terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Desabafo

Não posso desejar que me entendas, nem eu
Mesma sei o que pensar, quando a face do amor
Se mostra estreita.

Solineide Maria
27/12/2009

Desde que possamos considerar este mundo uma ilusão e um fantasma, poderemos considerar tudo que nos acontece como um sonho, coisa que fingiu ser porque dormíamos. E então nasce em nós uma indiferença sutil e profunda para com todos os desaires e desastres da vida. Os que morrem
viraram uma esquina, e por isso os deixamos de ver; os que sofrem passam perante nós, se sentimos, como um pesadelo, se pensamos, como um devaneio ingrato. E o nosso próprio
sofrimento não será mais que esse nada. Neste mundo dormimos sobre o lado esquerdo, e ouvimos nos sonhos a existência opressa do coração.

Fernando Pessoa por Bernardo Soares, do Livro do Desassossego, p. 250. Editora Brasiliense - 2ª edição.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Bilhete Natalino - sem destinatário

Querido,
Segue um presente com esta carta qualquer. O presente também é assim como esta carta, algo de algum e de talvez. Não lhe conheço ainda, não sei de onde vem e nem se virá...
Já que é Natal, aproveitei para comprar, também, um panetone. Adoro panetone, pensei que se não gostar, pode presenteá-lo a alguém.
São tantas sugestões nas vitrines, mas ao mesmo tempo tão poucas. Tão mínimas, ínfimas, tão quase nenhuma. Ainda mais no meu caso, não sei quem é você, não lhe conheço ainda...
Tenho apenas uma vontade que seja assim ou assado, desse e não daquele jeito. Já lhe dei minhas características favoritas que gostaria que um homem apresentasse. Mas dizer que sei quem você é, seria mentira.
Aliás, nunca sabemos, de verdade, quem somos e quem é o outro. Que outro? Nós no outro que criamos? O outro que nunca quisemos que abrolhasse? Meu Deus vela por mim que ando assim. Assim desse jeito...

Solineide Maria
12/2009

Oração-pedido para São Francisco (sobre seivas e outros elementos que andam faltando no coração)

São Francisco, onde anda minha paz? Não a encontrei. Rodei a casa toda, o balaustro está vazio e o vento sopra umas mensagens que você enviou (correio bom), mas ineficaz para um coração abarrotado de ruídos. Onde, São Francisco, encontrar algo elemento tão sutil, neste ambiente que não soube refazer sem que restassem nervuras? Cadê suas criaturas-passarinhos, revoaram para que lugar: qual árvore os abriga agora? A que se avizinha de minha vida, anda silenciosa e triste e, pior, abandonada. Tende piedade de mim querido Amigo dos ventos, dos pássaros, dos peixes, das árvores, da vida enfim. Traz um pouco de seiva para mim.

Solineide Maria – Para O Livro de Orações da Mulher (em revisão, para edição).

sábado, 19 de dezembro de 2009

CASAMENTO DE REGINA E TIAGO (pequena reflexão)

Hoje uma sobrinha vai se casar. Essa atitude de unir sua vida cotidiana a outra, é, no mínimo, corajosa. Não sabemos o que vai acontecer direito, sabemos que a vida será diferente de antes, mas não temos garantias...
O outro, aquele que admitimos em nossa vida, pode mudar ou mostrar sua verdadeira face. Pode não nos entender direito e nós da mesma maneira.
Uma coragem dividir casa, cama, mesa e banho. Se não fosse "o sentimento" essa ocorrência, casar, não seria tão frequente. Lógico que existem muitos tipos de uniões viciadas, algumas acabam em cadeia e guerra judicial. Mas não é este o caso.
O caso que narro começou a se dar quando ambos os noivos eram adolescentes, hoje eles tem 25 anos de idade cada. Trata-se de um encontro de duas criaturas que decidiram, mesmo, experenciar o amor numa união conjugal.
Pode-se, dessa maneira, crer em algum tipo de luz no fim do túnel das dissentimentalidades humanas, nessa tal contemporaneidade.
Seja feliz Regina e Tiago!

Tia Solineide
19/12/2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Suor e quase lágrimas por uma geladeira econômica (popular)

Uma agonia a entrega da geladeira econômica para o povo. A maioria não era tão povo assim... Mas todos saíram com suas geladeiras brancas, econômicas. Até aí tudo bem.
Mas à tarde, chegou um pessoal para "discursar". Dizer coisas não muito verídicas, sobre a entrega dessas geladeiras econômicas e outras palavrinhas mais. Se é popular eles aparecem, mas visando lucrar, amealhar, barganhar. Entende?
Uns, cansados, escorriam em suor e quase lágrima, tarde de duzentos graus de calor! Outros, gritavam "felizes" o nome daquele moço que iria falar... Quanto tempo, e a gente não cresce, não muda, não nada.
Havia de tudo por lá e todo tipo de gente, todos almejando alguma coisa: um cargo, um emprego ou mesmo a foto no jornal. Uma criatura gritou "lindo"! Lindo era o político que estava prestes a falar coisas que em toda eleição se diz. A pessoa que gritou, era uma professora formada em Pedagogia. Por qu é mesmo que a Educação está passando tão mal?
O circo dos horrores, quase. A mentira, a enganação, a hipocrisia, todas reunidas num mesmo ambiente.
Mas pode piorar.
O povo colhendo suas geladeiras, mas alguns tinham que ficar servindo de ouvido para o discurso dos "moços", sempre aparece mais um...
Quem pôde, pegou sua geladeira novinha, "popular e econômica" e se despencou para casa.
Suor e quase lágrima.
Mas pode piorar...

