sábado, 30 de março de 2013

Amor Clarístico


Agora vou te amar como Clara amou Francisco.
Ficarei de longe imitando seus gestos,
sem fazer ruído.

Agora vou te amar assim com aquela singeleza,
com aquela beleza;
presteza de amor-irmão.

Agora vou falar de você como Clara falava do Irmão Sol!
Com tamanha emoção que parecia amor romântico...
Com tamanha satisfação que parecia desejo...
Com tanto coração que parecia carnal...

Agora vou deixar de amar você como gente comum.
Vou amá-lo direito: amor Crístico.
Vou rezar para seus dias serem fáceis de “matar”.

Vou escrever poesias de acalentar e de amainar dores:
físicas ou espirituais.
Escreverei orações também!

Todas elas serão sinceramente ingênuas.
Mas todas o são não é verdade?

Agora vou amar você feito Clara amou Francisco.
Não adotarei seu sobrenome, mas a poesia sim:
seguirei os tons leves,
graves,
os versos compassados,
a ironia arguta,
os conceitos violentos...

Serei sua Clara de Assis.
Sua irmã amorosa...
A criada da poesia.         

Solineide Maria (Janeiro de 2013
 (Dedicado à Clara de Assis)

quarta-feira, 27 de março de 2013

SENHOR: se for para fomentar energias tais quais: o amor e o respeito, deixe-me ser esterco...

Tem um livro que me auxilia na vida, chama-se “Evangelho”. E gosto dele em todas as versões documentadas pelos apóstolos. 
Gosto em especial de Lucas. Sua narração me envolve como um manto cheio de carinho, feito quando uma mãe zelosa usa para cobrir a pele do filho: ou contra o frio ou contra a poeira. 
Ultimamente tenho preferido que seja para me cobrir da secura dos corações e das almas. Sei que é pueril achar que um manto me deixaria à salva da secura dos corações e das almas dos irmãos que me rodeiam, mas é preciso acreditar... 
Ontem fiquei até uma da manhã preparando slides extras para servirem de esteio às minhas aulas: APENAS a palavra não basta hoje em dia. Aliás, que não sei ao certo o que basta hoje em dia... Porque nem slides, nem vídeos, nem música e nem a palavra (coitadinha) parecem funcionar direito com nossa tão aclamada “geração y”. 
Depois de meu advento à sala, seguida de inúmeros pedidos de silêncio, prestem atenção e, por favor, fulano e beltrano, chego a ouvir, de determinado aluno, que ele precisava reclamar dos “professores-bosta”. O educando disse isso porque avisei à classe que iria ter reunião de pais e mestres e, na oportunidade, colocaria a “dificuldade” com relação às conversas persistentes durante a aula. Claro que podemos (todos) reclamar sobre o que não nos parece bom ou profissional, mas falta de respeito não combina com “reivindicação”. 
Fiquei angustiada. Frustrada. Envergonhada e humilhada. 
Angustiada por não saber mais o que usar para que o respeito seja entendido. 
Frustrada por ter “perdido” tantas horas de sono na intenção de que a aula fosse, afinal, mais interessante ainda. 
Envergonhada por saber que não merecia aquilo. 
Humilhada por ter noção exata de que a classe está perdendo para a geração y (tão aclamada pelos pesquisadores). 
Genericamente há nos atuais alunos (que não são estudantes, porque entre ser aluno e ser estudante há grande diferença) uma disposição para a falta de respeito que beira a agressividade verbal e física. Isso quando a física não vem à tona primeiro. 
Igualmente de modo geral, a situação parece lugar comum... E TÃO COMUM que vira notícia nas mídias de toda espécie. A gente lê, vê, ouve, lamenta e no outro dia as cenas (notícias) se repetem... Lamentei-me sozinha caminhando para casa, quando então iria me preparar para outra jornada, em outra escola... Chegando em casa comentei com minha mãe o ocorrido. Ela, não podendo fazer nada, também lamentou: “o mundo perdeu o respeito minha filha”. 
Entendi que minha mãe disse, em sua lamúria, que no meio de tudo não há mais consideração. No meio das relações o respeito é algo entre findo e desusado... Dar como findo o respeito entre as relações é muito triste... Outro acontecimento lastimável... 
Depois de certo tempo e de recompor-me emocionalmente, pedi socorro ao Evangelho. Fiz uma prece e abri o livro aleatoriamente. Eis que me deparo com a lição: "Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem" (Lc 23,34). 
Li aquela lição como quem tomava água. Água benta. Água fluidificada. Água de acalentar a alma. 
A advertência tinha sido o manto que esqueci de usar pela manhã, antes de ir para o trabalho (sala de aula)...
Que maravilha a sensação de alívio que experimentei. Que doce alento para minha triste ingenuidade. 
Quem disse que não sou mesmo uma coisa qualquer? 
Diante de tamanho ensinamento, quem disse que não me volvo em excremento para arar a terra dos corações ressecados e ressequidos? Corações que não conhecem respeito, caridade, paz espiritual, amizade e amor? 
Quem disse que em forma de estrume não posso servir como incremento para a produção de uma terra capaz de ser usada para a semeadura da mansuetude? 
Mais adiante, pergunto-me: Quem disse que sou mais do que simples fomento? Se Jesus foi tratado como coisa sem função, por qual razão eu não poderia ser mal interpretada? Ainda mais nessa contemporaneidade tresloucada?... 
Aquietei-me na leitura. Refletindo a lição dada pelo Mestre e tão bem escrita por Lucas. Pensei baixinho: 
Crucifica-me aluno... Crucifica-me se isso lhe faz sentir alguma coisa. Se dessa forma você conseguir sentir mais do que nada, peço-lhe: crucifica-me. 
Não vou chorar por mim, nem gostaria de chorar por essa geração, mas hoje preciso lamentar - o verbo mais usado para as notícias atuais... 
Li novamente, desta vez em voz alta, o trecho que diz: 
"Não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos" (Lucas 23:28).
A leitura do texto de Lucas, aliviou minha face desrespeitada, e, mudando o verbo no texto, usei a prece do maior Pedagogo de todos os tempos: 
Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que DIZEM...

