domingo, 24 de julho de 2011

Diálogo de duas inocentes (sobre o acaso, desejos e necessidades)

A ternura é amiga.
Companheira dos momentos
Onde a saudade se ausenta.
Chora e ri comigo.


Toma a cadeira e senta,
Fala longamente sobre
Tudo,
E, sobretudo, sobre nada.


Um acaso lembra que somos
Quase iguais:
A pétala que caiu
No santuário.


A rosa despetalou
De velha;
Ela falou e riu.
Sorri e olhei, e vi.


Onde você esconde o abridor?
Ela perguntou.
Respondi que não tinha,
Se tivesse usaria


Para abrir a porta de minha
Alegria.
Ela disse: é isso que quero
Fazer.


Com a garrafa de vinho numa
Mão, e na outra
Um garfo velho e torto.
Abriu. Sorriu. Sorrimos


Bebemos vinho,
Falamos sobre o acaso
De termos, as duas,
Quase a mesma idade.


Ela confessou,
Talvez para me alegrar,
Que é mais velha.
Eu disse: não parece.


Não foi para agradar
Falei a sério.
O acaso nada sabe de mentiras.
O acaso é um joguete acriançado


Das séries muito velhas,
Das novelas
Dessa antiga
Raça humana.


A ternura parecia um tanto
Agreste.
Fiquei triste, melancólica,
Suponho...


Não pensei que até
Mesmo a ternura
Tivesse os seus dias
De rigorismo.


O acaso é apenas teoria,
Disse ela numa cara
Muito séria.
Eu baixei a cabeça pensativa.


Será mesmo? Perguntei
Atoleimada.
Será mesmo que o amor
É mero acaso?


Que o nascimento
Do filho esperado,
É somente façanha
Da Natureza?


Será que quando pari minha
Filha; suas mãos
E pezinhos e olhinhos,
Foram coisas do acaso


De um bichinho
Que se uniu ao um óvulo
Distraído meu?
Louco isso não?


Será que até mesmo a arte
A Ave Maria de Bach,
Terá sido um acaso
De muita sorte?


Arte é coisa gerada pelo homem.
Mas pela natureza também há.
Uma pérola é coisa do acaso,
E veja quanta arte nela há!


Acaso é coisa muito séria
De se falar numa hora dessas
Minha amiga.
Falemos de outros assuntos.


Vamos falar de coisas tolas,
De como e onde devemos
Aportar nossos corações sozinhos,
Solitários...


Não me pergunte sobre isso,
Pois se você não consegue
Agradar, o que tenho
Eu a declarar?


Não tenho a arte de
Por acaso, agradar.
Falta-me o acaso de ser bela
Ou charmosa.


Falta-me o acaso de ter nascido
De nariz arrebitado,
Ou de cintura mais afunilada,
Ou de ancas maiores, pele clara...


É minha amiga,
Vamos parar por aqui,
Porque o vinho
Por acaso, acabou...

Solineide Maria
08/05/2010

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