quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

LUANDA E LEITURA (Dedico esta crônica, especialmente aos meus padrinhos de casamento civil: Marisa e Flávio Couto)


Andar por Luanda é ter certeza que nada se sabe... Não se entende muita coisa, isso, claro, se você for “de fora”.  Ser “de fora” no sentido de ser estrangeiro.
Há um disco de Caetano, chamado O estrangeiro (que amo!), onde se pode encontrar uma canção que intitula a obra, a qual narra sobre um estrangeiro falando sobre as coisas do Brasil. No caso específico da canção, o estrangeiro “fala mal” da Baía de Guanabara.
Caetano responderia ao ilustre estrangeiro, esse homem “de fora”, perguntando a ele (o “de fora”) sobre o que seria uma coisa bela.
Não é preciso dizer que o poeta, músico, escritor, “coache”, intelectual (em minha opinião) Caetano, surpreende em mais uma extraordinária composição. E nos dá um banho de beleza!
Andei, ontem, por Luanda, ouvindo essa canção em meus ouvidos espirituais. Porque é mesmo assim como se lê na música: “o que é uma coisa bela”?
Enxerguei muitas coisas belas em minha caminhada... E surpreendeu-me entender, ao menos um pouco, os motivos da seriedade da mulher mais velha. A mulher mais velha aqui, respeitosamente, é chamada de “mamã”. E uma senhora dessas, explicou-me que seu nome (Seça – pedi que ela soletrasse como se escreve) era para se referir ao dia da semana em que nasceu (ela nasceu numa sexta-feira).
“O africano, antes, quase sempre, oferecia o nome do dia da semana à criança, minha filha”; a mamã me explicou. E encerrou seu esclarecimento dizendo que “antigamente era mais comum”.
Em meus ouvidos espirituais, primeiro, soou poético. Depois soou Divino... Mas afinal, poesia e coisa Divina, para mim, é a mesma coisa.
Quando lhe revelei meu nome ela sorriu. Também sorri. Ela disse que meu nome era estranho e perguntou o significado. Respondi que até hoje não sabia. Ela disse: “então é um mistério”. Pensei comigo: que riqueza de olhar poético dessa mulher... E lhe disse que nunca havia pensado desse modo. Prudentemente ela asseverou: “é preciso ter história entende? O nome precisa ter uma história”...
Percebi, enquanto caminhava, que conseguia ler (depois de alguns dias por cá), alguma coisa de Luanda...
E para conseguir ler Luanda, tenho tido um auxílio enorme daquela que se fez minha madrinha da leitura em Angola. Marisa, que também se fez minha madrinha de casamento civil, tem me surpreendido positivamente. Todas as vezes que visito a casa de meus padrinhos, saio com dois ou três títulos para ler. Dentre os títulos que minha madrinha emprestou-me, estão dois do autor Moçambicano Mia Couto. O segundo título é "O último voo do Flamingo" (devo dizer que o livro pertence a meu padrinho Flávio...rs)
Já conhecia Mia Couto, mas ter acesso aos seus pensamentos perto dos lugares que ele escreve em seus textos dá a sensação de que não somos tão “de fora” assim...
O título “E se Obama fosse africano” me deixou mais de uma semana impactada. Porque Mia Couto consegue escrever sobre coisas sérias, até dolorosas oriundas da cultura do povo africano, de modo poético. Muitas vezes, até, Divino...
Mas é aquela questão: poesia e mistério caminham de mãos dadas. Abraçam-se, beijam-se, deitam-se... E conseguem dizer coisas terríveis, sérias, duras, sem nos ferir mais... Justamente buscando um modo de “fechar” a ferida. Mia Couto, em minha ingênua opinião, faz isso... Ele fecha as feridas, com sua intelectual narrativa poética...
Ainda não comecei a leitura do outro titulo: “O último voo do Flamingo” (que devo rememorar é de meu padrinho Flávio...rs). Estou a encerrar a leitura do livro de poesias de I. D. Cordeiro da Matta, poeta nascido em Ícolo e Bengo (Angola). E ler poesia se faz em vários atos... Mas estou perto de chegar à página em que Da Matta diz seus versos finais ao leitor.
Para me misturar um pouco, estou a ler, concomitante à poesia, o livro de Ondjaki. A vida é uma surpresa... Ano passado, em Itabuna, ministrei aulas com textos seus para alunos de uma entidade onde trabalhei como professora de Produção Textual e Leitura.
Hoje, lendo Odjanki diretamente de onde ele nasceu (Luanda) me dei conta de que tudo pode acontecer... Tudo mesmo... E de que a leitura é um “elo entre meu ir e o do sol” (verso da música O estrangeiro de Caetano). Pode ser nosso elo...
Odjanki conta, em seu romance, a história da atual Luanda, ao mesmo tempo em que narra a história de Odonato, personagem central. Odonato e Luanda estão a se refazer... E a prosa toda de Odjanki é permeada pela... Poesia.
E como pergunta Caetano, em sua poesia, pergunto-me eu: “o que é uma coisa bela”?
Pergunto mais (que ousadia): o que é que se lê como coisa bela? E o que nos outorga o poder de dizer o que é belo e o que não é belo?...
É bom despertar e perceber que “tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu” e de que para ler é preciso ver, é preciso “olhar e ver”. E estou a dizer sobre a leitura de palavras e de mundo (sobre leitura de mundo leia-se Paulo Freire e Bakhtin).
Por isso convido a todos vocês: leiam.
Surpreendam-se com as palavras, com os olhares variados, com as sensações de outros seres, de outras pessoas, que, afinal, podem ser parecidas com as nossas leituras e com os nossos olhares. Ou, de outro modo, podem ser extremamente diferentes, mas isso é maravilhoso também! Porque somos diferentes e ao mesmo tempo, somos um povo só... Isso é poesia, mas também pode ser coisa Divina...

Solineide
O significado de meu nome não sei...(rs) Mas a biografia que carrego é a seguinte:
Primeiro sou filha de Deus, de Dona Regina e Sr. Lourival. Irmã biológica de Selma, Célia, Neide, Sirlene e Solivaldo.
Mãe de Flora Maria e esposa de Jorge Rodrigues.
Afilhada de Batismo de Sr. Ariene e Dona Lia, afilhada de Crisma de Selma, afilhada de Casamento de Marisa e Flávio.
Comadre de Dona Nininha e Sr. Fernando.
Leitora, poetisa, escritora, professora de leitura e produção textual...




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