quarta-feira, 4 de novembro de 2015

DE CHUVAS

Quando chove, 
parece, 
a minha alma exulta ao Senhor, 
e as ansiedades viram 
gotículas que se esgotam de cansadas. 
De cansadas? 
Sim. 
De cansadas de chover. 
De cair. 
De procurar rio... 
Nascedouro... 
Está tão difícil encontrar nascedouro. 
Quando chove, 
parece, 
também há uma intensidade nos meus 
batimentos cardíacos. 
Alguém perde o barraco, 
tão cheio de tudo o que era seu. 
Aquele barraco cheio de nada 
de tudo o que era seu. 
Quando chove, 
parece, 
chovo... 



Autoria: SOLINEIDE MARIA DE OLIVEIRA DO PATROCÍNIO (Luanda-agora-aqui)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

NASCIMENTO SEM CHORO

Minha primeira filha
nasceu sem chorar.
O médico me olhou,
olhou para a enfeira e disse:
"o  que houve, um bebê educado"?

Deu tapinha na bunda pequena,
tapou o nariz,
Perguntou para mim
já meio preocupado:
"posso dar um beliscãozinho"?
Acenei que sim.
Nada...

Comecei à chorar.
Talvez para que o choro
dela viesse...
Chorei mais e mais,
mas a enfermeira me sedou...

Quando acordei,
passava da meia noite,
oito horas depois...
fui visitá-la
na encubadora.
A enfermeira me disse
"olha mãe, ela chorou muito quando
lhe puseram as agulhas nas mãos
e pés", (soro).

Fiquei meia hora a vê-la
através do vidro.
Mas olha, é tanto amor
que atravessei o vidro e
pude pegá-la nos braços...
Depois voltei para o quarto.

Minutos depois,
trouxeram-na para mim,
para amamentá-la.
Ela me olhou e disse:
"oi mãe, estou com fome".
Não chorou.

No entanto,
faminta,
quase engasgou...
Eu,
toda contente de ter peito
pequeno
e leite farto,
dei a quantidade
que a pequena filhota quis...

Deletei-me com aquele dar leite.
E ela, de tão farta,
voltou a dormir.

mãe Solineide
filha Flora 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

PROFESSOR

Mas é como disse ontem com um amigo-eterno, "a sala de aula é o mundo todo"...
Temos que nos educar diariamente. Educar o filho, a filha, o nosso amigo, o esposo, a esposa, o colega de quarto, a colega de quarto... O cobrador de ônibus.
Muitas vezes somos educados pelo cobrador de ônibus. Vários deles ainda nos dão bom dia, como a que solicitar nossa educação que, por vários itinerários, esvai-se pelos bancos de espera de ônibus mequetrefes que nos levarão para escolas longínquas e desprovidas de material para aprimorar as aulas...
No entanto, quando se consegue um Diploma com louvor para ser professor, de fato e de direito, ah... Isso é que é que muito bacana! Mesmo quando lhe expressam aquele sorriso amarelo a inquirir: "Ah... você fez Letras"?... "Ah... ela se formou em Pedagogia"? "Você sabia que fulano se formou em História"?...
Mesmo quando somos "apagados" da vida daqueles por quem passamos um dia... Porque estaremos lá, naquele ser, no histórico de aprendizado dele.
Mesmo quando somos aqueles seres que explicamos sobre leituras, leitores, ledores, escritores, escrituras, escreveduras... Textos que se espalham pela vida afora e adentro e não notamos muitos olhinhos pirilampos...
Estão lá fora... Lá fora no celular ou outro aparato tecnológico os quais ainda não sabem para que servem... Ou serviriam,,,
E aí cabe ao professor lhes dizer: "ei homo-mídia, esses aparatos não lhes farão ter conhecimento se não souberem o que fazer com eles".
Mesmo quando batem em nós, nas passeatas e até nos matam de vergonha quando recebemos o contra-cheque... Que é CONTRA toda e qualquer possibilidade de vida um pouco melhor alimentada, um pouco melhor vestida, um pouco melhor maquiada. Se for homem, um pouco melhor calçada (porque sapato masculino é muito caro...)
Mesmo com todas as impossibilidades e desrespeitos, ser professor é maior. Cabe no coração e a gente arranja mais um, mais dois... Três... "Amanhã saio dessa escola que não me paga... Mas tem o Semestre para findar... No final do Semestre eu saio"...
Ser professor é mesmo uma espécie de "bichinho que pega" como dizia Rubem Alves...
Mas o professor "MESMO" deve, como Freire ensinou, mais perguntar do que responder. Não que ele não saiba a resposta, é que é preciso adestrar o pensamento. Colocar a cabeça para funcionar, "matutar" até encontrar, talvez, outra pergunta. E que genial! Outra pergunta! GENIAL!
Ser professor é isso. Ir por aí afora...
Por aí a fora...
Adentro...
Ah... Dentro! Quando o professor consegue chegar adentro do outro, puxa! Que emoção! Sublime alegria verificar nos olhos do outro o entendimento, o acréscimo no brilho do olhar daquele outro (que foi um dia o professor quando infante).
Que Deus abençoe nossa caminhada e "caminhadura" na Educação.
E sim! Um dia, todas as Pátrias serão dignas de se dizerem Pátrias Educadas e terão professores dignamente respeitados, em todos os sentidos.
Parabéns professor!
Parabéns professores, professoras, estudantes de Licenciaturas que os levarão à muitas salas de aula, algumas quase "sem teto e sem chão", mas com gente. E é essa a nossa função, manusear o Ser, prestar para fazê-lo enxergar-se maior, mais. Ser amoroso, sobretudo e não se envergonhar de dizer para ninguém que é professor!
Solineide Maria de Oliveira do Patrocínio Rodrigues.
Professora
(Língua Portuguesa. Língua espanhola. Literatura Brasileira e Portuguesa. Nível Intermediário I - II - Especializada)
Poetisa
Escritora
Sonhadora
DEDICO ESTE TEXTO AOS MEUS PROFESSORES TODOS, DESDE A ESCOLINHA GASPARZINHO, ONDE FIQUEI, APENAS 1 MÊS, PARA APRIMORAR A LEITURA QUE MINHA MÃE HAVIA ENSINADO EM CASA (MINHA MÃE ESTUDOU ATÉ A SEGUNDA SÉRIE DA DÉCADA DE 30 NA ZONA RURAL).
DEDICO AOS PROFESSORES DA ESCOLA AGRUPADA OZANAM (SOBRETUDO, CELESTE...).
DEDICO AOS PROFESSORES DA UESC. TODOS! TODOS!
AOS PROFESSORES DA PÓS.
E DEDICO AOS MEUS AMIGOS PROFESSORES E PROFESSORAS. TODOS E TODAS!
Eliuse Silva, Janaína Soares Alves, Sandra Carneiro, Tiane Oliveira, Peter Turton, Isaias Carvalho, Patricia Pina, Claudia Lanis, Odilon Pinto, JORGE CLINIO, Andresito Miti, Inara De Oliveira Rodrigues, Jaciara Santos, TODOS E TODAS!
Para minha Turma de 2007-2011 Uesc...
Para Agildo, meu amigo-irmão, que enviou um e-mail emocionante, parabenizando-me pela profissão que forjamos juntos, anos a fio... e que  escreveu dentre outras lindas palavras:
"o futuro, mais do que nas mãos dos outros, está em nossas mãos. Cada pedacinho do futuro para cotidianamente pelas nossas mãos. Quando os alunos conseguem seus lugares no mundo,nós também estamos lá, mesmo quando eles nos apagaram ou só destaquem a presença de um professor, na verdade estamos todos lá. Mas há algo que não precisamos que nos deem, nem que temamos que nos tirem, pois é nosso e conquistamos com muito custo: a consciência" (AGILDO OLIVEIRA - Professor doutorando em Linguística na Usp.

