terça-feira, 18 de setembro de 2018

AS VIAGENS



(Este é um texto sobre lancha, sobre barquinho de papel, sobre saudades, sobre sala de aula, sobre ser professor-pesquisador na época em que não existia Internet, mas sobretudo sobre as boas lembranças das viagens com a professora de Geografia Rita Carvalhal no CEI - Colégio Estadual de Itabuna, sem sair daquela sala de aula tão simples.)

Lancha é bacana, mas prefiro barco de madeira ou barquinho de papel. Em verdade, prefiro aquele barquinho de papel que a gente fazia quando em criança, ele levava a gente por muitos lugares, por imensas águas para além bairro…
Aquele barquinho podia tudo porque era nosso barquinho de papel e tínhamos uns seis, sete anos, apenas… Foi com ele que fui à Ilha de Itaparica.
Depois ouvi falar das Ilhas míticas do Atlântico, mas já não era criança e por isso meu barquinho de papel nada mais poderia fazer por mim se quisesse encontrá-la.
Muito tempo depois conheci Rita Carvalhal, professora de Geografia que me contou (à turma toda) sobre outras Ilhas. Disse que havia um lugar chamado Ilhota, em Santa Catarina, disse que Ilhéus era uma ilha e que no princípio ou inicialmente deram-lhe o nome de “São Jorge dos Ilheos”.
A professora Rita Carvalhal narrava como contadora de histórias. Eu adorava suas aulas… Narrou que Ilhéus pertencia à Ilha de Tinharé pois antes existiam as Capitanias e que Jorge Amado morou em Ilhéus, mas havia nascido em Buerarema e que, na época do nascimento do escritor, Buerarema pertencia à Itabuna que ainda se chamava Tabocas.
A professora Rita Carvalhal contava-me muitas novidades do passado (à classe toda). Eu ficava deslumbrada como ela guardava aquelas informações todas na cabeça e em alguns pedaços de giz.
Às vezes, trazia para a sala de aula umas cartolinas com mapas desenhados por ela para nos dar maior dimensão do que nos ministrava em suas aulas. Outros mapas eram comprados (dinheiro dela) numa livraria chamada “Livraria Brasília”, que até hoje (2018) existe e fica no idêntico endereço de quando era estudante do atual Ensino Médio, antes denominado Segundo Grau.
Às vezes ficava imaginando essa livraria, porque naquele tempo livro era como se fosse um automóvel de tão caro. Penso que ainda seja caro. Hoje equivale a uma máquina de fazer café expresso, acho… Porém, que seja lembrado, livro é caro para quem mora nas beiradas da cidade, para quem é pobre mesmo, para quem ganha salário mínimo, para aqueles cuja renda não passa de 900 reais (que soube daqui que querem extirpar esse direito). Ou compra o bojão para o fogão cozinhar o feijão ou compra o livro…  Não sei quando surgiu o “Sebo”, mas em Itabuna apareceu tarde. Já tinha mais de 15 anos de idade… enfim…
Carvalhal também levava uns livros grandes, eram os chamados Atlas, professora Rita sempre se esmerava para nos amparar nas viagens (aulas).
Tenho tanto amor por ela… Fico triste por nunca ter lhe dito, mas acredito que ela via nos meus olhos atentos e viajadores em todas as suas aulas de Geografia.
Gostava da risada dela, parecia a risada de Irene que Caetano narra em sua música. Caetano me foi apresentado por Sueli Arcanjo. Sueli era estudante de Filosofia na FESPI que hoje é UESC universidade onde graduei-me em Letras e reencontrei Rita Carvalhal num Seminário. Ela lembrou o meu nome… Fiquei tão lisonjeada. Havia ido comprar um café no Seu Lelê estava conversando com Agildo. Ela olhou para trás e exclamou: “Solineide, é você”?! Abraçamo-nos.
Quando Rita Carvalhal não foi mais minha professora, dei a usar ainda mais o barco da palavra, porque as aulas de Geografia nunca mais foram as mesmas. Isso eu declarei para ela, explicando porque havia escolhido Letras, daí ela deu sua risada.

Luanda, 18 de Setembro de 2018.
(Solineide Maria)

domingo, 16 de setembro de 2018

MESMO POR 5 MINUTOS…

Hoje eu tive um sonho estranho
tipo sem sentido.
Acordava e não via pela casa
objetos que já fazem parte de nossa rotina:
o seu chinelo verdíssimo e gasto
encostado ao meu,
sua fotografia sorridente comigo ali,
aquele livro do Rilke “Cartas a um jovem poeta”.

 Fui ao banheiro pensando
 “é coisa de minha cabeça...
São esses dias difíceis
quando a pressão aumenta"...
Mas me olhei no espelho
 e logo lembrei de tudo.

Nesse momento chorei
feito criança sozinha e presa,
gritei seu nome mil vezes
quase estourei minha veia.
Lembrei que foi uma coisa torta que eu disse
que disparou discussão,
numa hora banal,
acho que foi lá na sala.
Você saiu para o quarto
calada e triste...
Não dei importância maior e terminei o filme.
Quando fui ter com você
foi quando então me disparou
um tiro de escopeta
direto no coração!