Solineide Maria 
Poetisa 
Professora

sexta-feira, 22 de março de 2013

ENCONTRO AMADO

A alegria chegou bem cedo no meu lar!
Tinha uma cara agradável...
De quem deseja compartilhar os seus achados!
Disse-lhe animada: “Entre, só vou me trocar”.

Ela sorriu e deu bom dia num
Tom Jobim desajeitado: “podem me chamar e...”
depois sorriu.
Fui e voltei num zás de segundo!

Troquei de roupa.
Depois tomamos um café
(sem precedentes de tão desejado!)
E o dia abrindo seus dentes bem escovados!

Ela contando casos engraçados:
eu sorrindo feito um bebê todo amado.
Escancarei a janela da cozinha
(lugar dos encontros mais sagrados).

Arrumei casa, passei flanela onde se deve,
limpei e lavei banheiro numa cantoria desacertada.
Minha amiga ficou “vibrando” de lá do quarto!

“Que bom que você está feliz!
Te encontro mais tarde, às três?”

Respondi agoniada:
“Não me deixe!”
Ela disse: “Como? Se estou em sua alma!”

Solineide Maria

quarta-feira, 20 de março de 2013

Para Manoel de Barros



"POESIA é você colocar uma imagem na vista do leitor". 
Armar uma rede salva-vidas... 
Escancarar a porta de saída (por vezes tão estreita...) 
Poesia é salvar-se. 
É entender sem mesmo ser Dr., 
nem Mestre... 
Nem nada...

Solineide Maria

terça-feira, 19 de março de 2013

Uma quase ode à Jaca!

Venha suculenta em minha casa, 
quero lhe cheirar desde a chegada. 
Sentir a sua doce companhia... 

