segunda-feira, 17 de outubro de 2011

GIZ


O título de uma das mais belas canções de Renato Russo (Legião Urbana) , é nome também de uma rocha que se constitui de sulfato de cálcio. Pode ser encontrado em águas muito profundas, em forma de umas placas de calcite (pesquisa vagabunda no google). Giz também se usa(va) para escrever nos quadros negros. Ou para os professores registrarem apontamentos aos alunos ou para os alunos brincarem de desenhar flor, coração, casinhas e suas árvores vizinhas, praia com palmeira torta... Vocês se lembram? Hoje, metade dos alunos perdeu a ludicidade e não desenham nada. É triste. Pior. Às vezes apagam ou querem apagar a construção dos outros e de outros...
Giz pode ser uma série de coisas: é nome de agência de propaganda, é nome de TV, é nome de site, é nome de revista... Entretanto, sempre será palavra altamente poética, em minha leiga opinião. Remete mesmo às coisas da infância, quando brincávamos de amarelinha, ou, de desenhar nas calçadas e na rua da gente. A rua da gente (que fique explicado) era a rua onde morávamos. Apoderávamos-nos da rua que guardava nossa casa, nosso endereço, nossa família e vizinhos.
Diz se giz não lembra algo frágil? No entanto, diz se não é tão forte que fica gravado na memória? Talvez seja isso que o compositor Renato Russo tenha sugerido se dizer e a todos nós, em sua poética letra de canção. Romântica? Parece que sim, houve um romance que fora apagado pelas contingências do tempo. Distância? Não se sabe.
O compositor canta que quando acabava o giz para a conclusão de seus desenhos na calçada, ele colhia um tijolo de construção e concluía sua obra. Parece ontem... Casas por serem construídas, é mesmo verdade que sempre havia tijolo de construção “na rua da gente”.
Quando Renato Russo canta “eu rabisco o sol que a chuva apagou”, não parece que diz assim: olha, apesar de fazer muito tempo que não nos vemos e que tudo aconteceu, volta e meia me vejo pensando em você e aclaro os contornos de nossa história com o giz de minha infância. Não parece?
E justifica ter continuado, ter seguido, apesar de ter gostado muito de tal criatura, porque a vida é para frente. Ela segue. Independente de nossas intenções. E o cantor, mais adiante desabafa que mesmo tendo continuado, algumas vezes é preciso dizer a verdade de si para si: Vivo, mas lá no fundo apesar de ser feliz sei que sou “só um pouquinho infeliz”.
Não se pode ser feliz cem por cento, querido Renato. Este mundo ainda é de provas e expiações... Creio. E saiba que
mesmo sem te ouvir
acho até que estou indo bem.
Só ponho seus discos para curtir
quando convém aparecer
ou quando quero.
Mas tudo, mas tudo bem
saudoso amigo!
Porque eu rabisco o sol que quis a morte apagar.

De sua sempre ouvinte 
Solineide Maria
17/10/2011

2 comentários:

  1. UMA BELA E CRIATIVA PROSA, PARABÉNS SOLINEIDE POR MAGISTRAIS ESCRITOS.xontramão veja se gosta.

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  2. Oi Solineide, adorei as flores, tanto que as espalhei virtualmente para todos os amigos.
    Estive no seu blog e gostei muito do visual, aqueles grafismos preto-e-branco em formas diversas no fundo e de sua crônica também (reúna-as em um livro, uai...) com as reflexões sobre um minúsculo giz.
    Acho que giz, além de primo da areia (ambos minerais), como sua prima, representa o efêmero, a fugacidade do presente ou coisas assim, apesar, de como você lembrou muito bem, registrar como ferro em brasa as lembranças da gente, difíceis de apagar (não brinquei de amarelinha, mas era costume antigamente os professores mandarem-nos à lousa escrever ditados, poemas e redações a giz branco).
    Enfim, gizes devem ter deixado algum rascunho na mente de muita gente.
    Um abraço para você e Flora. Se vir o Odilon, dê-lhe um abraço (mandei-lhe e-mail, mas acho que não pôde responder). Parabéns pelo blogue delicado e belo.
    Do irmão nômade, Clinio.

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