quinta-feira, 11 de julho de 2019

A SERRALHARIA (saudade se corta com rebarbadora)

O barulho de uma serralharia aqui perto tem me trazido a infância.
É que nos meus tempos de criança até a idade de 14 anos mais ou menos, existia uma serralharia perto da casa dos meus pais. O  barulho nunca me incomodou naquela época, ele chegava na casa dos meus pais tendo percorrido algumas ruas (umas doze ruas por aí).
Hoje, depois de estar a ouvir esse som há alguns dias e ficar contente com a memória afetiva que ele me traz, li uma reportagem sobre o incômodo de morar muito perto de uma serralharia. A cidadã, na reportagem, diz que precisam isolar as paredes daquele lugar (da serralharia), que fica quase ao lado de sua casa. Fiquei tocada com a situação dela. Até senti constrangimento, porque para mim o barulho dos canos a serem partidos, dos ferros a serem moldados e da solda a funcionar como "cola" em restauração de peças de carro e outros, conforta-me meus dias, onde há um Oceano de distância entre eu e minha mãe, meu pai, minha filha, minha família biológica inteira e alguns amigos.
Ainda mais constrangida me senti quando li que a senhora da reportagem está a sofrer de dores de cabeça. E vejam, eu, depois que comecei a rememorar minha infância com o barulho da serralharia, sinto que umas dores de cabeça muito intensas que vinha sentindo, diminuíram um pouco.
A serralharia daqui (endereço em Luanda) também fica distante algumas ruas de onde moro. Não havia pensado nos vizinhos daquela época antes de ler a reportagem que vos assinalo. E na época de infante, muito menos entendia sobre os incômodos que barulheira que a serralharia fazia poderia causar aos vizinhos.
Lembrei dos dois lados de todas as histórias, recordei as duas faces de uma moeda, fiquei pensando naqueles que votaram e nos que não votaram naquele candidato... O lado feliz e o lado triste, o lado bom e o lado ruim, os finais felizes e tristes.
Fiquei lembrando do entremeio de uma narrativa, aquele interdito que a Literatura informa e me senti até culpada por estar a me fazer bem o que tem feito mal à cozinheira aposentada Rosilene.
Porém, para que seja menos rígida com minha alegria lúdica, quero informar que essa serralharia, a que me refaz as imagens da infância feliz que tive, fica distante de casas residenciais. Está cercada por uma plantação de mandioca, mamão, tomate, jiló, maracujá e hortaliças, que Dona Zaila colhe para zungar.
Assim, vou me deitar sem culpa de estar alegre com o barulho da serralharia vizinha que tanto tem me ajudado contra o ferro da saudade, quando me recorda a infância, minha mãe, meu pai, minha família biológica, meus vizinhos, meu bairro. Que tanto tem colaborado contra minhas ferrenhas cefaléias matinais, quando corta, serra ou dobra os ferros para o ganha pão de oito funcionários.

Solineide Maria

domingo, 30 de junho de 2019

Bohemian Rhapsody

Ainda não tinha assistido, mas a mim não me pareceu um filme, nem um documentário, nem uma biografia. Também não me parceu uma história contada com os tão conhecidos: início, meio e fim.
Chegou em mim como uma emoção desfigurada, um amor contido até a exaustão, uma greve da alegria mesmo com milhões no bolso.
Trata da vida de um jovem homem que conhece outros dois jovens homens e calha de ser no dia exato de se conhecerem e dá tão certo que se tornam a Banda Queen.
No meio e na superfície e onde mais haja espaço na "narrativa" baseada em fatos reais sobre Fred Mercury e os Queen, existem outras narrativas. Há a narrativa da família e de toda a intimidade que uma família, toda família, qualquer família deveria ter uns com os outros (como seria normal acontecer nas famílias). Há a narrativa da busca por uma família que entenda (e até aceite) as perfeições imperfeitas que pode acontecer de existir em qualquer criatura humana. Há a fragilidade dos corações das pessoas mais amadas que descampam por caminhos perigosos. Há a narrativa da solidão que traga o poeta, o escritor, o compositor, o artista quando "não segura a onda". Há a dor de ver um ente querido seu se envolver com drogas.
Também está na "película" a imensa dor da solidão de todos os que contraíram Aids na década de 80... Dá uma imensa tristeza assistir que estamos vivendo "dias tão desleais" no que diz repeito a questões tão sérias, como por exemplo essa questão da segregação de pessoas, em pleno 2019... Quem é homem afinal? Aquele que diz que não gosta de homem ou aquele que fere, que escarnia e mata o homem?
É uma história que rememora muitas histórias reais e que pode estar acontecendo agora. Mas saber que se trata da história de uma pessoa que via na TV e ouvia no rádio, torna tudo muito particular, embora seja público. Lembra os palhaços solitários a fazerem o público rir, enquanto intimamente se despedaçam. É "Bohemian Rhapsody" .

Solineide Maria de Oliveira do P. Rodrigues

domingo, 28 de abril de 2019

De discursos frios e comidas quentes (Canções para Flora voltando)

Gosto de ouvir sua voz,
de ouvir seu violão,
gosto de olhar suas mãos
magras,
veias,
unhas,
palmas,
tintas.

Gosto de não ser
escutada,
e repetir
mil vezes a mesma palavra.
Daí você pergunta
pela milésima vez:
"O que você disse mãe"?