Solineide Maria - Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
12/2009

Outra declaração de partir

Meu barco de te encontrar
Perdeu um pouco o jeito
De lidar com ondas altas
Quis descansar.



De Solineide Maria
verso do poema Outra declaração de partir.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Sobre amigos

Ser amigo é ser sincero. Denunciar a verdade, falta de verdade ou nada de tão sério.
É animar o outro, mas não mentir. É falar na cara e, se ferir, pedir desculpas sinceras. Mas perdir. Às vezes, ser amigo é coisa muito difícil, porque temos de acordar o outro de grandes devaneios.
Ser amigo é não ter papas na língua, mas não tê-las com jeito. Amigos ferem, mas sabem fazer curativos que não deixam cicatrizes.
Às vezes amigos deixam grandes cicatrizes: são aqueles que partem e não voltam.
Amigo é assim, coisa mais difícil de encontrar. Coisa mais difícil de manter, coisa divina de merecer.
Tenho poucos amigos, mas os que tenho, sei que são verdadeiramente amigos.

Feliz Natal Bruna Bispo - 2009.

Solineide Maria

Barco na hora de voltar, chorando

Malas prontas e nenhuma vontade de voltar. Também, para onde ir com tanta angústia? Por quanto tempo se sustenta um desamor?
A lembrança do balouçar de um lustre antigo sinaliza a lembrança de que a porta está aberta. Fechar, então, a porta é a única coisa possível, já que não se pôde fazer nada contra a convulsão absoluta de choro e dor que desmoronou. Antes mesmo de voltar, chorou e soluçou.

Solineide Maria - Livro Ali longe no mar - sendo revisado pela Scortecci.

A ENXURRADA

A enxurrada de gente escoa para o metrô.
Cada pessoa uma gota de esperança, sobretudo, mas esperança é bicho frágil...
A enxurrada de esperança escoa para o metrô, desce os degraus, entra nas frestas que as levam para lugares diferentes.
Cada gota vai prum canto, mas sozinhas, dispersadas, perdem o encantamento e a força.
Cada gota separada, não diferencia nada, tornam-se coisas egoístas, pensam apenas em regar suas plantações de sonhos, querem um rio inteirinho para si, não olham a gota de esperança vizinha, desidratando.
Gotículas separadas não sopesam, não compartilham.
Juntas, elas compartilham? Naquela embarcação moderna, elas compartilham?
Compartilham as frestas, ou estão ali porque estão, e pronto?
Perde a graça aquela enxurrada, quando escoam para lugares ímpares. Então, a inutilidade da multidão em que se transformam, deixa uma dúvida pertinente, que atravessa o meu dia: − É uma enxurrada de esperança, ou de egoísmo?
A enxurrada tem força que nunca saboreou, não do jeito mais sublime, dar e receber amor. Nisso vem e vão-se os dias, anos, séculos... E a enxurrada sem coragem de amar, de ser amada. Compreende pouca coisa, apesar de antiga e gasta.
Há, no entanto, o dia em que essa enxurrada descobrirá não a força que ela tem, mas a força que não sabe aproveitar.
Há de chegar o dia de essa enxurrada escoar para lugares dispersos, mas com a força multiplicada.
Há de chegar o dia de essa enxurrada compreender, que gotícula separada não carece ser gotícula egoísta e quando notar a gotícula vizinha, desidratando, doar um pouco de si, água-esperança das boas, porque água-esperança doada é de melhor qualidade.
Esse dia há de chegar, porque repetir história tem limite.
Amor é que não cansa, e amor, não é história repetida, é história incompreendida.
Nesse dia, as gotículas não precisarão de embarcação. Terão comum entendimento. Por isso, saberão sozinhas, embora não egoisticamente, seguir por frestas e vincos, levando sossego, porque o terão de sobra. Sopesando a vida, regando onde já exista, e encharcando tudo de paz e de amor.

Solineide Maria - Natal de 2005.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Inscrições sinceras para 5 lápides

Aqui jaz
Ninguém.
Rosto invisível,
Luz rouca,
Desdém.

Aqui jaz
Aqui.
Derivação
Incomposta.

Aqui jaz
Ali.
Verso que não
Reconforta.

Aqui jaz
Aquém.
Braços,
Pernas,
Costas.

Aqui jaz
Além.
A onde?
Esquece.