Solineide Maria de Oliveira do Patrocínio Rodrigues
Professora (Língua Portuguesa. Língua espanhola. Literatura Brasileira e Portuguesa. Nível Intermediário I - II - Especializada)
Poetisa
Escritora
Sonhadora

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

CARTA PARA ALICE

Alice...
me ensina esse olhar. Essa postura de mulher fina. Esse silêncio tão cheio de falas. Alice, vamos tomar um café? Hoje à tarde? Pode ser? Você me ensinando a calar e eu lhe ensinando nada, que é o que o ser humano sabe ensinar de melhor.
(solineide maria de Oliveira do Patrocício)


A MÁGOA

A mágoa é artimanha inconsciente para que você não evolua. 
Não dê amparo a este tipo sentimento, aliás ela não deveria ter o direito de se chamar sentimento. 
A mágoa é veneno secular; destrói muitos corações e tem força maior que a de um abraço sincero transbordante de amor.
Cuidado irmãos... Não a alimente, pois ela é falso argumento contra o perdão. 
Não adote este leme de mentira, para navegar nas águas que devem ser as de sua evolução. 

Alaor (meu amado amigo espiritual - amado, muito amado)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A FELICIDADE EXIGE SUA PRESENÇA...

Uma vez sendo feliz, 
seja feliz.
Não olhe para trás, 
nem carregue nada 
do passado 
com você. 
SIGA. 
Porque se não fizer assim, 
a felicidade lhe parecerá, 
sempre, 
menos do que se lhe apresenta... 

De Solineide m. de O. do P. Rodrigues

NASCIMENTO DO AMOR

No dia em que o amor nasceu,
olhou sem jeito para o mundo
(este...)
e descobriu que não sabia nada...
Nada de nada sobre aqueles seres...
Mas lhes amou de tal modo,
que não se importou com nenhum
 mal
que lhes fariam ou fizessem
(e fizeram...).
No dia em que o amor nasceu,
ficou dependurado
 de compaixão,
fixou suas mãos cheias de luz
nas bordas do coração daqueles seres...
Homens? "Que coisa é homem"?
Depois, depois dormiu...
Para sonhar com outras criaturas,
mais leves e melhores...
Até hoje espera o momento
 EXATO de acordar.
E esse dia está próximo...

(autora: Solineide M. de Oliveira. do P. Rodrigues)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Pequena carta para mainha

Luanda, 11 de Setembro de 2015.

Minha mainha,
magrinha... pequena... Enorme!

Uma moça ficou estupefata como sou baixinha... magrinha...
Ela não sabe que vim de uma mulher igualmente baixinha, magrinha e cheia de vitalidade aos 80...
Ela pensou que eu fosse altíssima, com seios e bundas enormes. A mulher do Rio em toda sua extensão. 
Quase sorri mainha...
Não sou mulher balão, quase digo para ela. Sou mulher bexiga. Tem que soprar, tem que ir soprando, até eu aparecer cheia do que já tenho de bom em mim para ofertar!
Mainha, tem dias que sinto uma saudade de nossas resenhas... Você dizendo que não lhe entendo, que nunca lhe entendo... rs
E a gente vê, de longe, que sempre nos entendemos. Sempre nos amamos. Sempre nos tivemos, uma à outra... 
Vi você hoje num sonho. Estava rezando o terço e me deu um beijo na testa... Esse terço que reza e essa expressão de pessoa frágil, mas GIGANTE, acredito que herdei. O terço não rezo como faz, com a disciplina dos grandes espíritos, mas tenho essa miudeza grande sabe... Acho...
Sabe mainha, todos os cafés do mundo não são iguais aos seus. Nenhum café se compara ao seu. E não tem ninguém que cozinhe aquela carne de panela que faz.
Vou escrevendo devagar sobre a saudade que sinto de você, mas nunca se esqueça: estamos ligadas para sempre.
(assinado: Duduzinha)



Recado para Flora

Minha filha,
apegue-se à Poesia do Planeta e nunca à falta de poesia dele. Porque em verdade, a falta de Poesia do Planeta é falta de poesia na gente... Ame-se. Ame e amanheça sempre para o lado ensolarado do dia, mesmo que esteja chovendo... Porque o sol mora detrás das águas... E eles se amam.(assinado: mamãe)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Pedido para Jesus

Ajuda-nos 
oh Jesus,
a sermos mais LUZ
do que CRUZ
no caminho 
de nós mesmos
e de nossos próximos.