Quero ser para você a boca aberta, 
a mão com pressa, 
o sorriso em festa... 

Vem me refazer 
com sua cor, 
seu sabor, 
sua atitude de me dar alegria aos bagos! 

A casca enfeitada de quase espinhos, 
quase feia...
Mas cheia de amor!

Solineide Maria

O Papa é pobre... O novo Papa é Francisco

Minha mãe acorda todos os dias, religiosamente, cinco horas da manhã. Reza três terços, depois vai fazer café, ferver leite, esquentar pão, varrer o passeio, o da vizinha, depois a rua... Recolhe tudo e entra para seu "rico" desjejum: um pedaço de pão e café puro. 
Minha mãe acordou hoje antes das cinco: rezou os seus terços na sala. Arrumou-se e fez o café. Depois sentou-se para assistir a Missa do novo Papa. 
Estava na cama, ainda, hoje é feriado de São José. Gosto demais da história dessa criatura: amou Maria mesmo sem entender direito o que sentia... Era AMOR sim. Amar sem querer explicações prolongadas, sem meter-se na intimidade do outro, em seus segredos, suas escolhas... Depois amou Jesus, um ser espiritual que lhe chegava às mãos MUITO mais elevado espiritualmente. Um sábio tão "menino"... 
José é um nome lindo! É o nome do poema emblemático de Drummond, é o nome do "povo brasileiro"! Poderíamos chamar o Brasil de Zé Brasil! 
O Papa lembrou do nome José, de José (pai de Jesus) e de José o Papa que pediu pra sair: Bento 16. José é um nome lindo mesmo... Mas tem João também que amo tanto (meu sobrinho-neto)! E tem Francisco!... Francisco é o nome adotado pelo Papa eleito recentemente. Agorinha, agorinha... 
Minha mãe contente, repete na sala: "Francisco... Francisco" Toda orgulhosa de já ter Papa. Eu penso comigo: "coitadinho de Francisco..." 
Lembrei da crônica de Raquel de Queirós (sugiro leitura completa). É linda! O padre da crônica vai para um vilarejo de pescadores , era seu sonho: ser padre simples, morar no meios dos pobres e rezar Missa. Simples assim. Um dia "descobriram" que ele fazia milagres... Pronto! Foi uma correria só. 
Ele todo vexado, pede a Deus que retire dele aquele dom"infernal". Agoniado, deita no chão daquela Igreja simples de dar dó e chora, copiosamente, clamando, clamando... "_ Não quero ser milagroso! Não quero ser bispo! Perdoai-me Nosso Senhor, mas nem sequer quero ser santo!... Quero apenas salvar minha alma, nada mais..." 
De repente o clarão que saía do coração do padre (e que diziam ser milagroso), "cresceu, fuzilou como um corisco e se apagou." O padre morreu. E tão miúdo era o padre, que um homem só o carregava... Raquel não diz o nome do padrezinho, mas tem jeito de ser Francisco... 
Lembrei dessa crônica, porque esse Papa eleito, parece simples sim. Tomava até ônibus, vejam... E me pareceu "pouco" feliz. Sei lá, angustiado por ter se tornado Papa... Coisa tão "difícil" na minha cabeça... Voltei da lembrança da crônica e de minha especulação "pueril" sobre Papados e minha mãe me convidava: "vem Soli, vem ver o novo Papa (sou Espírita...). 
Levantei-me, lavei o rosto, despachei minha filha para o colégio (Ifba) e fiz companhia para minha mãe... 
Na memória, a crônica não deixava esquecer de produzir os planos e planejamentos (sou professora). No coração, a vontade de que esse Francisco seja tão Francisco, mas TANTO! Que chegue a lembrar todos os Chicos que amo! 

Solineide Maria
19-03-2013

domingo, 17 de março de 2013

Pausa (da palavra) para um café...


Essa tarde vazia é muito cheia.
Tem mensagens que não canso de ouvir...
A palavra quieta...
Esperando minhas mãos?