Solineide Maria
2006

CUIDADO, pessoa treinando...

Hoje quero desenhar uma flor bem bonita, porque é difícil desenhar fadas.
Ouvi dizer, que quando treinamos, conseguimos fazer qualquer coisa mais facilmente.
Eu até acredito, mas por que já desenhei algumas vezes o caminho de encontrar o prumo
e não consegui ?
Desenhar inúmeras vezes não seria treino?
Viver é treinar, eu penso. Treinar até conseguir...
Então hoje quero desenhar uma flor bem bonita, porque é muito difícil desenhar fadas.


Solineide Maria
02/07

4 coisas a saber (sobre certo eu-lírico)

Eu
às vezes
ouço vozes
que não escuto.

Eu
às vezes
vejo coisas
sem nome.

Eu
muitas vezes
falo palavras
que não existem.

Eu
quase sempre
amo pessoas
que não se dão.


Solineide Maria - 2006

Amor de moleque é de verdade

O cabo da pá caiu na cabeça do pato.
O menino previu aquele perigo.
Quando a pá atingiu o bichinho ele viu, assistiu a tudo.
Foi um tempo infinito até chegarem em casa.
A mãe do menino fingiu que não era sério.
No fundo, ela sabia que a ave corria perigo.
Ela não quis magoar seu filho. Ser mãe é fogo.
Não teve jeito. A ave adoeceu e morreu.
Chiquinho ficou um caco.
Enterrou o bichinho e ficou do lado daquele túmulo um bocado de tempo.
Amor de moleque é de verdade.

Solineide Maria - 2006 - Para o Livro casos do Chiquinho

Toda Teoria é (quase) triste ( o contrário também é verdade)

A mulher jogou em cima de mim, um calhamaço de textos e disse: Isso aí é teoria.
Tristemente pensei: quero é ler poesia.
No outro dia ela falou sobre a teoria. Pegou a minha mão, pediu atenção, pediu coragem.
Falou num tom de lilás sobre poesia. Confortada, senti um pouco de alegria.
Quando cheguei em casa, muito cansada, desisti de querer entender tudo.
Quero saber agora sobre nada. Aquele nada inicial, antes das questões esquematizadas.
Antes de tudo era só poesia. Reinava no horizonte que viria.
Ela guiava os homens pelos muros invencíveis da agonia da falta de comunicação.

Para Pina
Segundo Semestre de 2008

Solineide Maria
2008

Vasta é a poesia

Vasta é a poesia, coarando no quintal as palavrinhas.
Todas vêm molhadas de minha cansada e eterna nostalgia.
Eu, vasta de nada.
A poesia não, a poesia é vasta.
Eu, às vezes, sou vago estupor.
Sou como a vastidão do nada, que existe a percorrer toda calçada.
Não sou feia, não sou bonita.
Não sou vilã, nem mocinha.
Vasta é a poesia. Eu não sou nada.
A poesia, ampla e vasta, igual ao universo que transpassa,
Ela é telhado de pureza, imensidão bicolor.
A poesia é meu amor, mãe da vida, cantora da morte.
Eu? Sou algo que ninguém vê e que não se diz.
Sou o mesmo que o poema que não sabe (ou não deseja) nascer.
Vasta é a poesia!

Solineide Maria
2006

PRECISO AMAR QUIETINHO, QUIETINHO (feito uma cortina invisível)

Aprendi que nunca sei amar.
Que não sei, ao menos sem falar.
É que as palavras querem participar
Estar, caminhar pela vida de fora.

Aprendi que não sei esconder
Que não sei ir dormir com palavras nas mãos.
Sempre foi assim, de repente olha ali,
Olha aqui, olha a minha intenção...

Mas não da para ser assim eternamente
As pessoas se escondem, recuam,
Ninguém quer falar, ouvir, entender
As palavras que dizem coisas de se ofertar.

Preciso desaprender este amar falante.
Procurarei no baú dos silêncios
Um amar quietinho, quietinho,
Feito uma cortina invisível.

Solineide Maria
07 de setembro de 2009

Oração Dominical (de noite na cama) depois de tudo...

Meu corpo é fraco Senhor.
Minha vontade é fraca.
Meu espírito sofre essas tendências...
Mas quero ser forte!

Liberta-me de mim. Desses desejos...
Faz-me melhor, já que vontade tenho.
Inunda-me de Ti. Apenas de Ti.
Faz-me outra, melhor, ampla de luz.

Farta estou desse nada carnal.
Cansei, também, das palavras que mentem:
companhia, amor, afeto.
Até elas andam cansadas...

Meu discurso necessita ser efetivo.
Não pode ser (mais) esse vão, em vão.
Só Tu és a fala que não mente,
o amor que não esvazia.