Solineide Oliveira Patrocínio






A dor é a adolescência do amor.
(Alaor)

ENCONTRO DE CORPOS

Meu corpo, coitado, 
fica pensando que pode tudo 
e esquece que há nele mesmo
um outro corpo... 

Um 
que precisa de alimentos leves: 
flor, 
canto de quero-quero, 
sol poente, 
água de ribeirão, 
terra vermelha,
terra preta, terra... 

Meu corpo, 
às vezes, 
sente tais necessidades também, 
mas é danado esse corpo físico... 
ele pede: 
carne, 
pão, 
pedra, 
massa, 
café... 

Ai ai desse corpo... 
 Um dia vão se entender, 
já o sinto... 
Eles já estão a se entender... 
Um já espera pelo outro 
no minuto do êxtase... 

Um já entende o outro no excesso de bebida (café). 
Os dois encontram-se à noite 
 e debatem sobre mudanças benéficas 
para ambos. 

Um dorme e o outro, 
acordado, estuda e aprende. 

Às vezes, apenas estuda... 
Mas já adianta alguma coisa... 
Esses corpos estão quase unidos. 
Graças a Deus!

Solineide Oliveira Patrocínio

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Reflexões além atlânticas...

Estou olhando para dentro de mim,
para sair de lá,
novinha em folha.
Quem sabe de túnica nova...
Quem sabe...

Solineide Oliveira Patrocínio

Vida


Imbondeiro


A MEDIDA INJUSTA

Algumas das pessoas mais altas da história da humanidade tinham estatura mediana ou, muitas vezes, eram quase pigmeus.

Os maiores líderes da paz e, até, os maiores líderes da guerra, (que provocaram os maiores horrores da história humana), não eram pessoas de ampla estatura.
Para citar alguns exemplos, comecemos por Teresa de Calcutá. Essa mulher, que foi afetada sem proporção, pela misericórdia a seus irmãos, tinha 1.55 de estatura, mas provou (sem necessidade de fazê-lo) que sua alma não tinha medida... A história da humanidade (da HUMANIDADE em ação), nunca seria a mesma, se não fosse à presença maiúscula dessa criatura mignon no planeta.
Nero era um homem baixinho. E infelizmente, “doidinho”... Mas apesar de sua doidice, oriunda de uma vaidade desenfreada, teve nas mãos, muito poder, isso durante um tempo extenso da História.
Ghandi, “além” de baixinho era magro. Sua magreza tinha a ver com a disciplina alimentar que mantinha (ou falta de alimentos para uma alimentação adequada...). No entanto, a despeito (apesar?) dessas duas características (que para a maior parte das pessoas, simbolizaria fragilidade), venceu a batalha de um povo, usando um material, igualmente frágil, segundo os humanos mais pueris: usando o “material frágil” das palavras.
Irmã Dulce era muito baixinha... Poeticamente baixinha... Levemente baixinha... EXTRAORDINARIAMENTE baixinha (tal qual Teresa de Calcutá). Essa mulher baiana, com toda sua “baixisse” ergueu, a partir de “doações baixíssimas” (raramente altas...) um hospital para os pobres de tudo em Salvador. Dizem que não se alimentava bem, que comia, tão-somente, uma maçã no horário do almoço, ou uma banana, ou mesmo, durante dias, “somente” alimentava-se de prece.
Chico Xavier era homem de estatura apoucada também. Médium desde sempre, sofreu na pele e na alma, golpes gigantes da vida. Porém, alheio a qualquer um deles, seguiu, sendo um enorme baixinho amoroso. Não se faz necessário narrar o que fez, além de ter engrandecido com muito carinho a alma de muitos encarnados e elevado o espírito de muitos desencarnados.
Incidiria citar o nome de muitas baixinhas e muitos baixinhos nesta narrativa. Em todas as áreas da história humana: nas artes, na vida religiosa, na esfera da educação, no campo da psicologia, no ambiente da medicina...
Enfim, baixinhos extremamente altos em suas ações e em toda a extensão de suas encarnações edificaram uma história que não se pode diminuir, porque foram escritas com a estatura do amor.
Medir alguém a partir de sua dimensão física, então, seria no mínimo, besteira. Sobretudo se for lembrado de que os maiores construtores do planeta são pequenos seres, aos quais lhes deram o nome de bactérias, vermes, micro-organismos... São esses seres, quase insignificantes em estatura, que construíram e constroem diariamente (e que, se quiserem, também podem destruir...) tudo o que se conhece.
De maneira que não se faz possível entender por qual razão alguém pense em medir o valor de outra pessoa a partir de uma medida tão falha: a estatura física. Porque já se tem inúmeras marcas de que as aparências, de fato, enganam...
É necessário erradicar, urgentemente, essa medida injusta e não mais se impactar por causa do talhe de alguém, caso meça “apenas” um metro e cinquenta e um e, “ainda assim”, tenha altas qualidades.

Solineide Oliveira Rodrigues
(26/08/2015)


ELE

Ele me abraça, concatena minhas ideias
Afaga meus anseios e desventuras...
Sorri quando há falta em minha face,
“desdiz” o que me deixa muito triste.

Ele me acalma, me adormece,
“afabiliza”...
Diz com carinho que me entende
e até concorda...
Ele me mima, de modo que, me enaltece.

Quando me sento, e ele, quente... me dá carinho...
E me aquece e me atiça e me apazigua...
Desconsidero melancolia e outras coisinhas...
Esqueço ser tão ansiosa, vezes, por lhufas...

Se ele não existisse, o inventaria,
Graças aos Incas, graças a Deus,
graças aos Maias
Por terem preparado essa alegria...
Viva meu CAFÉ de todo dia.


Solineide Oliveira Rodrigues

terça-feira, 4 de agosto de 2015

EU SABIA QUE ERA POESIA... Sabia que Tu fostes o Pai da (verdadeira) Poesia...

