domingo, 27 de junho de 2010

ATOS DE AMOR

Minha mãe é fruto da roça. Oriunda de uma grande família: pai, mãe, onze irmãos. Carinho para eles era uma fala mais mansa da mãe. Abraços e beijinhos, nem sempre. A preocupação pelo sustento da prole, por parte de meu avô, era maior do que o tempo para afagos.
Minha avó, segundo consta, era rezadeira e parteira, dava de si para o outro. Linda profissão, que ela exercia com o maior amor. Ela não tinha como profissão, fazia por quem necessitasse. Vocação? Não sei. Quem sabe... E o que ganhava não era dinheiro não, era prece, uma galinha, uma semente disso, daquilo.
A vida na roça era difícil, porque era década de 30. Tudo longe, quase no fim do mundo... Eles não eram grandes latifundiários, tinham uma grande porção de terra. No entanto, não tinham condição de tratar desta, de maneira a se tornarem fazendeiros renomados.
Quando minha avó saia para os afazeres do dia-a-dia, deixava a menina maior, cuidando dos menores. Sempre foi assim, até todos eles se criarem. Carinho? Afago? Acho que não tinha muito não.
Entretanto se amavam sim. Porque o amor não necessita de toque. Claro que é muito bom quase indispensável. Quase.
Para eles, o amor se fazia em atos. O amor era a mais velha se dando para os menores, quando cozinhava a comida, mãos pequenas ainda. Era quando um pegava no outro e dizia chorando que estava com fome, e o outro, logo providenciava uma banana.
O amor para eles era quando a mãe chegava e dizia gritando para ajudarem-na a trazer o peso das ferramentas e de algumas frutas catadas na estrada de volta, para dentro de casa.
O amor neles se fazia na troca de sapatos, que eram um par para todos quase. Ou no troca-troca da brilhantina para o cabelo crespo se ajeitar melhor no coque perfeito.
O amor em minha avó para com todos eles era a palavra.
Analfabeta, mas sábia, dizia sobre o mundo e sobre a vida, que nem mesmo sabia direito como era. Talvez dissesse o que ouviu da mãe, que ouviu da mãe e assim por diante.
O amor em minha mãe também se faz mais em atos. Dizer eu te amo, não é coisa fundamental para ela. Noto. Acato. O ato de amar seus filhos é muito maior. Noto e aprecio de forma muito emocionada e especial.
Há um ato de amor que ela pratica que acho especialmente bonito. Quando vamos para a roça, que subimos a ladeira de barro vermelho, nossas sandálias, sapatos ou que calcemos, volta abarrotado daquele barro, grudado no solado.
A gente deixa esses calçados na porta, para não sujar a casa. Quando vamos procurar os calçados, ou para limpar, ou para bater no murinho, na intenção de o barro seco se desprender, eles já estão todos enfileirados, limpinhos, secando ao sol. Façanha de minha mãe.
Isso é um ato de amor. Lavar as sandálias do outro, deixá-las limpinha, para serem calçadas novamente, para novamente caminhar, sem peso nos pés.
Amo você minha mãe, ainda que eu não apresente as condições necessárias para seus atos amor. E obrigada por todos eles.

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