Solineide Maria
9/10/2009
Para O Livro de Orações da Mulher - no prelo.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Oração de sexta-feira à tarde - da mulher solitária e/ou mal acompanhada

Meu Deus...
Tire de mim a vontade de deitar com um homem, e querer ser ditosa com ele para sempre e não ser feliz. Porque ser feliz vem de amar, antes de deitar. Deitar-se com um homem é pouco.
Arranque de mim a vontade de fazer coisas com as mãos carnais. Dá-me as mãos espirituais, que nunca soube conseguir. Aquelas que tocam o coração em festa.
Lamento ser tão pouco. Ter tão pouca prova de sabedoria, lamento. Lamento mais: ser quase escrava da ilusão de indivíduos que circulam e passam e nem dizem que me amam e me consomem, inutilmente.
Muito mais lamento, me deixar escravizar por essas ilusões que tateiam a minha pele, se apoderam de minhas veias e atingem (em cheio) o meu coração.
Seja Tu meu Companheiro solene. Convide-me para andar ao luar no Jardim de Suas Verdades.
Convide-me para visitar as margens de algum rio ainda belo, ainda limpo, ainda rio.
Seja Senhor, Tu, Aquele que vem porque deseja, porque seis horas haverá um sarau perto da igreja, e, depois, poderíamos sair para respirar a noite em diálogos inspirados, dignos de Ti.
Seja Tu Senhor a mão que afaga minhas quelóides emocionais...
E não me deixes cair em mais nenhuma tentação impudica, derivada da solidão e da tristeza. Afaga a minha ingenuidade e renova minha vida emocio - sentimental.

Solineide Maria
09/2009.
(Para O Livro de Orações da Mulher. Em contato com duas editoras para publicação ).

MAS TUDO BEM

Hoje estou numa canseira danada. E nem sei se é cansaço mesmo, ou dissentimentos que afetam meus afetos. Não sei mesmo o motivo de continuar sonhando umas coisas que se fazem tão distantes. Mas tudo bem... Mesmo que esse bem esteja em itálico.
Uma noite mal dormida é mesmo uma coisa chata. Ficar pensando e não poder fazer nada, nada de nada. Lembrei de um amigo (de verdade) que me aconselhou a ser mais irresponsável. Talvez seja isso: um pouco de irresponsabilidade nos deixa mais leves. Afora as decepções, culpa de minhas intencionalidades pueris, estou até “bem”. Mesmo que esse bem esteja entre aspas.
Ontem, quando cheguei em casa, me deparei com uma conta a pagar. Pois é... A vida são contas a pagar. Contas que a gente nem sabe por quanto tempo mais irá pagar. E graças a Deus quando pagamos. Mas e nessas questões sentimentais: quem vai pagar a conta dos desencontros? Nós! Também são contas nossas. Melhor quitá-las em tempo. Coisa mais complicada isso, viver pagando por tudo... Dizem que é bom você vai embora quite com a vida. Vá lá...
Amanhã tenho de acordar cedo para fazer tudo, inclusive o almoço. Com o pouco material que tenho, só dá pra improvisar. Talvez um bife acebolado com arroz e feijão. Suco? Não sei, não tem fruta; nem limão sabia?
“Mas e o humor”? Drummond perguntaria... O humor anda falho Drummond querido, mas tudo bem. Ainda que esse bem esteja negritado.

Para Meu amigo Clínio.
Com afeto e sincera amizade!
Solineide Maria
01 de setembro de 2009.

Eu quero um poema.

Eu quero um poema. Você tem?
Me dá um poema pra sentir.
Para ler e acordar.
Não quero discutir poesia.

Deixa aqui perto da cabeceira,
Da mesa da cozinha,
Perto do fogão.
Traz um poema pra mim...

Queria ler um poema calmo
Para abrandar meu espírito
Que de tão insosso, não quer mais
Ser insosso.

Chegamos ao ápice da falta de poesia.
Cheguei.
Por favor, traga um poema para mim,
Desses que não, nunca vi.


Solineide Maria de Oliveira
2009

sábado, 12 de dezembro de 2009

BETE PARTE TRÊS

Bete aspirava a felicidade, mas a frustração sempre a acompanhava de perto. De longe também. Uma vez, foi por algum tempo, quase feliz, mas Bete queria mais. Queria ser feliz totalmente, cem por cento mesmo. Bete sempre queria cem por cento. Ela nunca se deu conta de que essa conta fechada não existe na vida. Às vezes parece existir, mas é pura invenção. Só que Bete não ouvia ninguém e nem queria saber de mudar de opinião de repente, ela sempre queria ver pra crer e sempre, mas sempre, se dava mal. Bete nunca aprendia...
Seguia, então, Bete, aspirando a felicidade, que para ela, estava metade no amor e metade na vida cotidiana. Era assim, para ela tinha de ser cem por cento, meio a meio, tudo certinho, no lugar. E nunca se dava conta de que essa conta não fechava em momento algum.
Bete sempre acreditava que no outro dia, da próxima vez, na próxima relação, quem sabe, quem sabe... Só que dessa vez Bete não estava mais tão empenhada na aspiração da felicidade, sentia as pernas e os pulmões vencidos, quase chegava a enxergar a data de validade. Bete não estava bem. Bete nunca esteve bem, mas aspirava, lembra? A tal felicidade cem por cento.