Quando Ele falou
elegeu o lírico...
Inspirado Trovador,
Ele,
a Poesia em si,
ensinou em versos.

Em versos,
enlevou os mais sensíveis,
àqueles que sabia serem simples,
mas apenas no Status
daquela época.

Em versos divulgou o Amor,
discorreu sobre a arte
de amar,
ensinou a luz da vida
em pleno movimento
e fez de tudo
para seus irmãos sedentos,
tomarem daquela água
de entendimento.

Ah Divino Mestre... eu sabia!
Sabia que eras a Poesia em si!
Sabia que Tuas palavras,
para permanecerem
eternamente
tinham brotado da fonte linda
do coração infinito
do Dicionário do Amor.

O Amor,
que é poesia em movimento,
que enfeita até o mais
melancólico momento,
que altera a tristeza em alegria,
que faz dia
uma noite em tormento.

Eu sabia...
sabia que sendo Mestre,
Tu só podias ser poeta.
Que sendo Luz,
só podias ser poesia,
que sendo a imensidão
da alma do Planeta,
Filho de Deus,
voluntário pela paz
de todos os seus irmãos
mais novos...
trazias a própria Poesia,
na pele dos vocábulos.

Na ressonância de tua voz
as palavra se faziam
ecoar,
para toda a eternidade:
tornando-se clarins
da Caridade.

Quando usou a prosa,
em narrativa:
foi para discorrer
em Parábolas educativas,
àqueles que tinham outro
entendimento.
Mas nem por isso,
abandonou a Poesia.

Jesus
doce Irmão,
Abnegado benfeitor
Incansável Trovador
da paz e do Amor,
Bendigo Teu nome
Tua existência.
E rogo
Tua eterna clemência
por estarmos, ainda, assim,
apesar de tanto ensinado
por Ti.

Mas como Poeta que És
sei que em teu coração
a crença na absolvição
é maior do que a da punição.

Por isso,
me ofereço para ser
aquilo que possa fazer
florescer
alguma flor ressequida,
alguma alma caída,
alguma terra sem vida...

Amigo,
Poeta e Mestre,
rogo:
Faz com que minhas palavras
tenham alguma
utilidade para mim,
mas ainda mais,
para meus irmãos.

E que a humildade seja
presente em meu coração
de Ser crescente.
Porque sem humildade
Meu Irmão,
como ensinaste,
"descolore e silencia
qualquer boa intenção"

Para Jesus Cristo.
Com muito Amor.

poema de sua irmã,
Solineide Oliveira Rodrigues.
(certamente muito inspirada pelos poetinhas do Astral)

Dedico a Natanael, Claudionor, Alenon, Alaor, Catarina, Terezinha, Maria Dolores, Auta de Sousa, Maria João de Deus e todos os poetas do Astral.
Dedico à minha filha Flora Duarte​, ao meu amado Rafael Rodrigues​, minha irmã generosa Neide Maria Oliveira​ aos amigos-irmãos do Meditação e Caridade,
Dedico à todos nós, amigos "facebookianos" ou não. 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A AMIZADE É UM TEXTO DE ALTA QUALIDADE

A vida é misericordiosa e agracia a todos com muita beleza, mas é preciso estar com o adestramento do olhar (inclusive da alma) em dia. Porque a rotina desgasta a retina dos olhos da alma e, se não se toma cuidado, a beleza que a vida nos oferta, passa a ser escondida pela poeira densa do dia a dia raso dos acontecimentos medianos do cotidiano.
A amizade é uma beleza da vida. É um texto de alta qualidade... E se prestarmos atenção, um amigo é, mais ou menos, um coach particular (que atende gratuitamente).
O amigo lhe dá toques e dicas, sugere, silencia. E, além disso, ouve. Hoje em dia, sobretudo, ouvir tem se tornado um verbo de difícil reconhecimento. Parece que todos querem falar, falar, falar...
Ouvir tem se tornado atividade rara. E é impressionante como quase todas as pessoas parecem especialistas em quase tudo. Um sabe tudo sobre culinária, outro sabe tudo sobre literatura, muitos sabem tudo sobre todas as coisas... E isso é triste. Porque não saber é maior.
Não saber é que inicia o papo mais salutar. Porque se você diz que sabe e o outro também diz que sabe... Uma pena, mas o assunto é abortado.
E se por acaso, você diz que sabe além daquilo que o outro informa sobre um tema, prepare-se para o bombardeio no olhar. Tem amigo que briga porque a disputa se tornou quase natural, até, entre amigos.
Isso tem a ver com os sintomas colaterais da existência do Google...  Muitas pessoas acabaram se tornando uns chatos, porque pensam que informação é cultura. E, pasme, pensam que educação é informação... E, mais grave, pensam que o Google sabe tudo.
Lá no início do texto, falei sobre amizade. E disse que se trata de uma das belezas da vida. E relacionei o amigo a uma espécie de coach. Repito.
A ideia dessa escrita nasceu de uma conversa com um amigo, um Google particular. Discorremos sobre o frio, a chuva, o metrô, a pressa mal educada dos moradores das grandes cidades, música - mais especialmente Marisa Monte- e sobre literatura (claro!).
Não houve competição no diálogo. O diálogo todo foi uma coesão de notícias e de textos. Todos eles interligados. Todos eles construtores de outros textos, que surgiam aos poucos, com medida, mas não comedidos. A amizade é, também, isso: coser textos que viabilizam entendimentos íntimos, que possam acrescentar e que, sobretudo, consigam aquecer a alma contra o frio da incompreensão pessoal e/ou de outros.
O bom amigo é aquele que ouve atentamente, inclusive, o que você já disse milhões de vezes. Ele não se abespinha e não lhe apressa e, não diz que você foi repetitivo. Ele pula o fato, parte para o próximo assunto, mesmo que o próximo assunto surja ali, naquele momento.
Assim, a amizade pode ser considerada um texto escrito a quatro mãos. E um texto que se tece diariamente, mesmo que os amigos se encontrem uma vez por ano. Mesmo quando um more no Brasil e outro em Luanda. Mesmo que morem na mesma rua e se encontrem, apenas, duas vezes na semana. Mesmo que se vejam uma vez por mês e ambos morem na mesma cidade. Quantidade, aliás, em questão de amizade, não vale de nada. O que vale, de verdade, na amizade real, é a qualidade dos textos. Sofro da impressão de que a qualidade dos textos influencie todas as relações... De que influencie a vida.
Por isso repito: é preciso estar com o adestramento do olhar (inclusive da alma) em dia. Porque a rotina desgasta a retina dos olhos da alma.