Lembrei que eu só repetia:

REFRÃO
Fique
Não vá, não vá, não vá, não vá, não vá.
Fique por favor!
Mesmo por cinco minutos
não vou aturar tua ausência.
Vou ser um cara perdido
um monstro sem cabeça,
uma foto sem sentido,
presença triste nas mesas,
vou ser relógio parado,
uma viciado em tristeza...

 REFRÃO

Não vá, não vá, não vá, não vá, não vá.
Por favor fique
queira me escutar,
quero ouvir sua voz mesmo num verso triste.
Quero sentir sua presença
nos quatro cantos da casa

 REFRÃO
Fique por favor!
Não vá, não vá, não vá, não vá, não vá.
Mesmo por cinco minutos não suportaria!
Quero ouvir seu chinelo se aproximando 
e você calçada nele para perguntar
uma coisa assim à toa,
ou para declamar
um poema seu novinho.

Autoria: Solineide Maria de Oliveira do Patrocínio Rodrigues (também conhecida como Sol, Soli e Solineide Maria)


Tive um sonho lindo essa madrugada 17/09/2018. Ouvia esse poema meu cantado na voz de Zeca Baleiro. Tenho o ritmo dos refrões na cabeça até agora... Sonho lindo.
No show, tipo muito intimista, o cantor e compositor Zeca Baleiro cantava a música e contava que havia recebido essa letra de uma fã. Narrava como havia se dado o processo de composição da música na letra e de como se espantou com algumas coincidências (que não revelou).
Ele dizia da emoção de ler cada verso como se fossem versos escritos por ele. 
Falou do susto e da emoção dos três refrões, que é coisa rara hoje em dia. 
Explicou que faz tempo que, em geral, as canções possuem apenas um refrão, isso quando não se trata apenas de uma música-refrão (depois sorriu). 
O cantor e compositor disse que ficou mais espantado ainda quando viu que a canção cravava em 5 minutos exatos. 
E pensou que se tratava de coisas da metafísica existencial (sorriu) porque ele pensou em mudar o título da música, tinha achado até um pouco infantil e tal, mas adorou tudo o mais. Daí que só podia ser mesmo "Mesmo por 5 minutos". 
Terminava dizendo: "Mas enfim Sol, vamos nos emocionar de novo?"
Nesse momento começava a tocar o violão e indicava o nome da música: "Mesmo por 5 minutos".

sábado, 15 de setembro de 2018

Água justa, água salgada.

Tem luz que nasce do mar. Teve tristeza no mar... Ele serviu de caminho para navios assombrosos... Tem Festa de Iemanjá, tem paz agradecimento. O mar é amplo de amor, mas pode virar guerreiro, quando a agonia é grande, mataram metade de seus habitantes... Mesmo assim ele nos deixa passar a mão em suas águas, acalmar nossas tristezas, contar-lhe nossos segredos de amar e mal amar... De ter medo de homofóbicos presidenciáveis... De ter assombro de candidato racista de negro e de pobre... É triste? É mais que assombroso? Daqui desse lado do Oceano Atlântico, fico a conversar com Deus, com todos os Santos, com Iemanjá, com Nectuno, pedindo ajuda para tudo acabar bem. Chega de magoar o povo brasileiro. (Autoria: Solineide Maria)

"O mar tem areia,a Terra tem ciência, mas lá no céu tem Deus, que dá toda a providência"

Também o mar tem redes
 são invisíveis,
 graças a Deus.
 Salvam a gente de afogamentos
 e adeuses.

O mar trás de volta,
 leva o que não é positivo.
Mas o mar chorou durante séculos 
o desastre da navegação de navios
de criaturas horrendas,
 eles vendiam irmãos para escravizar.

O mar encheu tanto, tanto,
que um dia tudo isso acabou.
 Mas acabou no mar...

Porque tem uns aí (lado Brasil do Oceano Atlântico)
que são a favor da volta da escravidão,
 do uso de arma de fogo,
 de abate de irmão que gosta de gente.

O mar começou observando
a transgressão desse pessoal...
 Desses pensamentos obscuros,
 dessa situação. O mar sabe tudo...
Do lado Luanda do Oceano Atlântico
 também eu,
sei um pouco...

"O mar tem areia,a Terra tem ciência, mas lá nos céus tem Deus, que dá toda a providência". (Solineide Maria)

domingo, 9 de setembro de 2018

Amo Clarice Lispector.

Ela me representa tanto. Tem uma entrevista dela que revejo sempre. Concordo tanto col ela... choro... sorrio com essa entrevista.
Ela diz assim: "o adulto é triste e solitário ". É.
Mas é uma constatação,  não  é dor. Nem vitimização.
Amo Clarice Lispector.
A criança,  ela diz, "tem a fantasia ".
Ela dá uma pista, diz que o adulto,  o ser humano vai se transformando em triste e solitário  "à qualquer momento da vida, basta um choque um pouco inesperado e isso acontece".
No entanto,  ela lembra para o repórter que tem muitos amigos e que naquele dia ela "só estava cansada".
Clarice assume que "quando não escreve está meio morta".
Clarice Lispector, sinto saudades muitas suas.
Autoria: Solineide Maria.
Luanda,  09 de Setembro de 2018.

De certas dores...

Tem dor que não se conta porque ninguém entende. (Solineide)