Solineide Maria

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Oração de segunda-feira (da mulher ca(n)sada e solteira)

Fazei com que esqueça a poesia, porque ela me deixa lúcida. Não dá trégua ao meu pensar que anda cansado. Quero descansar, ser feliz na bobagem. Por favor.
Deixai-me sair por aí achando lindo não ter nada a dizer, ao mesmo tempo em que os outros zombam de mim e eu, tacanha, sorrio sem entender o que dizem.
Fazei-me Senhor, com que, desiludida e tola, caia de vez no terror das idiotices humanas: programas vespertinos de domingo à tarde, falas mentirosas de homens que apenas desejam sexo e doses de mentira que inebriam. Elas não saciam, mas alienam a mente e fazem vir um sono esgarçado, mas sono.
Não me deixes cair em pouca tentação. Fazei com que sejam muitas. Todas imbuídas de um terror humano horroroso. E, depois, eu, mais frágil ainda possa me desfalecer em desculpas que o Senhor não as atenderá.
Não sou digna de que entreis em minha morada, nunca fui.
Deixe-me ruir até virar novamente pó, barro, material que pode vir a ser reelaborado. Por favor.


Solineide Maria de Oliveira
De O Livro de Orações da Mulher – Inédito. Mas já em contato com duas editoras...

O OUTRO LADO DA CIVILIZAÇÃO (Viva a usina termoelétrica)

Qual é a do tempo hoje?
Nem abra a janela, não vai dar praia.
Não vai dar jeito de respirar.
Olha que céu cinza meu amor...

Mas tem chuveiro quente,
Tem carro ultra-rápido,
Tem computador do tamanho da mão.
Tem tanta coisa... Tanta...

− É. A gente é tão feliz...
Tem praia no telão. Água no telão.
Tem ar puro no telão. Árvore no telão.
A gente é tão evoluído...

A gente ta com tudo.
Tem usina termoelétrica.
E no telão tem até o que não tem mais:
Que emoção...

Para Luísa minha sobrinha afilhada (15-09-2009)

A laje

Na laje está tudo arrumado. As mesas, duas, dessas de plástico, forradas com toalhas coloridas, muito vibrantes. As cadeiras e os bancos também estão por ali; tudo muito despojado, típico de um dia de domingo na laje. Muito calor, muita cerveja. Para os pequenos, guaraná em garrafas de dois litros e muitos copos plásticos.
Devagar chegam os convidados, metade do pessoal é da família, mas tem os amigos e os colegas de trabalho, e seus respectivos filhos. Ajeitando-se, eles sentam nas cadeiras, nos bancos, alguns ficam encostados em alguma parede esperando a carne assar.
Do outro lado o churrasqueiro arruma os espetos, vira e mexe, pinga um caldinho por cima das carnes, elas respingam na brasa, é quando se sente aquele cheiro típico de carne de churrasco em dia de domingo na laje. A fumaça acalma, e a visão da carne douradinha, saliva a boca, abre o apetite. Não dá mais para agüentar (nem mais um minuto) essa é a sensação. O desejo é pegar um tasco bem grande e tirar do espeto buliçoso com a ajuda dum garfo, cortá-la em pedaços, depois banha-la completamente com aquele molho de tomate, cebola e pimentão excessivamente suculento, em seguida abocanhar no maior gosto.
_ Abre um guaraná, pega uma cerveja! Pega duas cervejas!
_ Vai lá, chama os menino, já tem calabresa assada!
Quando a cerveja faz efeito (sobe à cabeça), o volume do som vai para o máximo, e a música baiana convida no refrão: “venha, venha, venha, venha, venha, venha...” Nisso o Rivaldo já muito “bebido”, aceita o convite da música naquele refrão sugestivo, e vai mesmo. Antes, porém, arranca a camisa num único movimento, arrasta as mesas para bem perto da parede do lado esquerdo, pois do lado direito está o microsistem novinho e arrasa em coreografia. Mexe os quadris, remexe a bunda freneticamente, abaixa e levanta numa rapidez de dar inveja. Com os braços para o alto, imita um laçador; roda os braços e grita e rodopia no chão de cimento da laje, imagine se o piso fosse de assoalho encerado...
Com aquele feito, Rivaldo consegue animar os outros convidados, que se lançam desarvorados naquele palco improvisado. O varal começa a ser arrancado, parece incomodar aos dançantes, a dona da casa acode aquela corda útil embora incômoda naquele momento para aquelas criaturas. A música sinaliza erotismo: “toma gostosa lapada na rachada, toma, toma, toma...” Chega a vez de Galega, com sua saia minúscula que consegue ofuscar a performance de Rivaldo, que diminui o ritmo de sua dança. Então Galega se espalha, dança lapada na rachada com desenvoltura, rebola até o chão, segura na cintura, solta a cintura vai contorcendo os ombros em movimentos rápidos imitando uma ginasta. Quando agacha até o chão com a mão na cabeça e a outra sensualmente perto das partes íntimas, Rivaldo não agüenta. É como se aquilo fosse um convite, e os dois lançam-se a se misturar naquela espécie de dança e apresentação teatral, como se eles tivessem ensaiado aquilo dias e noites.
A essa altura ninguém sabe das crianças, o churrasco não importa mais, embora alguém ainda vire os espetos e anuncie vez por outra:
_ Já tem coração assado, já tem calabresa!”No microsistem portátil o refrão da música anuncia: “ela é problemática, ela é problemática...ela toma conhaque, toma cachaça, quebra a cadeira”...

