quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Mais uma leitura humilde de uma canção do Renato (Russo)

Para Regina (sobrinha)

Metal contra as nuvens seria uma viagem em busca da Terra Prometida? Uma visão de quando se davam As Cruzadas? Um filme épico? Um filme chinês, com direito a espadas e dragões? Todas as alternativas? 
Uma coisa é certa: uma composição poética de alto galardão. 

A referida composição sempre me pareceu emblemática demais, por alguns sentidos dos quais consigo impetrar. O poeta libera um desabafo, que parece estar por muito tempo camuflado, ou há muito esquecido, quando diz: 

Não sou escravo de ninguém
Ninguém senhor do meu destino. 

Mas para quem brada sua voz? Quem seria o interlocutor do seu protesto? Os céus? Deus? Os deuses? Todas as alternativas? Nenhuma delas? 
Estaria o vate, gritando abandonado num cenário devastado por determinada luta? E sobre quais dias desleais o poeta estaria se referindo? Seriam muitas as escolhas sobre esses “dias desleais”, mas parece que As Cruzadas combinariam com o cenário apresentado: as léguas andadas, a fé sem raciocínio... Afinal, foi um momento sangrento, onde se lutava mesmo por quê?...  
Lembrei-me... Era uma luta por alforriar certa terra. Uma, que diziam ser santa... Tinha promoção da Igreja e, talvez, tenha sido uma das mais sangrentas batalhas por razões santas. Parece hoje... 
Alguns expunham que aquele que lutasse nelas, seria salvo. Salvo de quê mesmo? De quem? Consigo enxergar a questão da fé cega, faca amolada - no caso seria espada amolada. 
Ouvindo o noticiário sobre essas coisas de fé e de crença, não dá para rememorarmos essa e outras histórias? 
O que ainda faz o homem lutar e sangrar e morrer por tais questões? Que tipo de fé é essa? 
Essas reflexões me fizeram recordar certa passagem. Não. Não é bíblica. Pertence a outro livro, que diz o seguinte: “A fé viva não é patrimônio transferível. É conquista pessoal”. E há outra assertiva ainda mais séria e condizente, que pronuncia: “A fé cega não é mais deste século”. 
Talvez o aflito eu - lírico do poema em questão, tenha alcançado esse fato e por isso tenha desabafado: “É a própria fé o que destrói”. Claro que esse tipo fé destruiria nobre soldado... Pois que não se trata de ser uma fé raciocinada. Até hoje esse tipo de fé devasta... 
Um pouco adiante, poderia ser possível dizer que tal combatente teria encontrado sua própria razão das coisas. De forma a entender que “a fé raciocinada, que se apóia nos fatos e na lógica, não deixa nenhuma obscuridade: crê-se, porque se tem a certeza, e só se está certo quando se compreendeu. Eis porque ela não se dobra: porque só é inabalável a fé que pode enfrentar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade.” 
Então o guerreiro levanta a voz e solta sua exclamação: 

Quase acreditei na sua promessa!
E o que vejo é fome e destruição!

Dizem que o sopro do dragão é o momento em que a consciência ganha força, renasce e se liberta dos seus verdugos. Acorda do sono imposto pelas desventuras de uma alma em servil. Não tenho como comprovar o que escrevo, são coisas que dizem... Mas faria algum sentido. 
Visitou-me a memória, outra passagem. Sim, dessa vez é bíblica: ocorre em Gênesis, quando se diz de um sopro, dessa vez, Divino. O sopro de Deus seria o vivificador do espírito humano: “Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente”. Poderia ser crido que o lutador da canção teria, enfim, desperto daquela servidão e determina: 

Não sou escravo de ninguém, 
Ninguém é senhor do meu domínio. 

A partir de esse despertar, a poesia revela a história do homem que combate numa guerra sem sentido, já que ele próprio diz: 

Quase acreditei, 
quase acreditei. 

O valioso soldado é salvo por sua consciência que desperta, mas não sem marcas dolentes. Não sem desgastes físicos e emocionais. Não sem descrença da fé que lhe divulgavam: 

É a verdade o que assombra 
O descaso que condena, 
A estupidez o que destrói 
 Eu vejo tudo que se foi 
E o que não existe mais 
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende. 

O acordo entre alma e corpo, parece se realizar enfim. De maneira a assentar o soldado à posição de pessoa, sujeito mesmo. Aquele que pode ser responsável por sua vida (ou morte), mas de porte de sua sanidade. 
Não seria bem o que se vê nas guerras (santas...) atuais. Elas parecem continuar as mesmas... Seus “homens” parecem continuar sem força para lutar contra aquele que se deve lutar: ele mesmo. Lutar contra sua própria ignorância, lutar por vida em vez de morte. Lutar para que haja um sopro de vida que reavive suas “almas” ensandecidas - por que mesmo?... 
Ainda que haja tristeza e o cenário seja desolador, o combatente da composição consegue ter fé que: 

... nossa estória não estará pelo avesso 
Assim, sem final feliz. 
Teremos coisas bonitas pra contar. 

Que essa Terra seja aquela que conseguirmos re-construir a partir de nossas novas consciências! 
Olha o sopro do dragão... 

Amém poeta. 

Solineide Maria

Alusões
http://www.institutoandreluiz.org/estudo_sobre_a_fe.html http://evangelhoespirita.wordpress.com/capitulos-1-a-27/cap-19-a-fe-que-transporta-montanhas/a-fe-religiosa-condicao-da-fe-inabalavel/

Um comentário:

  1. Gosto disso. Principalmente por me remeter mais uma vez às musicas da Legião. Da vontade de ouvir agora, já... e penso! Metal Contra as nuves é sem duvida uma mistura de tudo que foi citado somado a desilusões(amorosas), traição, política, historia. Fato é que poucas vezes foi contata a história dos Templários de um jeito tão tocante. Como de costume letras atuais que nos remetem ao hoje, na realidade de uma sociedade desiludida e continuamente refém da corrupção.
    Em contrapartida não há como nao lembrar de sua frase/musica que diz: "Eu sou um pássaro Me trancam na gaiola E esperam que eu cante como antes" quando no trecho da música "Não sou escravo de ninguém
    Ninguém senhor do meu destino".
    Fato é que as musicas de Renato tem sempre um toque especial. Nos encontramos a medida que ouvimos suas canções. E isso é maravilhoso!
    Adorei a dedicatória, e o texto é claro!!
    Continue!
    bj

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