sexta-feira, 24 de julho de 2015

A AMIZADE É UM TEXTO DE ALTA QUALIDADE

A vida é misericordiosa e agracia a todos com muita beleza, mas é preciso estar com o adestramento do olhar (inclusive da alma) em dia. Porque a rotina desgasta a retina dos olhos da alma e, se não se toma cuidado, a beleza que a vida nos oferta, passa a ser escondida pela poeira densa do dia a dia raso dos acontecimentos medianos do cotidiano.
A amizade é uma beleza da vida. É um texto de alta qualidade... E se prestarmos atenção, um amigo é, mais ou menos, um coach particular (que atende gratuitamente).
O amigo lhe dá toques e dicas, sugere, silencia. E, além disso, ouve. Hoje em dia, sobretudo, ouvir tem se tornado um verbo de difícil reconhecimento. Parece que todos querem falar, falar, falar...
Ouvir tem se tornado atividade rara. E é impressionante como quase todas as pessoas parecem especialistas em quase tudo. Um sabe tudo sobre culinária, outro sabe tudo sobre literatura, muitos sabem tudo sobre todas as coisas... E isso é triste. Porque não saber é maior.
Não saber é que inicia o papo mais salutar. Porque se você diz que sabe e o outro também diz que sabe... Uma pena, mas o assunto é abortado.
E se por acaso, você diz que sabe além daquilo que o outro informa sobre um tema, prepare-se para o bombardeio no olhar. Tem amigo que briga porque a disputa se tornou quase natural, até, entre amigos.
Isso tem a ver com os sintomas colaterais da existência do Google...  Muitas pessoas acabaram se tornando uns chatos, porque pensam que informação é cultura. E, pasme, pensam que educação é informação... E, mais grave, pensam que o Google sabe tudo.
Lá no início do texto, falei sobre amizade. E disse que se trata de uma das belezas da vida. E relacionei o amigo a uma espécie de coach. Repito.
A ideia dessa escrita nasceu de uma conversa com um amigo, um Google particular. Discorremos sobre o frio, a chuva, o metrô, a pressa mal educada dos moradores das grandes cidades, música - mais especialmente Marisa Monte- e sobre literatura (claro!).
Não houve competição no diálogo. O diálogo todo foi uma coesão de notícias e de textos. Todos eles interligados. Todos eles construtores de outros textos, que surgiam aos poucos, com medida, mas não comedidos. A amizade é, também, isso: coser textos que viabilizam entendimentos íntimos, que possam acrescentar e que, sobretudo, consigam aquecer a alma contra o frio da incompreensão pessoal e/ou de outros.
O bom amigo é aquele que ouve atentamente, inclusive, o que você já disse milhões de vezes. Ele não se abespinha e não lhe apressa e, não diz que você foi repetitivo. Ele pula o fato, parte para o próximo assunto, mesmo que o próximo assunto surja ali, naquele momento.
Assim, a amizade pode ser considerada um texto escrito a quatro mãos. E um texto que se tece diariamente, mesmo que os amigos se encontrem uma vez por ano. Mesmo quando um more no Brasil e outro em Luanda. Mesmo que morem na mesma rua e se encontrem, apenas, duas vezes na semana. Mesmo que se vejam uma vez por mês e ambos morem na mesma cidade. Quantidade, aliás, em questão de amizade, não vale de nada. O que vale, de verdade, na amizade real, é a qualidade dos textos. Sofro da impressão de que a qualidade dos textos influencie todas as relações... De que influencie a vida.
Por isso repito: é preciso estar com o adestramento do olhar (inclusive da alma) em dia. Porque a rotina desgasta a retina dos olhos da alma.

Solineide Maria de Oliveira do Patrocínio Rodrigues
22-07-2015

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