Nem de perto e nem de longe me sorri.
Está séria a palavra. 
Olha-me sem riso.
Aproximo-me e ela pede um tempo.

Tomo banho. Olho a esquina,
Volto logo.
Ela ainda descansa.
Não quer ser escrita.
Pede que me aquiete.

Fico meio vexada, 
queria desabafar minhas andanças
da semana, das noites de insônia.
Do pouco que entendo...
Das quase vitórias despontando...

Da solidão imensa,
mesmo entre muitos na dança
da vida humana.

Ela riu.
Pediu-me um café e esclareceu:
Às vezes é melhor escrever nada.
Nada de nada...
Às vezes é melhor silenciar.
Maturar as ideias, fechar os olhos...
Tomar um café...

Solineide Maria
(agorinha)

terça-feira, 12 de março de 2013

Para Simone

Olha Simone como o dia é bonito!
Abre as asinhas feito passarinhos
que saem pela primeira vez
dos seus recantos.

Parece uma flor que nada sabe,
além de oferecer doce amizade
em forma de perfume
e de beleza!

É um presente Divino a Natureza,
a árvore cercada pelas rosas,
a mão da menininha de uniforme
atada no vestido da mamãe...

O sono do menino noutro colo maternal,
a voz da vida abrindo novo dia
nova oportunidade matinal.

Para Simone Paulino

sábado, 2 de março de 2013

O Cansaço

Não vou mentir. O cansaço me esperou na cadeira do quarto (que pede arrumação e móveis para guardar livros e sapatos). Constato meu pescoço dolorido e as pernas, parecem imensas, de tão pesadas (tenho 1.54...). O cansaço me olhou e riu como só os patifes conseguem. Disse que estava me esperando. Eu imaginava que o cansaço fosse feio, cinza, esquelético ou MUITO abatido... Nada disso... Ele tem uma aparência de galã. E suas roupas são alvas e lisas e bonitas... Perguntou-me com ironia: dormiu bem? E soltou uma gargalhada que até agora me irrita. Depois sumiu pela janela da sala. Mas continuou em minhas pernas, ombros e um pouquinho o sinto, na alma... 

Solineide Maria

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Papa parou. Por que não posso parar?

Pois... Se até o Papa pediu para parar...
Por que eu,
que não tenho poder nenhum,
"vestido nobre" nenhum,
avião que me leve pra longe nenhum,
carro blindado nenhum,
cadeira banhada a ouro nenhuma.

Por que não posso?
Eu,
... que apenas arranho a língua portuguesa
e acho que entendo quando falam
em língua espanhola...
(Ele... Dizem... Sabe mais de cinco idiomas).

Acho que não paro,
nem peço para parar,
porque não teria aquela "casinha"
recôndita,
lindinha,
"silenciosinha"...
Para ficar...

Solineide Maria

NUDEZ

Hoje estou nua.
Sem palavra que mate a sede,
a fome,
o calor,
o frio.
Poema para hoje

Estou nua...
Sem palavras que
adornem,
... enfeitem,
acariciem,
animem
minha fundamentação
não teórica da vida.

Insisto por vários motivos:
pagar contas que adquiro,
que adquiri e que não adquiri
nesta vida...

Insisto por ter parido...
Por ter amado
ou confundido...

Nua. NUA!
Estou nuíssima!
Sem palavras que valham a pena
serem usadas...

Queria ter seis anos
vestir aquele vestido amarelo,
ir para a Missa com minha mãe...
Achava tão bonito o cálice,
os panos da mesa,
as palavras...

Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

Podia sentir a mão de Cristo segurando a minha.
Minha mãe não via, ela conversava com tia Catarina.
Ela não ouvia que eu perguntava para Ele:
"como é que você aguenta essa coroa de espinhos"...
Ele não respondia nada...
Seguia caminhando segurando minha mão.

Estou nua... nua... nua... nua... nua...
Queria segurar na mão de Dele novo
e ir pela rua.