quarta-feira, 21 de abril de 2010

CARTA DE SAUDADE


Sinto sua falta. Um cara falando coisas que eu queria dizer. Parecia minha voz ecoando por aí.
Ouvi discos seus, bolachões mesmo, ontem. Não me esqueço de limpá-los, depois, os protejo de mim, que ainda não consigo evitar que "me digam que não vale a pena acreditar num sonho que se tem".
Tem mesmo "gente que machuca os outros. Tem mesmo "gente que não sabe amar". Mas ontem estivemos juntos. Você dizendo coisas tão bonitas, sempre muito apaixonadamente e sinceramente interessado em dizê-las. Esqueci o resto das pessoas, todas muito desonestas, duas ou três interessantes, quatro que se interessam por mim, minha paz e felicidade.
Sinto sua falta. Você, no entanto, não estaria bem por aqui não, sei lá, posso estar dizendo bobagem, mas " o mundo anda tão complicado" Renato... Estamos todos fartos de nada e de tudo, e somos culpados de tudo o que acontece. Sempre foi assim, e, parece, sempre será . Sabia que estão desinventando o Amor? Agora, amar é tédio. Desse modo, as pessoas "ficam". Você que sentia a solidão imensa dos poetas todos do universo, você entende o que significam essas tormentas meu amigo? Daí onde você está, o horizonte está perdido?
Conheci você com quinze anos... Faz tempo já. E parece que foi hoje. Sabe aquele dia da justiça que você labuta com a voz na Fábrica? Ainda não ocorre, "o mais forte ainda escraviza quem não tem chance". O pior é que isso ocorre incluso nas universidades... Não está pior?
Foi sempre assim Renato? Você que sofreu a verdade mais de perto: foi sempre assim mesmo? Por isso você cantava que "esse ar deixou minha vista cansada"? Não duvido, porque quando você dizia que "toda dor vem do desejo de não sentirmos dor", eu fazia minha versão sabia? Cantava que "toda droga vem do desejo de não se sentir dor". Acho que isso que vem acontecendo; os seres não querem sentir a dor de perto, a dor de nada e de tudo, da fome, da solidão, da frieza dos humanos, da indiferença dos ricos, dos poderosos, dos professores doutores, dos padres, dos "falsos profetas" e se lançam cada vez mais para a marginalidade. O quadro é este meu amigo...
Entendo hoje mais que antes, sua fúria em Metal Contra as Nuvens: "estes são dias desleais". Mas você foi embora, foi embora "cedo demais". A droga que você bebeu, cheirou, fumou, se aconteceu, entendo. Entendo que viver é mesmo difícil e perigoso para os que se embrenham pelos caminhos da emoção. Amo-te mais ainda por isso.
Mas devo preservar meu coração e minha coragem, porque "tudo passa, tudo passará" e, embora, enquanto isso, na enfermaria, todos os doentes estejam morrendo; "apenas começamos".

PARA RENATO RUSSO

Solineide


Um comentário:

  1. R.R deixou saudades em outros corações também.

    Amenizo com algumas letras saborosas poetizadas no passado do hoje.

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TEMER APROVA O TRABALHO ESCRAVO

De onde saiu essa criatura que atende na função de Presidente de um país com gente que trabalha para pagar feijão, arroz, carne seca, água?...