Solineide Maria de Oliveira do Patrocínio Rodrigues
22-07-2015

segunda-feira, 20 de julho de 2015

DESARME SEU CORAÇÃO

Em verdade, em verdade as coisas andam “complexas”... Difícil não sentir a poeira densa que se movimenta em torno dos humanos. No entanto, esse peso é oriundo de nós mesmos: de nossos pensamentos difíceis, desarmônicos e densos.
A corrupção é uma das grandes causas desse clima, o sexo desequilibrado, a ganância por poder ou qualquer outro tipo de matéria.
Quem é calmo, injustamente é tido como “mole”, quem é bom, é apelidado de “trouxa”, porque tem que ser apressado, tem que sair correndo na frente, tem que passar na dianteira de todos (mesmo na escada rolante). Tem que ser espertalhão...
Falando nisso, hoje vi alguém tomar uma escada rolante. E, na leitura simples dos que leem “frerianamente”, não é difícil perceber que, quando se toma a esteira rolante, subentende-se que você quer ir devagar, ou quer descansar um pouco as pernas, quando toma uma escada rolante. Fica claro, que você está sem muita pressa, quer se deter ali, um pouco, seja lá por qual razão seja.
Porém, os mais “rápidos” podem ser cruéis com você. Podem lhe dar aquele típico empurrão silencioso, aquele, que segura em sua cintura e diz com falta de fraternidade: “licença”. Mas essa licença é inválida, porque o empurrão mascarado denuncia a falta de educação. O empurrão que mascara a palavra licença, escorrida pelos dentes cerrados, é que fica. Porque está na cara que essa postura é típica de uma identificação grosseira, de quem já se habituou a ser rude.
Em verdade, em verdade, mantemos uma relação doentia com o lobo que há em nós e não adianta falar mal do corrupto que rouba zilhões, porque sua descortesia é corrupção para a alma poética do Planeta que já indicou várias vezes que já não aguenta mais nossas descortesias.
Fica claro que a corrida pelo sucesso, que sugere ser sempre no setor financeiro, é apostada pela maioria. Essa mesma maioria que pede licença com dentes cerrados e baba escorrendo, essa mesma maioria que “indiferencia” qualquer noção de carência, essa mesma maioria que maldiz o corrupto e faz carteirinha de ônibus com endereço fraudado...
Precisamos nos tornar mais leves, mais harmônicos, mais completos e não mais complexos... O Planeta agradece.

Solineide Maria de Oliveira do Patrocínio Rodrigues - 20 de Julho de 2015.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

CARTA PARA MEU AMOR

Amor,

Já se vão alguns meses de Casamento amor... A maior parte deles estamos assim, você de lá e eu daqui. No entanto, estou mais perto do que antes, do que sempre, do que nunca...
E sinto sua presença em todos os momentos do dia:
quando sai para o trabalho e quando retorna; com a alegria de quem vem com o melhor peixe do mar, para conceber o jantar.
Alegro-me quando voltas do "mar da vida"... sinto-me a mulher mais agraciada do Mundo e percebo em cada fala sua, a doce expressão de querer dizer:
"senti sua falta, meu amor".
É bom ouvi-lo, também, quando se cala. Dá para ouvir você e seus pensamentos, se quiser. No entanto, sei que precisamos todos, do silêncio falante de nosso íntimo. O diálogo essencial conosco.
Nesses momentos me afasto para perto de mim e também converso com minhas idiossincrasias. É preciso fazer companhia também; porque a escalada, apesar de bem acompanhada, se dá individualmente.
Já se vão alguns meses amor, mas saiba que lhe oferto todos os anos que tenho para viver, nessa união de amor e para o amor; do Bem e para o Bem.
Te amo meu amor e marido.

Solineide Maria de Oliveira do Patrocínio Rodrigues
17-07-2015
Para Jorge Rodrigues (meu amor e marido)

FILME DE AMOR NA RODOVIÁRIA


Ele abraçou Isaura e disse em tom melancólico:
"Eu sei que você vai demorar, mas não demore". 
Rapidamente me propus a assistir de perto aquele filme de despedida na Rodoviária.
Ela, com cabelos num coque sem pretensão de ser charmoso (o cabelo estava penteado e pronto), olhava para ele com olhos de criança vendo pela primeira vez, o mar.
Os dois estavam casados há muito tempo, dava pra notar pela intimidade no diálogo. 
Quando ele fazia uma pergunta, prontamente ela respondia e já com resposta para mais duas perguntas que o marido ainda estava pensando em verbalizá-las.
Ele, homem rural, ou, de profissão rústica, ou de profissão artesã... A denúncia vinha a partir das mãos, em duas unhas ausentes e a grossura da pele da palma de ambas. Deu para percebê-las quando abraçou Isaura, meio envergonhado do público grande (Rodoviária...). No entanto, a abraçou muito forte e longamente. Ela lhe disse com voz embargada:
"Você sabe que te amo ne"?
Ele alisou os cabelos da amada de longas datas e beijou-lhe a fronte.
"Avia Isaura, avia! O ônibus vai arrancar"... Foi quando aquele homem bradou, despistando o olhar umedecido.
Carregou as malas e uma caixa até o ônibus, rapidamente. Como rapidamente procurou o olhar de Isaura e se aproximou, pedindo que não esquecesse das recomendações que fez para todos.
"Abrace o coração de Lindaura. Diga que Deus leva todo mundo. E que todo mundo viaja de vez... um dia"...
Isaura assentiu com a cabeça e lhe abraçou:
"Até a volta meu véio". Isaura chorou...
Quando chegou até a porta, antes de Isaura subir os degraus do ônibus, o amado lhe deu R$ 5,00 e falou que era para um café ou para o banheiro, numa parada.
Dito isso, beijou as mãos de Isaura e confessou:
"Sempre soube que você me ama. Também eu... E eu sei que você vai demorar, mas não demore muito".
Quanta palavra dita em poucas palavras... e gestos imensos...
O amor pode estar a passar num filme de amor na Rodoviária. É só prestar atenção...


