quarta-feira, 12 de maio de 2010

Maria

E agora Maria vai sozinha,
Porque aquele a quem pensava amar;
Escafedeu-se.

Ela não tem tempo para dúvidas,
Nem para procurar respostas
Que não mudariam
O rumo dos acontecimentos.

Não vai para a festa
Porque os meninos não
Tem com quem ficar.
Nunca zombou dos outros,
Pois sempre soube que
Os outros e ela,
São, em verdade,
Uma coisa só.

Todo mundo sofre,
Todo mundo chora.
Para que zombar?

Sabe que passará um tempo sem homem...
Porque mãe solteira com quatro buguelos
Para alimentar, vestir e
Calçar, não seduz tão fácil.

A noite esfriou, mas guarda
Um casaco do tempo do onça,
Que é bem quentinho, embora
Não seja modal.

Sabe que tem um povo
Que vai fugir,
Medo de que ela peça
Grana emprestada.
Sabe que o ônibus vai atrasar,
E, que às vezes, não
Vai ter como pagar.
Sabe que às vezes vai mofar
De esquecida.

Mas Maria é forte,
Maria agüenta,
Já agüentou tantas...

Incoerente nunca foi,
Intelectual não teve tempo
De ser, ainda.
Nunca sentiu ódio,
Tem raiva de alguns, ódio não.

Quando saiu de Minas
Foi pra ser feliz;
E se não puder,
Triste não vai ser.
Vai trabalhar,
Lutar,
Criar os meninos.

E, se Deus ajudar,
Vai recomeçar o Curso
De Pedagogia que
Acabou trancando
Por tolice sua...

Maria não tem tempo,
Nem paciência,
Para cansar,
Nem para gemer,
Nem para gritar.
Nem para morrer.

Sozinha não está,
Pois sabe que amanhã,
Outro dia será.
Nunca foi peso para ninguém,
Agora é que ela não iria
Querer se encostar.

Política não a interessa mais,
Já militou para muitos partidos,
Já acreditou em tantos,
Hoje sabe bem,
Que a vida é crença
Nas verdades suas.

Maria segue a marcha da vida,
Sem medo, sem bronca,
Sem muita ilusão,
Mas nem por isso,
Sem esperança,
Ou alegria.

Vai Maria,
Segue sua intuição.


DEDICO AO POETA MOR: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE.

2 comentários:

  1. Essa MARIA me faz reconhecer tantas e tantas brasileiras que conhecemos em cada lugarzinho escondido deste vasto país, Marias jovens e velhas desgastadas pelo tempo. Uma Maria atual e apenas mulher que sobrevive a cada dia. É uma releitura feminina de Drummond, mas também me lembra morte e vida Severina.
    Beijos!!!!

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