"Esqueci"...
Sempre esqueci (ço)
o que ia dizer
pra você.
Porque, talvez,
nunca tenha sido
enfática.

Meu discurso sempre
frouxo,
fraco,
fino (de tísico).

Fino de fraco,
falho,
fosco.

Nunca consegui um discurso cheio,
embasado,
psicanalítico,
sociocrítico,
empostado...

Gosto de quando cozinha
panqueca,
pipoca,
bolo,
massa.
Gosto muito
de quando faz
misto quente diferente.

Minha comida sempre
a mesma,
sem sal,
sem peso,
sem assinatura.
A sua sempre cheia de
identidade.

Saudade.
Saudade.
Saudade.

(Solineide Maria - para minha filha Flora maria - Do livro, na gaveta, Canções para Flora voltando - Luanda, 28/04/19)


Eleição 2018 (no Brasil)

No dia seguinte
todo mundo acordou
em um de Abril de 1964.

(Solineide Maria - Luanda, 28/04/2019)

De madrugada (Canções para Flora voltando)

Aqui sozinha
acompanhada de lembranças,
mãos tão pequenas,
pele suave e
uma estrela no sorriso.
Uma lua nos olhos
minguante...
De onde você veio?
Silêncio.

Espelho pra nada
esquece e
aquece o seio,
amamenta e
acorda...
Dorme,
esgota a possibilidade
de entendimento.
Ressona,
acorda
sonolenta.
De onde você é?
Pra onde a gente vai?

Escreve,
rasga,
joga fora.
Você é tão bonita,
descansa.

(Luanda, 28/04/19 - para minha filha Flora.
Solineide Maria)

sábado, 27 de abril de 2019

Dois sonhos e um pesadelo

Tive um sonho estranho
maluco feito agenda
que a gente escreve
e não cumpre.
Sonhei que era assim
tipo
uma aprendiz de  bruxaria
e que um lobo me via
e queria me pegar.
A ideia que me dava era
a de flutuar.
Tomei um líquido lá
feito assim meio às pressas
e tomei de um gole só.
Realmente flutuava,
era uma espécie de
levitação forçada.
O lobo não desistia,
saltava alto
e rosnava,
até cuspia de bravo.
Foi quando dei um impulso
naquela levitação
e caí num morro alto,
uma espécie de montanha.
Caí em cheio num tronco
desses de cortarem lenha.
Suspirei aliviada,
mas não deu
para um descanso.
Um homem viu
aquela cena,
eu surgindo assim,
do nada,
certamente estranhou.
Pensando que era
uma espécie de
bruxa, fantasma
ou danação,
endereçou o machado
ao meu peito.
Num gesto desesperado
botei as mãos na cabeça
e chamei por  Deus,
Nosso Senhor,
Anjos, Santos, Arcanjos.
Chamei por São Bento,
São Tomé,
Roguei pelos
Irmãos da Luz,
tudo isso
num triz de segundo.
Foi quando dei noutro sonho.
Fui salva assim
pelo gongo!
No outro sonho estava
numa espécie de labirinto
que desembocava
numa escada.
A escada tinha degraus
num piso muito liso,
muito escorregadio,
todo cuidado era pouco.
Consegui descer com calma,
mas no fim havia
um lugar que deveria passar,
mas as cabeças das pessoas
deveriam caber naquele
espaço,
A escada desembocava
num estreito espaço
pensado por um
engenheiro enlouquecido...
Confiante em Deus e
Nossa Senhora da Cabeça
enfiei minha cabeça
naquele espaço exíguo.
Graças a Deus que deu certo,
desemboquei numa sala
onde todas as pessoas
esperavam ser chamadas.
Uma placa avisava
que era Sala de Entrevista.
Pensei assim meio calma,
deve ser para emprego.
A Entrevista era para
distinguir entre os presentes
quem tinha lido uns títulos
de uma lista cuja
o questionador indicava.
Lá estavam muitos títulos,
livros de uma vida toda.
Livros grandes,
livros imensos,
livros de rara extensão.
Livros que salvariam vidas,
livros que ofertariam pão,
o pão da palavra humanidade,
o pão da palavra paz,
o pão da palavra fraternidade,
o pão da palavra amor.
etc, etc, etc.
Lembrei-me logo de Sócrates...
Depois lembrei de Dulce,
a Irmã que aos treze anos
lia para os doentes na rua...
Lembrei de Jesus;
"No mundo tereis aflições"...
Antes de ser inquirida
novamente,
aquele homem uniformizado,
com a cara muito endurecida
disse que estava demorando
de responder.
Foi quando então confessei
que não sabia o que fazer
com aquele papel riscado.
"Doutor Polícia, nunca
aprendi a ler".
Como estava suja e desalinhada
vinda daquele sonho medonho,
onde um lobo me perseguiu
e um lenhador quase me parte
ao meio,
o polícia acreditou.
Disse assim num tom
muito debochado:
"Deixa essa infeliz pra lá
não sabe ler, é pobre e
é feia. Vai morrer de inutilidade".
KKKKKKK
Gargalhou o cão feroz.
Dos três sonhos terríveis
dessa noite,
o que posso considerar pesadelo
é o que narrei por último.
Os outros dois
foram pura fantasia.

(Solineide Maria, Luanda 28/04/2019)



A SERRALHARIA (saudade se corta com rebarbadora)

O barulho de uma serralharia aqui perto tem me trazido a infância. É que nos meus tempos de criança até a idade de 14 anos mais ou menos, ...