Solineide Maria de Oliveira do Patrocínio Rodrigues
Junho de 2015.
Rodoviária de Salvador.
(DEDICO A MEU AMOR E MARIDO
JORGE RAFAEL RODRIGUES)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

REITOR ELETRÔNICO

Ilustríssimo Reitor

Venho através desta, proferir algumas palavras. Mesmo desconfiando de que não conseguirei alcançar o Senhor... Pois que, ao que parece, Vossa Excelência está muito “automatizada”. E eu, Ilustríssimo, com todo respeito, não possuo essa disposição: ser eletrônica, ser um Ser autômato.

A Educação passou por períodos de grandes transformações. Isso, óbvio, a partir de muita luta de seres “pensantes” e autônomos. Essas transformações necessitaram de coisas contrárias ao que trava o pensamento. 
Tais alterações precisaram Senhor Reitor, da liberdade e da autonomia daquelas pessoas que, por serem fomentadoras do pensar, construtoras de teorias em favor da Educação, alicerces de modificações do “ato do pensar”, necessitaram.
O que nos difere, a nós humanos, dos seres todos do Planeta Terra, diz-se, é o pensamento. E atrelado a este, o livre arbítrio: podemos escolher. O Senhor sabia disso não Senhor Reitor?
Temos, nós os humanos, o importante dom de pensar; e de pensar sobre o pensar! Então o Senhor imagine, o quanto isso é majorado com relação àquele que lida com a Educação, de modo mais íntimo: o professor.
O Brasil já teve alguns grandes ditadores. Mas isso faz algum tempo, foi na época da Ditadura. Hoje, depois de algumas décadas de Democracia, não deveríamos excitar a construção de novos ditadores. Até por que, estamos numa DEMOCRACIA.

Não quero falar sobre o tema Democracia (embora isso tudo a fira duramente). Não. Porque esta, já está constituída.
Pode ser que estejamos sob o jugo de um simulacro de uma Democracia fragilizada, mas tal tópico é penoso demais para ser debatido junto a esse outro tão deprimente (opinião pessoal) do Ponto Eletrônico para professores de um órgão federal... Ou de qualquer outro órgão onde se fomente o pensar.
O Senhor é professor?
O Senhor já ministrou aulas?
O Senhor sabe que a construção de pensamento não bate cartão?
O Senhor sabia que a Escola nasceu LIVRE, debaixo de árvores, com os filósofos? E que os filósofos não batiam cartão?
Pois já imaginou? Se o tivessem feito, a Nova Escola não teria seu advento.

O Senhor já se imaginou tendo que correr contra o tempo de 50 minutos de uma aula (tempo acuradíssimo) e em seguida correr para outra sala e em tempo igual ministrar outra aula e apressadamente bater o cartão para só depois parar para pensar nos Planos e Planejamentos e posteriormente corrigir provas organizar novos textos novas produções aulas de campo com o CAPATAZ Ponto Eletrônico a perseguir o relógio do professor? (As vírgulas não foram usadas propositadamente).

Nunca imaginei que isso ocorreria: Ponto Eletrônico para professor. Jamais...
Talvez a liberdade do pensamento seja mesmo muito frágil, a ponto de ter que se submeter a bater cartão.
Talvez, Senhor Reitor, deveríamos todos desistir de vez de pensar, porque o tempo corre apressado demais e não poderia nos esperar...

Estamos muito atrasados em questões que já deveriam estar encerradas, tal como esta: o desrespeito à construção do pensamento de cidadãos pensantes, autônomos, livres para se conceberem ainda mais livres e maiores do que seus mestres. 
Para, a partir daí, conseguirem construir uma SOCIEDADE onde o retrocesso não a visite mais, emperrando em pontos e cartões um futuro melhor. Ou menos abjeta que este presente travado...

Lembra-se do filme “Tempos Modernos”? O filme narra a história de um trabalhador de linha de produção de uma fábrica que simplesmente enlouquece porque é obrigado a viver uma realidade completamente automatizada. Assista Senhor Reitor. É um belo clássico de Charles Chaplin: o Senhor já deve ter ouvido falar (o inventor do Cinema mudo).
Note Senhor Reitor, o filme expõe a história de um “trabalhador da linha de produção de uma fábrica”. Ele, supostamente, deveria estar “acostumado” à automatização de sua função, mas ainda assim, enlouquece.
O Senhor então imagine o que aconteceria com o professor... Que lida com gente... Seres humanos... O professor, este que seria um dos principais elementos para a construção de cidadãos pensantes, autônomos e livres, Senhor Reitor...

Afligiu-me imenso, saber que tal Instituição tem um Reitor Eletrônico e que este, está disposto a “eletronizar” os professores...
O que será dos nossos filhos? Cidadãos eletrônicos? Resultado de uma Educação Eletrônica?
O Senhor sabia que a EaD está revendo o que pode ser feito para “humanizar” o seu modo de lidar com o aluno que se insere no Mundo Virtual, através dos milhões de Cursos que já são disponibilizados em todo o Mundo?
Como encerro meu texto Senhor Reitor?:
Bato cartão? Ou continência?