Solineide Maria - Dedico ao Maravilhoso Odilon Pinto.
2007

SÁBADO

Outro dia acordei e era sábado. Então, pus-me a pensar no que fazer, já que o dia pedia que dele me apropriasse. A dúvida surgiu terrível e grande: sábado é feito para quê? Principalmente quando brilha num azul inesperado de inverno? Namorar não dá, porque estou sozinha e já nem sei se gostaria de não estar. Perdi o jeito de ser acompanhada. Perdi a paciência com o outro e não sei, sequer, se o outro gostaria de estar acompanhado desse meu sábado e de minha acanhada pessoa enjoadinha.
Um sábado é para passear? É para sair e comprar quinquilharia? Ou serve para comprar mantimentos e arrumá-los muito vagarosamente na dispensa da cozinha? Perder esse sábado não é perdoável. Ou melhor, não seria, pois ainda na cama com as cobertas, lembrei que existem umas roupas que exigem limpeza.
Um sábado inteiro então, surgiu para perder com as coisas práticas de minha vidinha... Depois fui lembrando de tantas coisinhas: da comida esperando o seu concebimento para logo mais (o almoço) e para toda a semana. Lembrei-me muito triste da visita que ainda não fiz a Catherine para conhecer seu novíssimo filho. Lembrando fui das outras visitinhas que poderiam ter acontecido num dia de sábado assim claro-intenso.
Sábado devia acontecer duas vezes por semana. Sério. Um sábado seria para as coisas práticas da vida serem organizadas e o outro para as visitinhas atrasadas. Para namorar, sábado não serve, pois depois do sábado vem o terrível domingo com sua áurea de dia para pensar e organizar toda a semana. Toda a semana que não sentimos passar... A maioria delas tem sido assim: árdua, implacável, forte. Sentimos tudo mesmo é no sábado. Por isso, esse pleito inocente por um sábado reserva é de grande entendimento. E no caso de virar projeto teria grande aceitação.
Partirei daqui (do quarto em desalinho), para meu sábado azulado, que será desperdiçado com as coisas práticas da vida. Qualquer pessoa perceberia, que um sábado como este que aparece na janela escancarada, não deveria ser desperdiçado.

Solineide Maria.

O silêncio

Exceto a luz do enfeite natalino que brilha pendurado na janela do prédio vizinho e ultrapassa a janela da sala em penumbra, piscando em cores multicoloridas, não há nada mais que anuncie dentro da casa algum tipo de vida. Digo, vida além da minha andando pelo corredor que liga os cômodos, numa ansiedade meio tédio, meio tristeza, meio amargor.
Ainda ontem um amigo perguntou-me com um entusiasmo frenético, onde iria passar a noite de Natal. Respondi seco e rápido: em casa. Ainda assim deixou o convite de passar com ele e sua família a noite do nascimento do Menino. Naquele momento não tinha idéia de como a solidão em noites assim é cruel, e nem me dei conta de que há um mês estava separado.
Poderia, se tivesse entusiasmo, ligar para aquele amigo e anunciar que precisava de companhia para tal noite, e aceitar o convite refutado em noite anterior. No entanto, não encontrava nenhum ânimo para pegar o telefone e discar os números.
Lembro-me do último Natal em casa quando ainda estava casado. Muitos presentes foram trocados, muita bebida. Os sorrisos falsos ardendo de mentira. Ali percebi que a hipocrisia não me caía muito bem. Ali também meu casamento se mostrou opaco, sei lá, acho que fosco... Mesmo assim, sinto falta daquilo agora. Acho que da presença de gente e euforia. O Caetano está certo naquela música, quando diz que precisamos reconhecer o valor necessário do ato hipócrita.
Boa idéia: posso ouvir Caetano Veloso e beber cerveja, e descansar os pés, as pernas, o ombro, os rins, o coração, a bacia, o pulmão, a cabeça. Sei não... Caetano mais instiga que asserena. Ainda mais nesse cd Ce, que é um jogo triplo de palavras e intenções. Melhor não. Deixemos o Caetano descansando impávido no disco brilhante dentro de sua bela, simples e bem pensada capa.
Abro então a geladeira num misto de vingança e horror ao silêncio da cozinha, talvez uma cerveja me escolte e instigue a ligar a TV, talvez... Quando chego à sala e as luzes voltam a lembrar que é noite de Natal, desisto imediatamente da idéia. Também, TV pra quê? Certamente o que estaria infestando os vários canais, seriam as notícias sobre a festividade natalina.
A cerveja, embora na temperatura ideal, não me apetece nenhuma vontade. Meu único desejo é que a tal noite de Natal voe para longe e alcance a manhã.
O telefone, impávido, continua residindo em seu lugar convencional. Talvez alguém tenha telefonado enquanto estive no banho, ou na mais cínica das hipóteses que tento inventar para meu ego destratado, ele estivesse com algum problema técnico. Pego o aparelho e ouço o som de linha. O telefone está ótimo amigo, deixe de bobagem ninguém ligou mesmo, simples assim.
Estou irremediavelmente sozinho nessa noite de Natal. E fico pensando: o que será que esse silêncio quer dizer? Os filósofos dizem que o silêncio também é linguagem. Papo furado. O silêncio é essa agonia em busca de uma palavra qualquer, um consolo qualquer, numa urgência que incomoda e dói até as unhas.

