quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Mestre (de obras)

O homem constrói uma casa do outro lado da rua.
É mestre de obras.
Disse que pegou o serviço por empreitada, quer ser disciplinado e acabar no prazo: "ganhar nota dez"! Fala e mostra o sorriso vazio dos banguelas...
Ofereço um café (mania de pobre solícito) e ele acata o carinho ofertado.
Diz que me vê no computador todos os dias (a janela da cozinha dá para a laje da casa onde ele trabalha).
Ele pergunta: "você é professora?" Consinto com a cabeça.
Ele diz que não teve força para estudar. Eu investigo o que seria isso.
Ele diz que não aguentava trabalhar durante o dia e ir para a escola no turno noturno. "Muita canseira"; acrescentou...
Contou que tinha uns professores que não estavam nem aí para ele (e para outros alunos).
Perguntei o que seria esse "nem aí". Ele respondeu: "eles não sabiam quem eu era, nem quando estava presente, nem quando estava ausente." 
"Se tivesse tido apoio, seria professor"... Continua, com voz um pouco triste.
Eu o olho com pena e alegria.
Alegria por saber que ele teria ido muito mais em frente, que poderia ter chegado ao Ensino Médio, passado por ele, talvez. Poderia ter chegado até uma universidade pública sim.
Alegria por perceber que ele poderia construir sua casa íntima do saber. Alegria de vislumbrar, mesmo num momento rápido, seu sorriso (com dentes) por ter chegado mais rapidamente ao Conhecimento...
Volto do meu sonho instantâneo e sinto pena.
Pena por perceber que ele crê que em sendo professor, teria menos cimento em suas mãos... Menos pedras em suas mãos... Menos ferro em suas mãos... Mais consolo em suas mãos... Mais reconhecimento em suas mãos... Mais dinheiro em suas mãos...

Solineide Maria



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