quarta-feira, 27 de abril de 2011

Gente não é gente... (PARA MINHA MÃE)

Não tem sentido este mundo
Tudo o que há são interpretações
Do que seria um
Sentido qualquer.

Estes sentidos todos
Reunidos,
Não daria um sentido
Interessante.

É tudo tão mesquinho,
Tão poucamente instruído
Para algo maior
Menos panorâmicas.

Dona Bizé tava certa:
Gente não é gente comadre!
Esbravejada na mesa
Tomando café.

Eu, ainda pequena,
Achava aquilo uma tonteira.
Velha mais besta (pensava)
Essa dona Bizé.
 
Fui crescendo e a visita
De Dona Bizé sumiu.
Morreu, acho.
Não sei dia, nem ano.

Minha mãe ficou repetindo
A sandice de Dona Bizé
De vez em quando:
Fia, Gente não é gente...

Que bobajada meu Deus
Agora é minha mãe.
Vive repetindo essa
Tonteira, daquela velha abestada.

A família já não era mais
Aquele monte de criança no terreiro,
Eu crescendo
Todos se afastando...

Gente é assim,
Afasta-se uns dos outros
Quando cresce...
Desleixa de amar, eu acho...

Minha irmã mais querida
Morreu afogada na cisterna.
Comecei a sentir
Dores de gente grande.

Comecei a entender
Que às vezes a gente sofre,
Que às vezes quer morrer,
Que às vezes quer sumir...

Tudo assim de uma vez só
Às vezes, a gente sente.
Coisa doida não é?
Sei lá!

E as gentes que eu gostava
Tudo mudando.
O mais velho,
Virou um homem calado...

O outro,
Um homem distante...
Meu pai, meu Deus, esquecido...
Minha mãe morreu tão nova...

Eu aí fui entender,
O ditado da velha Bizé:
Gente não é gente
Ela sim que estava certa.

Ela já entendia que o mundo,
Sentido mesmo
Não tem.
A gente que cria.

E nem é lá “o sentido”...
E gente, é tudo um monte
De coisas muito
Misteriosas...

Às vezes nem são
Gente.
Como acertou velha Bizé.
Às vezes tem gente porta...

Gente que não existe
Mesmo que passe por nós,
E que ande e
Que estude...

Tem muita gente que parece
Existir.
Outras nem se dão ao trabalho
Da falsa aparência de ser gente.
 
Coisa esquisita este mundo.
Tem gente que nem tem
Como eu descrever.
Será que pode, ser gente e não ser?

Nossa Senhora rogue por essa gente,
Que acha que é gente,
Que pensa que pensa,
Que se diz admirável.

Este mundo é uma piada...
Parece mesmo que existe,
Mas é ilusão de ser.
Mundo mesmo é outra coisa.

Parece que sei alguma coisa.
Qual nada.
Queria saber. Nem sei...
Será? Sei lá!


Solineide Maria
Na verdade, a história foi minha mãe quem viveu (e me contou).
Parabéns mainha! Obrigada por tudo!

“Cinco da tarde”


Boa hora para sonhar.

terça-feira, 19 de abril de 2011

PARA ABRAÇAR MINHA SAUDADE...


Solineide foi uma alegria em minha carreira e em minha vida. Sua presença suave, doce, curiosa e corajosa inspirou muitos momentos difíceis para mim. Desde a primeira Teoria, sua presença foi poética: essa moça linda, pequenininha por fora e imensa por dentro, sabe escrever como poucos. E tem um mundo afetivo tão intenso, que às vezes ele se derrama em palavras. E que palavras! Sol sabe brincar com elas de verdade. Sol é toda ela poesia. É o mar que leva lembranças, é a luz da manhã, a sombra da noite... Não sou poeta, não sei traduzir Solineide e sua poesia em palavras. Mas sei dizer que essa "Mocinha" torna o mundo melhor quando escreve! Feliz eu sou por conhecê-la e por ler seus poemas!