Solineide Maria de Oliveira

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

PARA RAFAELA GUIMARÃES

A amizade é um pouco mais do que o amor, dizem. Também creio. Porque o amor (esse mundano) não experimenta da paciência e do zelo de uma sincera amizade. Esse amor “comum” é traiçoeiro, às vezes cansa, às vezes acaba. Às vezes nem existia...
A gente às vezes inventa alegria; entendo quem inventa o amor. Mas a amizade, essa não há quem invente: ou é ou não é amigo. E todo mundo sente quando o amigo é sincero ou passageiro das horas, o “colega” como é mais usualmente conhecido.
A amizade não tem hora. O amor, esse, que aparece e some num triz de nada, lá esse tem. O "colega" também.

Salvador, dia 21/12/2009, receberá de volta, Rafaela Guimarães, depois de quase dois anos de idas e vindas para a UESC – período em que terminava sua Pós em Pedagogia. Entregará o Artigo final e será minha amiga eterna. Amizade que nasceu nas aulas de Língua Espanhola, onde era discente por opção. Reconhecemo-nos como amigas.
Rafa, minha AMIGA, Vai para Cuba, onde iniciará e dará cabo, com louvor, do Mestrado em sua área.
FELICIDADES!
Obrigada pela AMIZADE a mim dedicada, ALEGREMENTE acolhida e retribuída.
SOLI

O amor, não sei...

O amor, disseram, é tal fogo que consome,
É labareda que instiga uma fome
Trilha que perde e de repente triste se faz.
O amor, disseram, é um farol
Que se distrai.

O amor
Palavra mal empregada quando emitida
Pois a maneira para que fora inscrita há muito anda esquecida.
O amor não sei: parece luz,
Parece fogo, parece brisa.

E este meu amor, querido homem,
Agora sopra uma certeza que já não sabe
Nem onde e nem quando se assegure.
Talvez exista porto, casa, peito,
Paragem.

Mas é que o medo agora está
Mais forte,
Que a labareda que um dia ansiosa
Soprou unânime,
Em meu peito uma mensagem.

Também queria te encontrar...
Num espaço e tempo ainda possível
Para te amar.
Seria, no entanto, auspicioso?
Fornalhas entristecidas
Podem voltar a foguear?

O amor, disseram,
É um contentar-se de descontente.
Talvez por isso melhor seria
Erguer aos céus milhões de preces
Para este lírico amor desencantar.

Solineide Maria
Junho de 2009

Olha Luíza, como estão tristes!

Olha Luíza, como estão tristes!
Os teus tão solitários aluninhos
Todos murchando, quando não, murchinhos!
Por este pátio afora coitadinhos.

Olha as árvores ceifadas do bosquinho!
Foram muitos os pobres passarinhos
Desencantados fora de seus ninhos.
Feito quando perdemos seu carinho.

Tornaram nosso olhar assim vadio.
Cansamos por acreditarmos tão sozinhos!
Em uma educação que pende ao vazio.

Solineide Maria
Para Maria Luíza Mestre em Psicologia da Educação (com carinho)

A QUEM INTERESSAR POSSA

Na minha universidade estão cortando árvores. É que ela está crescendo fisicamente. Vão construir um Laboratório perto do pavilhão de Letras: Adonias Filho. Arrancaram muitas árvores...
Eram árvores cinquentonas, penso. Ou quarentonas? Centenárias? Jovens, nos três casos. Fiquei triste por elas. Não me animou também a questão do Laboratório: é para o povo de Bio, Medicina, Química etc.
O povo de Letras não tem uma saleta simplória com melhor acústica, para aulas de Línguas... "A cada um segundo suas obras". Será essa, a mensagem?
Como sou meio melancólica, deve ser muito olhar pra pouca paisagem. Ou o contrário...
Vamos festejar o Laboratório de Química e ser feliz...
"Mas a UESC está limpa e bonita feito sempre", um colega me respondeu assim, quando me queixei das árvores...
À leitura então: estou lendo Paulicéia desvairada. Ainda hoje é moderno. Incrível né? "Atemporal minha linda", diria um amigo paulistano.
“Sobra” ler. Trata-se “mesmo” de uma pitada de leveza no peso da falta de boas novas. Muito gostoso saber do poder da leitura. Saborear as palavras salvando uma vidinha (dinha de carinho). "Um poema pode salvar uma vida" e um livro pode salvar e mantê-la.