Solineide Maria de Oliveira do Patrocínio Rodrigues

(Mãe de aluna de uma Instituição de Ensino que almeja adotar o Ponto Eletrônico).

segunda-feira, 2 de março de 2015

FAÇA-SE ENTENDER

Uma sentença não entendida e/ou malposta gera grave problema de interpretação. E se a falta de diálogo se instala é perigoso que o Sr. Mal Entendido, um moço muito sem caráter, desenvolva nas partes afetadas o sintoma da tristeza. Tristeza em não ter sido entendido, tristeza por não se fazer entender e, por último, por não querer mais nem saber...Por isso que a linguagem deve ser usada para se fazer entender e não o contrário.

Solineide Maria

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

LUANDA E LEITURA (Dedico esta crônica, especialmente aos meus padrinhos de casamento civil: Marisa e Flávio Couto)


Andar por Luanda é ter certeza que nada se sabe... Não se entende muita coisa, isso, claro, se você for “de fora”.  Ser “de fora” no sentido de ser estrangeiro.
Há um disco de Caetano, chamado O estrangeiro (que amo!), onde se pode encontrar uma canção que intitula a obra, a qual narra sobre um estrangeiro falando sobre as coisas do Brasil. No caso específico da canção, o estrangeiro “fala mal” da Baía de Guanabara.
Caetano responderia ao ilustre estrangeiro, esse homem “de fora”, perguntando a ele (o “de fora”) sobre o que seria uma coisa bela.
Não é preciso dizer que o poeta, músico, escritor, “coache”, intelectual (em minha opinião) Caetano, surpreende em mais uma extraordinária composição. E nos dá um banho de beleza!
Andei, ontem, por Luanda, ouvindo essa canção em meus ouvidos espirituais. Porque é mesmo assim como se lê na música: “o que é uma coisa bela”?
Enxerguei muitas coisas belas em minha caminhada... E surpreendeu-me entender, ao menos um pouco, os motivos da seriedade da mulher mais velha. A mulher mais velha aqui, respeitosamente, é chamada de “mamã”. E uma senhora dessas, explicou-me que seu nome (Seça – pedi que ela soletrasse como se escreve) era para se referir ao dia da semana em que nasceu (ela nasceu numa sexta-feira).
“O africano, antes, quase sempre, oferecia o nome do dia da semana à criança, minha filha”; a mamã me explicou. E encerrou seu esclarecimento dizendo que “antigamente era mais comum”.
Em meus ouvidos espirituais, primeiro, soou poético. Depois soou Divino... Mas afinal, poesia e coisa Divina, para mim, é a mesma coisa.
Quando lhe revelei meu nome ela sorriu. Também sorri. Ela disse que meu nome era estranho e perguntou o significado. Respondi que até hoje não sabia. Ela disse: “então é um mistério”. Pensei comigo: que riqueza de olhar poético dessa mulher... E lhe disse que nunca havia pensado desse modo. Prudentemente ela asseverou: “é preciso ter história entende? O nome precisa ter uma história”...
Percebi, enquanto caminhava, que conseguia ler (depois de alguns dias por cá), alguma coisa de Luanda...
E para conseguir ler Luanda, tenho tido um auxílio enorme daquela que se fez minha madrinha da leitura em Angola. Marisa, que também se fez minha madrinha de casamento civil, tem me surpreendido positivamente. Todas as vezes que visito a casa de meus padrinhos, saio com dois ou três títulos para ler. Dentre os títulos que minha madrinha emprestou-me, estão dois do autor Moçambicano Mia Couto. O segundo título é "O último voo do Flamingo" (devo dizer que o livro pertence a meu padrinho Flávio...rs)
Já conhecia Mia Couto, mas ter acesso aos seus pensamentos perto dos lugares que ele escreve em seus textos dá a sensação de que não somos tão “de fora” assim...
O título “E se Obama fosse africano” me deixou mais de uma semana impactada. Porque Mia Couto consegue escrever sobre coisas sérias, até dolorosas oriundas da cultura do povo africano, de modo poético. Muitas vezes, até, Divino...
Mas é aquela questão: poesia e mistério caminham de mãos dadas. Abraçam-se, beijam-se, deitam-se... E conseguem dizer coisas terríveis, sérias, duras, sem nos ferir mais... Justamente buscando um modo de “fechar” a ferida. Mia Couto, em minha ingênua opinião, faz isso... Ele fecha as feridas, com sua intelectual narrativa poética...
Ainda não comecei a leitura do outro titulo: “O último voo do Flamingo” (que devo rememorar é de meu padrinho Flávio...rs). Estou a encerrar a leitura do livro de poesias de I. D. Cordeiro da Matta, poeta nascido em Ícolo e Bengo (Angola). E ler poesia se faz em vários atos... Mas estou perto de chegar à página em que Da Matta diz seus versos finais ao leitor.
Para me misturar um pouco, estou a ler, concomitante à poesia, o livro de Ondjaki. A vida é uma surpresa... Ano passado, em Itabuna, ministrei aulas com textos seus para alunos de uma entidade onde trabalhei como professora de Produção Textual e Leitura.
Hoje, lendo Odjanki diretamente de onde ele nasceu (Luanda) me dei conta de que tudo pode acontecer... Tudo mesmo... E de que a leitura é um “elo entre meu ir e o do sol” (verso da música O estrangeiro de Caetano). Pode ser nosso elo...
Odjanki conta, em seu romance, a história da atual Luanda, ao mesmo tempo em que narra a história de Odonato, personagem central. Odonato e Luanda estão a se refazer... E a prosa toda de Odjanki é permeada pela... Poesia.
E como pergunta Caetano, em sua poesia, pergunto-me eu: “o que é uma coisa bela”?
Pergunto mais (que ousadia): o que é que se lê como coisa bela? E o que nos outorga o poder de dizer o que é belo e o que não é belo?...
É bom despertar e perceber que “tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu” e de que para ler é preciso ver, é preciso “olhar e ver”. E estou a dizer sobre a leitura de palavras e de mundo (sobre leitura de mundo leia-se Paulo Freire e Bakhtin).
Por isso convido a todos vocês: leiam.
Surpreendam-se com as palavras, com os olhares variados, com as sensações de outros seres, de outras pessoas, que, afinal, podem ser parecidas com as nossas leituras e com os nossos olhares. Ou, de outro modo, podem ser extremamente diferentes, mas isso é maravilhoso também! Porque somos diferentes e ao mesmo tempo, somos um povo só... Isso é poesia, mas também pode ser coisa Divina...

