sábado, 17 de maio de 2014

A PRECE TEM PODER

 O peso das bolsas nem tanto incomodava Bete. O que mais a incomodava eram as "provações"... 
 Ultimamente Bete vinha atravessando muitas "provações", mas tudo é aprendizado... Então... O ônibus apareceu e Bete estava do outro lado da rua. Seu desespero foi tão grande, que se esqueceu de que as ruas devem ser atravessadas com cuidado. Quase fora atropelada. 

Descabelada e ofegante conseguiu chegar até o ônibus, mas ele arrastou rapidamente. Bete ainda sentiu aquela fumaça traseira atrapalhar a respiração, que já estava dificultada por conta da corrida. Nada a fazer a não ser esperar outra condução... 
Enquanto esperava, organizava a agenda. "Puxa, que cansaço", pensou Bete... "E ainda é quarta-feira"... Concluiu seu pensamento levantando-se apressada porque avistara outro ônibus. 

Como é que uma pessoa se alegra com a visão de um transporte público "em frangalhos"? Bete conseguiu se alegrar e, pasme, até sorriu. Entrou e sentou-se ali mesmo, na frente (antes de atravessar a roleta). A "marinete" estava lotada... Mas tudo bem sentar-se era um luxo e ela havia conseguido tal feito. 

Ajeitava-se ainda, quando uma senhora lhe olhou com "intenção de assassiná-la". Tratava-se de uma idosa de cabelos tingidos de louro e uma minissaia muito "mini" mesmo. Bete pensou: "nessa hora ela quer ser idosa"... Bete, que é muito honesta e cidadã, levantou-se e ofereceu o lugar àquela "idosa de ocasião"... Melhor atravessar a catraca. Atravessou e conseguiu um cantinho protegido naquela "lotação lotada"... 

Mais um ponto se passa e Bete consegue sentar-se. Ao seu lado vem sentar-se uma senhora negra, com três dentes na boca, muito suada e mais ofegante do que ela quando conseguiu adentrar no ônibus. Carregava um bolo de fubá na mão esquerda e uma "fanta" genérica na outra mão. A mulher pergunta à Bete se aquele ônibus passava no presídio... “Que presídio”? Ah sim... Havia um presídio na cidade... Bete respondeu que não sabia. A cidadã então pergunta ao cobrador, no que este responde que parava perto, pois aquele transporte fazia o itinerário "Via Urbis IV". 

A mulher começou a conversar com Bete. Primeiro, se disse aliviada de aquele ônibus parar perto do Conjunto Penal, porque seu filho estava lá e na semana anterior não pode ir visitá-lo. Bete oute tudo atenta e calada. Depois de um minuto aquela mãe pergunta para Bete se ela queria um pedaço de pão com mortadela (sacando o alimento de uma sacolinha plástica). Bete recusa e agradece. Durante o itinerário, a mulher conta como seu filho fora detido: "Olha moça, perdi uma filha mulher por causa de um marido ciumento e meu filho mais velho perdi para as drogas, mas Deus prendeu esse mais novo pra mim lá na cadeia. Pedi tanto uma providência que Ele agiu. Foi mesmo sabe fia. Ali eu vi que a prece tem poder". 

Bete ouvia aquela irmã, com uma emoção sem conta... Como é que quase se queixava para Deus há instantes atrás por causa do atraso de um ônibus? Aquela mãe muito linda em amor continuou: 
“foi numa sexta-feira de noite, teve tiroteio e meu fio estava nessa vida, eu sabia moça... Mãe sabe né? Aí me contaram que o pessoal do lado de lá iam na favela pegar os de cá, meu fio na rua, tarde da noite. Ajoelhei no chão e pedi para Deus me ajudar. Para Ele não deixar eu perder meu fio mais novo para as droga também”.

"Sou mesmo homem de pouca fé" pensou Bete com seus botões... 
Sorridente, aquela heroína disse que não foi visitar o filho porque conseguiu outra faxina e não queria perder no primeiro dia: 
"A muié marcou para o dia de visitar meu fio, eu não podia perder esse dinheirinho né dona"? Dona era Bete e Bete concordou... 

“Dona do quê”... Bete pensou... "Dona de uma fé ainda bruxuleante? De uma fé anêmica? "Ai amiga... Dona de umas faltas persistentes"?... O ponto de Bete chegou. A mulher levanta-se e auxilia Bete em sua saída. 
Aquela mãe agradece ainda sorridente a conversa matutina com Bete. A heroína anônima deseja que Bete tenha bom dia e dê boas aulas e lhe abençoa: 
"Deus lhe acompanhe". Bete responde "amém" e diz para aquela mãe honrada que tudo vai acabar bem. Que seu filho logo será solto, pois Deus sabe de todas as coisas e se ele tiver bom comportamento sai mais rápido. A mulher sorriu um sorriso cheio de alegria e abraçou Bete... Transbordante, disse que Deus havia de ouvir aquelas palavras. 

Bete, muito emocionada, precisou sentar-se um pouco no banco maltratado do ponto de ônibus próximo à escola maltratada do bairro periférico, também maltratado, que iria ministrar as aulas da manhã e fez uma prece, pedindo que Deus a perdoasse pela ingratidão de reclamar por nada e agradeceu mais uma lição de vida, dessas que Ele envia para ela, ainda que não tenha merecimento... 

(13-05-14)

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