feito mil vezes ou mais,
agora não parece o mesmo?
Por que será que acontece?

Por que será que acontece,
de quando a gente dá de crescer,
a rua se torna grande?
Por que será que acontece?

Por que a casa dos pais,
a mesmíssima casa dos pais,
não mais volta a ser a mesma
Por que será que acontece?

Será que no fundo,
bem no fundo,
é pirraça do destino?
Por que será que acontece?

É para nos empurrar
ao crescimento constante?
é mensagem: "Vai e cresce,
buscai novos horizontes".

Por que meu Deus que cresci?
Se com sete, oito anos
já sabia que crescendo
perderia meu brilhante...

NA FOTO, A POETISA CONTAVA COM SEIS ANOS DE IDADE.
Publicado também, no Recanto das Letras em 21/10/2010
Código do texto: T2569387

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Poema de fim do amor (este poema foi escrito para um Concurso. O tema era Fim do muno ou Amor)

No fim do mundo eu já fui,
inalei poeira tóxica,
saltei algumas encostas,
trouxe o último ar limpo para lhe presentear,
chamar sua atenção.
Não aconteceu.
Você não ligou.

Fui nos confins de minh’alma.
De lá voltei com uma sacola de pano,
plena de tantas coisas...
Umas eram brilhantes feito o amor.
Outras, nem tanto, mas luziam cores e expressões de anjo,
asa, água pura.
Coisas quase divinas.
Você até gostou,
mas esqueceu na soleira: alguém as levou.

Peguei um barco para Cidade do Nada.
Trouxe de lá, pra você, a intenção originária.
Saqueei casas vazias,
traí o anjo da morte
e trouxe dele um retalho do trapo que é sua capa,
a última lâmina usada e um seu qualquer verso triste.
Nada disso lhe afetou.

O que afeta a você?
Afeta-lhe o afeto?
Afeta-lhe para o bem ou para o mal?
Você prefere que tipo de afeto?
No fim do mundo já fui para ver se lhe afetava...

No fim do mundo eu já fui, inalei poeira tóxica,
saltei algumas encostas,
trouxe o último ar limpo pra lhe presentear,
chamar sua atenção.
Não aconteceu.
Você nem olhou.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

video

"O beijo mais constrangedor do mundo"

O homem sai de um buraco, depois de ter ficado mais de 60 dias soterrado.
Fora dali, cá em cima, sua amante o aguarda. O homem não sabia...
Não sabia que tudo havia sido descoberto, e ele encoberto por terra lá embaixo.
A mulher se aproxima sem melindres, e ele, atônito: envergonhado?
O homem nem consegue erguer os braços e abraçá-la. Onde está minha esposa (deve ter pensado).
As câmeras filmam a tudo. Fotografam, as outras.
Essa outra nem aí. Feliz da vida com "seu" homem tatu, da outra. Eles que encontravam-se às escuras, nas tocas-moteis da vida, agora ao vivo para todo o MUNDO ver. Ela deve ter ficado excitada.
A esposa, que confusão... A esposa não quis ir recebê-lo. Fez bem, não teve força de saber da traição junto com o mundo inteiro.
Ele saiu ou entrou num buraco pior? E agora para sair desse buraco? Que coisa mais vexatória.
Acho que ele foi o único dos 33 que queria se enfiar no buraco, novamente...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A ASCENÇÃO DOS 33 CHILENOS SOTERRADOS (Subam meus irmãos)

Venham para a vida
viver de novo,
amar de novo,
de novo temer.

Venham ver a vida
daqui de cima;
amar, apesar
de quaquer baixeza humana.

Venham acordar
por cima da Terra,
em cima da cama
de suas donzelas.

Venham gozar da vida
o que há de bom.
Tomar café,
ouvir o sol.

Voltem para cima,
que a vida é boa,
que a vida é leve,
que vocês merecem!

Agradeçam a Deus,
tudo foi Divino,
tudo foi perfeito,
foi maravilhoso.

Abracem seus filhos,
beijem os seus pais,
amem suas mulheres,
Merecem essa paz.

Agradeçam muito
aos seus Protetores.
Porque na verdade
foram cuidadores.

É bom ver o homem
unir-se assim,
por seus semelhantes
acima de qualquer baixeza.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

POEMA PARA CLARICE LISPECTOR

Clarice
me diz de você.
Onde é a tua pressa?
E a tua, clama?

E diz das coisas que escrevias,
escreves ainda,
nessa terra onde as torres
nunca param de crescer?

Clarice,
se eu tiver outra filha,
terá teu nome para alvorecer
as ideias.

Clara feito uma manhã,
toda manhã é bem clara (devia ser).
Clarice, vem me atormentar;
que assim calma, sou sem sal.

E sem açucar.

Solineide Maria
(poema publicado no Recanto das Letras)

domingo, 3 de outubro de 2010

DIA DE ELEIÇÃO (exercitando a cidadania...)

Hoje é dia de votar
rarara...
Hoje é dia de assumir
hihihi...
Hoje é dia de eleger
hehehe...
Hoje é dia de parirmos
novos seres engajados
a nos desobedecer.
Novos seres que
fenecem,
falecem,
afrouxam
quando chegam ao poder.

FATOS E FATORES PARECIDOS COM O REAL NÃO SÃO MERA COINCIDÊNCIA.