Obs. Um poema também...


Solineide Maria
Aluna do Curso Letras
UESC – Ilhéus - Itabuna

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quero

Quero a noite dos dias claros.
Depois, de tanto descansar, pedirei outros dias claros, sol a mil.
Para onde mais eu for, pedirei companhia, não muita, mas para estar perto, segurando meu cacho de dúvidas, pencas de problemas, ilusões perdidas.
Que seja alguém liso, calado, alguém quase uma bruxa boa, sem voz, exceto a mínima, para dar boa noite, bom dia e rezar comigo:
Pai Nosso de todos os lugares, que tudo em todo canto esteja calmo, e que tudo o que me aconteceu, seja para correção minha, e que tudo o que há de vir, seja o melhor para mim, mas
Pai, que eu seja bondoso com os outros e com a terra, com os que estejam de acordo comigo e com os que discordam, me ajude à calar porque é difícil, e à falar somente o necessário,
Pai Nosso de todos os lugares, não tenho mais vontade da realidade, quero estrelas outras, outros rumos, outros ais.

Amém

E que essa criatura seja calma, seja muito calma, pois eu já não sou mais.

Solineide Maria
24-02-03

NATAL DE CIDADE PEQUENA

A procissão passa nas ruas: velas, lenços, velhas.
Velhas canções de Natal, do verdadeiro Natal.
Nas casas estão as árvores: são pequenos coqueiros, grandes, muita criatividade.
Planta de cactos enfeitados com bolas, com brilhos.
Estrela.
Estrela de papel laminado, papel lustroso, papel de presente...
Papelão pintado com lápis de cor, mas estrela
Algumas casas exibem galhos secos, cobertos com algodão.
Neve de isopor. Todas são lindas.
Debaixo delas, bem ao centro, há uma pequena criança deitada.
Um bebê.
Imagem em barro, plástico, madeira...
Neve de isopor.
A procissão vai para a Capela.
Ruas, velas, fé?
Velhas canções de Natal.
Fé!
As crianças sabem do que se trata o Natal,
Os mais velhos respeitam a Data e alegram-se:
Eis a nova esperança!
Todos os anos renasce uma criança em nós, mas sabem disso aqueles que conhecem as verdadeiras árvores de Natal.
Árvores que imbuídas de simplicidade, são mais firmes.
Árvores que resistem aos ventos fartos e fortes do Natal outro, esse outro Natal que não deixa paz, quando passa.
Estrelas.
Todas são lindas.
Estrela de papel laminado, papel lustroso, de presente...
Papelão pintado com lápis de cor.
Neve de isopor.
A velha procissão canta Jesus e entra na Capela, no coração dos passantes, dos que assistem da janela, no coração da cidade.

Solineide Maria
2002

ABACATE

Quero amadurecer
quando for colhida.

Lá na minha árvore,
lá no meu pé de mim,
embirrado e miúdo,
quero ficar até que você olhe.

E minha casca,
lisa e brilhante,
não será prejuízo.

Minha polpa
agradável e leve,
será para você,
minha paga,
sua recompensa.

E não acelere o processo de maturação,
porque meu coração verde musgo,
já lhe pertence.

E quando for me usar,
abuse de tudo em mim,
e plante lá na minha árvore,
ao lado do meu pé de mim,
o meu caroço, de volta.

Que sou doce,
ou salgada,
como quiser,
vou ser seu abacate,
acate,
cate,
ate.

Até.

SOLINEIDE MARIA
2002

DELE

Um dia ele vai entrar e dizer coisas imcompreensíveis e vou escutar, entender, acatar.
Solineide Maria

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Porque hoje em dia ninguém ama e pronto.
Ama e quer cama.
Ama e quer lama:
Quer os destroços do outro,
A tristeza do outro.
Até em prestação: a dor do outro.
Nunca é bastante amar.
Nunca é bastante querer bem.
Deixe de bobagem:
Ame.
Mas apenas se for verdade.
Senão, cale e reze uma Ave Maria
antes de dormir.
Amém.

Solineide Maria de Oliveira
Olá a todos!
Estou arrumando esse espaço. Vão gostar sim! Serão poesias minhas, crônicas e outras coisas, como o nome já indica. Um cantinho para acalmar o coração e instigar, se quiserem. Encontrarão refresco para as ansiedades e quietude para a alma. Tudo em palavras.
Um abraço poético!

Solineide Maria
POETA/ISSA!