quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A enxurrada

A enxurrada de gente escoa para o metrô.
Cada pessoa uma gota, de esperança, sobretudo, mas esperança é bicho frágil...
A enxurrada de esperança escoa para o metrô, desce os degraus,
entra nas frestas que as levam para lugares diferentes.
Cada gota vai prum canto, mas sozinhas, dispersadas, perdem o encantamento e a força.
Cada gota separada, não diferencia nada, tornam-se coisas egoístas, pensam apenas em regar suas plantações de sonhos, querem um rio inteirinho para si, não olham a gota de esperança vizinha, desidratando.
Gotículas separadas não sopesam, não compartilham.
Juntas, elas compartilham?
Naquela embarcação moderna, elas compartilham?
Compartilham as frestas, ou estão ali porque estão, e pronto?
Perde a graça aquela enxurrada, quando escoam para lugares ímpares.
Então, a inutilidade da multidão em que se transformam, deixa uma dúvida pertinente, que atravessa o meu dia: _ É uma enxurrada de esperança, ou de egoísmo?
A enxurrada tem força que nunca saboreou, não do jeito mais sublime, dar e receber amor.
Nisso vem e vão-se os dias, anos, séculos...e a enxurrada sem coragem de amar, de ser amada. Compreende pouca coisa, apesar de antiga e gasta.
Há, no entanto, o dia em que essa enxurrada descobrirá, não a força que ela tem, mas a força que não sabe aproveitar.
Há de chegar o dia dessa enxurrada escoar para lugares dispersos, mas com a força multiplicada.
Há de chegar o dia dessa enxurrada compreender, que gotícula separada não carece ser gotícula egoísta e quando notar a gotícula vizinha, desidratando, doar um pouco de si, água-esperança das boas, porque água-esperança doada é de melhor qualidade.
Esse dia há de chegar, porque repetir história tem limite.
Amor é que não cansa, e amor, não é história repetida, é história incompreendida.
Nesse dia, as gotículas não precisarão de embarcação. Terão comum entendimento. Por isso, saberão sozinhas, embora não egoisticamente, seguir por frestas e vincos, levando sossego, porque o terão de sobra. Sopesando a vida, regando onde já exista, e encharcando tudo de paz e de amor.

SOLINEIDE MARIA DE OLIVEIRA
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