segunda-feira, 10 de maio de 2010

NINGUÉM MAIS USA RELÓGIO (mais uma noite a menos para Bete)

Não quero mais sair. Nenhuma varanda tem flor de verdade, parece. Difícil achar a poesia passando...
Outro dia um cara me olhou e perguntou as horas: eu não tenho relógio, respondi. Ele disse assim: hoje em dia ninguém mais tem relógio. Não é verdade, muitos ainda usam relógio, respondi, ele disse que não. Eu falei que era por causa do celular e ele acha que é por causa da pressa.
As pessoas, segundo opinião sua, querem se esquecer. Não querem mais lembrar que horas são. Eu lhe disse que precisava escrever isso, parecia poesia e ri. Ele riu e disse que escrevia poesia. Eu abri um sorriso e ele me deu seu cartão com telefone e tudo o mais. Despediu-se dizendo: me liga. Eu ri.
Lógico que liguei e saímos, afinal estou sozinha... Mas no dia em que saímos, ele estava com relógio e olhava para ele a todo o momento. Eu falei que ele estava menos alegre, e perguntei se era por conta das horas, ele respondeu que não. Mentira, claro. Vi logo que parecia se tratar do caso típico de homem enrolado com muitas mulheres. Também, quem manda acreditar na poesia assim, de chofre, como diria um amigo meu.
Conversamos sobre algumas coisas, rolou umas gargalhadas, porque eu não ia ficar triste ali na frente dele. Ele não podia saber que me abati por dentro. E se foi difícil engolir o pudim, imagine o resto do papo, sem sal e sem açúcar. Insosso... O café eu tomei com todo gosto, sede, mesmo...
Vamos? Ele decidiu. Respondi que já ia lhe pedir para ir – não queria ficar para trás.
Levantamos, ele olhando o relógio e eu lamentando inaugurar minha sapatilha com aquele tipo. Poesia... Sei... Ele deve escrever aqueles versos bem ralinhos sobre sexo e atração física. Ri baixinho pensando.
Claro que ele dirigiu muito rápido e falou umas coisas sobre o trabalho, mas aí eu já estava recitando Ausência em meu pensamento. Não escutava mais nada do que ele falava. Por que será que Drummond não quis o Fardão da Academia? Danado ele viu!
Você está me ouvindo?! O moço quase gritou. E agora? Responderia o que? Se sim ele iria querer saber do que falava. Respondi que me distraí com umas coisas que tenho de entregar na faculdade. Ele disse ahn...
Acho que ele engoliu. Não me importava mais. Queria chegar em casa, tirar a roupa, tomar banho. Guardar minha sapatilha novinha... Que desperdício! Podia estar dormindo, ou terminando meus textos. Também, quem manda...
Quis acreditar, mas ta vendo só? Depois me dizem que sou pessimista. Eu? Dou até mole demais para o otimismo. Mas ta legal, a gente se vê por aí; que fala mais idiota (pensei.) Eu respondi: é quem sabe.
Entrei em casa. Sentei no sofá e me estiquei depois. Depois deitei. Dormi. Acordei e olhei as horas no celular, dentro da bolsa – ninguém usa mais relógio, sei... Cantada chula. Mas também, até as flores de verdade estão sendo trocadas, nas varandas. É muito plástico!
Não quero mais sair.

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