Patrícia Kátia da Costa Pina
Professora Titular de Literatura Brasileira, UNEB, Campus XX, Brumado

A enxurrada de gente escoa para o metrô



A enxurrada de gente escoa para o metrô. Cada pessoa uma gotícula carregando seus sacos de medo, de angústia, indecisão e esperança. Mas esperança é bicho frágil...
A enxurrada de esperança escoa para o metrô, desce os degraus, entra nas frestas que as levam para lugares diferentes. Cada gota vai prum canto. Assim sozinhas, dispersadas, perdem o encantamento e a força. Cada gotícula separada, não diferencia nada, tornam-se coisas egoístas, pensam apenas em regar suas plantações de sonhos, querem um rio inteirinho para si, não olham a gota de esperança vizinha: desidratando.
Gotinhas separadas não sopesam, não compartilham. No entanto, reflitamos: juntas, elas compartilham? Naquela embarcação moderna, elas compartilham? Compartilham as frestas, ou estão ali porque estão, e pronto? Sabem de seus medos e angústias e alegrias e esperanças. Sabem dessa carga individual, sacola de medos e do mais?
Perde a graça aquela enxurrada, quando escoam para lugares ímpares. Então, a inutilidade da multidão em que se transformam, deixa uma dúvida pertinente, que atravessa o meu (nosso) dia: Seriam enxurrada de esperança, ou de egoísmo?
A enxurrada tem força que nunca saboreou, não do jeito mais sublime, dar e receber amor. Nisso vem e vão-se os dias, anos, séculos... E a enxurrada sem coragem de amar, de ser amada, de compartilhar suas fraquezas e fortalezas tornando-se argamassa forte. Compreende pouca coisa, apesar de antiga e gasta...
Há, no entanto, o dia em que essa enxurrada descobrirá não a força que ela tem, mas a força que não sabe aproveitar. Há de chegar o dia de essa enxurrada escoar para lugares dispersos, mas com a força multiplicada.
Há de chegar o dia de essa enxurrada compreender, que gotinha separada não carece ser gotinha egoísta e quando notar a gotinha vizinha, desidratando ─ doar um pouco de si: água-esperança das boas, porque água-esperança doada é de melhor qualidade.
Esse dia há de chegar, porque repetir história tem limite. Amor é que não cansa, e amor, não é história repetida, embora seja história incompreendida.
Nesse dia, as gotinhas não precisarão de embarcação. Terão comum entendimento, por isso, saberão sozinhas (embora não egoisticamente) seguir por frestas e vincos, levando sossego, porque o terão de sobra, mas, sobretudo solidariedade. Sopesando a vida, regando onde já exista, e encharcando tudo de paz, de amor e humanidade.

Início em São Paulo no ano de 2003. Término em Itabuna, 23-08-2010

AULA SOBRE O ROMANTISMO (1836 - 2011)

Tenho que dar uma aula sobre Romantismo.
E o mundo virando de ponta a cabeça...
O romantismo pequeno, vigiando o próximo louco.
O próximo louco – pode estar bem próximo...

O Romantismo (da aula) me olhando e se rindo.
Fale as datas, sobre Byron,
Depois deixa a voz bem calma:
Segue indo.

O coração em dúvida sobre se resume ou não.
O Romantismo é imenso!
O meu romantismo – além de baixinho é fanho.
O Romantismo tem o charme do início de século 19.

Meu romantismo se esgueira,
Para sobreviver ao caos da contemporaneidade.
Saudade.
O Romantismo inventivo, sensível, criativo!

O Romantismo era o próprio amor romântico.
Esse – que trago - resgatando,
Reinventando fórmulas
Para sentir o amor romântico.

Tenho que dar uma aula sobre Romantismo.
E o mundo tão anti-romântico...
O Romantismo se rindo me olha e diz:
Esquece o mundo atual e estuda menina!

A AULA FOI HOJE. E não fui tão bem assim...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Falem de outra coisa - POR FAVOR!

Falem de outra coisa
POR FAVOR!

Não quero mais, não queremos!
Guardem seus vídeos,
porcarias do terror!
Não queremos ter acesso 
a vídeos,
nem cartas,
nem nada mais que fale do horror!

Emanem outra energia
POR FAVOR!

