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Máquinas não sonham nem comem

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A máquina veio e revirou a terra onde a mamã concebeu uma bela plantação para o sustento de sua família. A máquina revirou tudo e foi-se embora... Não fez nada além disso, não era para limpar a terra, não era para arranjar o esgoto da escola há mais de dois anos a céu aberto. Não foi para nada. Apenas revirou e destruiu a lavoura da mamã. Hoje ela chegou e viu sua plantação revirada, sem força e sem o verde habitual da hora da colheita. Ficou por trinta minutos ali parada, talvez mais, já que por respeito não fiquei para ver seu choro. Ficou ali parada, sem pensar ou pior, talvez pensando: "E agora? O que vou colher de agora em diante?" Com a enxada em punho, ajeitou um pé de mamão atropelado pela máquina e catou os frutos ainda verdes, talvez sirva para um cortadinho... Ela ajeitou também uma das touceiras de pé de Capim Santo (aqui chamam de Caxinde) e quedou-se a olhar ao redor com a enxada a contrabalançar o corpo. Fui ter com os meus papeis, também sem ter o que c...

"MADURIDADE"

Velhos papeis com palavras que aspiravam virar versos. Cartas respondidas, algumas sem nenhuma lógica... Muitas com lógica em demasia. Quais dos amigos (as) ganhou em número? Quantos (as), em qualidade? Que bobagem, a carta, mesmo lacrada, já trazia imenso valor. Ainda naquele momento, tantos anos depois, valeu ler novamente. Pedaços de giz, alguns lápis pequenos,toco de lápis, botões, botões, botões (rsrs). Para que tantos botões? Não há vestígio de memória de que construí fortuna a vender botões e depois perdi... Nem artesanato fiz... (rsrs) Canetas coloridas, já esvaziadas com os lacres intactos... Deve ter sido algum espírito escritor (a) que compôs os poemas que não detectei... Muitas fitas de cetim, estas, lembro perfeitamente, foram usadas por Flora infante... Deu para vê-la a dizer: Aamarra mais forte minha mãe, para não cair na hora do Recreio." Cartões de Natal, cartões de Natal... Muitos cartões de Natal! O que é Natal? Uma voz perguntou-me à consciência... A campa...

Agradecimento

Agradecimento Muito obrigada aos que não me querem bem, porque assim, me torno ciente do que preciso fazer de reforma íntima. Solineide Maria

A SERRALHARIA (saudade se corta com rebarbadora)

O barulho de uma serralharia aqui perto tem me trazido a infância. É que nos meus tempos de criança até a idade de 14 anos mais ou menos, existia uma serralharia perto da casa dos meus pais. O  barulho nunca me incomodou naquela época, ele chegava na casa dos meus pais tendo percorrido algumas ruas (umas doze ruas por aí). Hoje, depois de estar a ouvir esse som há alguns dias e ficar contente com a memória afetiva que ele me traz, li uma reportagem sobre o incômodo de morar muito perto de uma serralharia. A cidadã, na reportagem, diz que precisam isolar as paredes daquele lugar (da serralharia), que fica quase ao lado de sua casa. Fiquei tocada com a situação dela. Até senti constrangimento, porque para mim o barulho dos canos a serem partidos, dos ferros a serem moldados e da solda a funcionar como "cola" em restauração de peças de carro e outros, conforta-me meus dias, onde há um Oceano de distância entre eu e minha mãe, meu pai, minha filha, minha família biológica inte...

Bohemian Rhapsody

Ainda não tinha assistido, mas a mim não me pareceu um filme, nem um documentário, nem uma biografia. Também não me parceu uma história contada com os tão conhecidos: início, meio e fim. Chegou em mim como uma emoção desfigurada, um amor contido até a exaustão, uma greve da alegria mesmo com milhões no bolso. Trata da vida de um jovem homem que conhece outros dois jovens homens e calha de ser no dia exato de se conhecerem e dá tão certo que se tornam a Banda Queen. No meio e na superfície e onde mais haja espaço na "narrativa" baseada em fatos reais sobre Fred Mercury e os Queen, existem outras narrativas. Há a narrativa da família e de toda a intimidade que uma família, toda família, qualquer família deveria ter uns com os outros (como seria normal acontecer nas famílias). Há a narrativa da busca por uma família que entenda (e até aceite) as perfeições imperfeitas que pode acontecer de existir em qualquer criatura humana. Há a fragilidade dos corações das pessoas mais am...

versos feridos

quantos corações a dor consome? (solineide)

De discursos frios e comidas quentes (Canções para Flora voltando)

Gosto de ouvir sua voz, de ouvir seu violão, gosto de olhar suas mãos magras, veias, unhas, palmas, tintas. Gosto de não ser escutada, e repetir mil vezes a mesma palavra. Daí você pergunta pela milésima vez: "O que você disse mãe"? "Esqueci"... Sempre esqueci (ço) o que ia dizer pra você. Porque, talvez, nunca tenha sido enfática. Meu discurso sempre frouxo, fraco, fino (de tísico). Fino de fraco, falho, fosco. Nunca consegui um discurso cheio, embasado, psicanalítico, sociocrítico, empostado... Gosto de quando cozinha panqueca, pipoca, bolo, massa. Gosto muito de quando faz misto quente diferente. Minha comida sempre a mesma, sem sal, sem peso, sem assinatura. A sua sempre cheia de identidade. Saudade. Saudade. Saudade. (Solineide Maria - para minha filha Flora maria - Do livro, na gaveta, Canções para Flora voltando - Luanda, 28/04/19)