Solineide
O significado de meu nome não sei...(rs) Mas a biografia que carrego é a seguinte:
Primeiro sou filha de Deus, de Dona Regina e Sr. Lourival. Irmã biológica de Selma, Célia, Neide, Sirlene e Solivaldo.
Mãe de Flora Maria e esposa de Jorge Rodrigues.
Afilhada de Batismo de Sr. Ariene e Dona Lia, afilhada de Crisma de Selma, afilhada de Casamento de Marisa e Flávio.
Comadre de Dona Nininha e Sr. Fernando.
Leitora, poetisa, escritora, professora de leitura e produção textual...




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A DOR NÃO TEM FRONTEIRA E NEM COR... PODE SER AFRICANA OU BRAISLEIRA

Nunca soube que amava tanto o Brasil. Tendo nascido e vivido lá mais de 30 anos, não percebia que o meu país estava entranhado em mim. 
As muitas injustiças, em todos os âmbitos que existem: 
educação, saúde e segurança, sobretudo, revelam em nós, brasileiros, uma espécie de sanha pelo país que nos deu berço...
Mas amamos nosso país! É nossa terra, é nosso lar, nossa identidade primeira. 
Hoje, ao acordar e fazer desjejum, antes de começar meu trabalho, para matar a saudade do Brasil, liguei a TV no canal que passa os programas brasileiros. Ana Maria Braga estava recebendo duas mães que perderam suas filhas pequenas, por bala perdida... 
As duas mães choraram muito ao tentar narrar o que aconteceu no dia em que perderam suas filhas... As duas mães solicitaram por Justiça... Ou justiça... Qualquer tipo de acontecimento que diminua a impunidade no país... 
Eram duas mães: uma branca de olhos verdes e a outra negra de olhos pretos. 
Duas pessoas. 
Duas mulheres. 
Duas brasileiras. 
Fiquei pensando na asneira de, ainda hoje, se pensar que cor de pele diz alguma coisa sobre o ser humano... Afinal somos todos da RAÇA HUMANA. Como somos pequenos ainda... 
Sentimento não tem cor... A dor não tem cor. O amor não tem cor, a perda não tem cor. E a saudade dói em qualquer parte do Planeta... Atrás de qualquer Oceano...
Ser mãe de filho morto dói imensamente... Ser mãe de filho envolvido em droga é doloroso... Ser mãe de quem se perdeu pelas vielas da vida é doloroso! 
Aquelas duas mulheres chorando, ao narrar suas histórias, tocaram tão fundo em minha alma, que comecei a chorar e, ao mesmo tempo, agradecer, num feio egoísmo... Explico:
chorei pela dor delas e porque em mim também, suas dores doeram. Mas agradeci por ter filha e esta passar bem, com 17 anos, cercada de amor e apoio enquanto não estou perto de si (perto fisicamente). Aquelas duas mulheres, com vidas distintas, cidadãs e brasileiras me lembraram de que o Brasil necessita de “Homens de Bem” no Poder. 
O Brasil necessita de quem consiga, em tempo, tomar rumo da situação que sugere ter descambado para o caos absoluto nas matérias principais: educação, saúde, segurança. 
Uma das meninas estava dentro de casa, brincando com o pai. A outra estava indo para casa, no colo da mãe que estava ao lado do marido, pai da garotinha. 
Nesse momento a sanha pelo Brasil se apresentou e maldisse minha terra. Mas não é a terra em que nascemos que tem culpa, jamais! São esses aí nos quais votamos e depositamos esperanças tão vivas, quanto leais. 
Esses aí que vão para TV com essas caras cínicas, a usar nossa sala como se fosse banheiro público! A culpa é desses aí que estão no Poder para favorecer a todos e favorecem um punhado de outras criaturas bolorentas de tão apodrecidas pela sede e fome de dinheiro! 
Esses aí são as balas perdidas que levamos na cara todos os dias! 
Esses aí nos quais votamos! 
E essas balas perdidas existem em todos os países os quais a injustiça sobrevive à fome de escolas dignas, de saúde digna, de segurança mínima. 
Essas balas perdidas também existem em países onde há mais gente doente do que hospital... Onde há mais crianças na rua do que Creche em tempo integral... 
Essas balas perdidas existem em todos os países que não conseguiram alforria dos titulares do Poder... 
Em verdade, essas balas perdidas existirão enquanto o Primeiro Mandamento de outra esfera não for cumprido... 
Minhas irmãs brasileiras estiveram a chorar, mas protestaram, ao mesmo tempo por Justiça (ou justiça) para todos! Para todos os que, como as duas, perderam filhos em situações que inspiram segurança... Uma estava em casa e a outra no colo de sua mãe, num bairro “seguro”... 
Peço desculpas para minhas “irmães” brasileiras e para todas as outras pessoas que perderam seus filhos e filhas em situações tão dolorosas... 
Senti-me culpada por não poder fazer nada... E, por talvez, ter deixado a situação ir tão longe, através de preferências a criaturas que mereceriam receber na cara, com a força de uma bala, a minha completa indiferença ao longo de tantos anos, décadas, séculos... 
Eu também fui atingida mais uma vez, igual a essas mães... No entanto, meu país não tem culpa. Quem tem culpa são esses aí que, todos os dias, deflagram uma bala na alma já tão inflamada do Brasil e dos seus filhos, os cidadãos brasileiros. 
Como terminar um texto em fúria?...
Recorramos à nossa Padroeira, que também é mãe, que perdeu seu Filho para uma causa maior, a de nos fazer entender a mensagem do AMOR. 
Parece que ainda não entendemos Nossa Senhora... Já que, também eu, conhecendo a Lição, ainda assim, fui acometida pelo furor. 

SOLINEIDE MARIA DE OLIVEIRA 
Luanda - 06-02-2015 (08:35 da manhã)