BETE - PARTE NÃO SEI MAIS QUAL...

Sabe como é. As coisas esfriam. Tudo esfria...
Bete disfarçava, mas estava triste - namoro é isso mesmo Bete (dizia Lígia). Bete não ouvia mais nada. Estava sem nada pra falar, sem nada pra pensar, só pensava nele - na frieza dele.
O café estava bom, mas a alma estava fria, feito quando a gente não quer ver e nem ouvir. Contou sobre seu medo de dar as aulas que preparou, e Lígia, sorrindo lhe disse: "conta outra Bete". "Você está pronta até para lecionar na universidade". 
Bete sabia que não estava pronta. Sabia que nunca estaria pronta, mas na verdade, ensinar exige "incompletude". Paulo Freire disse que seremos sempre seres incompletos, ou teria sido Sartre. Nietzsche?! Ah! Sei lá...
O café acabou rápido demais e a fé de Bete estava morna, feito quando a gente esquece a água na bacia. Lígia sorriu de um menino gay que passou reclamando do namorado, e disse para Bete: "viu, não é só você Bete, que sente as coisas esfriarem". Bete não sorriu, ao contrário, chorou igual criança com medo da vida.
Um dia de cão a coitada da Bete teve, mas é a vida que bate feito no poema do Ferreira Gullar. Às vezes bate mais forte, como hoje, porque Bete não estava bem desde cedo, quando não foi atendida no médico. Depois, quando não soube o que dizer para a atendente do lugar onde se preenche a carteira de passes estudantis... Ai, ai de Bete...
O mundo está maluco demais para os sensíveis e Bete, coitada, ainda acredita no amor entre duas pessoas. Ela não entende que  o verdadeiro amor não esfria, nem muda. Ela não quer acreditar que o verdadeiro amor melhora e cresce. Mas Bete acredita que a vida pode ser mais, feito na música do Lulu... Bete é tão pueril... E tão romântica, igual aquela música do Caetano...

APOCALIPSE DO AMOR

Queria escrever tanta coisa.
Um poema, uma canção (talvez de afeto),
Mas a situação está difícil,
Tanta doidice humana, meu amor...


É quase sobre-humano,
É sub-humano,
É infra-humano...
Não há como descrever.


A escola inteira morreu
Em treze vidas...
É tanta coisa,
E nada pra dizer.


São tempos difíceis.
“É o Apocalipse” – minha mãe desabafou...
É. Concordo...
É o Apocalipse do Amor.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Um dia brincarei com você

Um dia brincarei com você
de três marias, cabra-cega,
pega-pega...
Na casa onde morarmos.

No futuro,
seremos mãe e filha.
Para sempre: o futuro
nos reserva.

Agora não.
Estou triste a beça...
Não entendi sua pressa.
Não entendo.

No futuro, desejo ser água,
sol, pastagens...
Esses elementos que não choram.
Essses elementos que não se despedem...

Agora não... estou triste a beça.
Olhando pra você que não chegou.
Que mal veio e foi embora...
Agora não...

Mas amarei pra sempre nossa história,
e no futuro, quando nos reencontrarmos,
quero brincar demais de esconde-esconde;
só para lhe encontrar a todo instante.

Para Carol...
Um enorme abraço - que possa atenuar (um pouco) sua tristeza...
Com amor!
Sol

sexta-feira, 1 de abril de 2011

PARA AGILDO

Nosso plano (aqui neste planeta)
é viver, ser feliz...
No entanto, nem sempre acontece
do modo que se desenha na matriz.


Quando estamos pequenos é que é bom...
Mãe por perto, ensinando a diretriz.
Acolhendo e amparando na tristeza,
abraçando e curando a cicatriz...


Mas crescemos e vamos entortando
o caminho da gente (às vezes não).
Mas crescemos e pouco a pouco vamos
ao encontro da Dona sem coração.


Todos vamos um dia...
Muito embora, deixamos no peito
de alguém, saudade dolorosa.
É sempre assim.


Então não se sabe se foi hora,
se atravessamos a tão dolorida hora,
ou se fora de hora ninguém vai.
Quando somos pequenos é que é bom...