segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

LEIA MAIS DRUMMOND EM 2013!

No livro Alguma Poesia do meu eterno amor Drummond, há um poema que reflete sobre isso de dizer que o ano passou... 
O tempo, que em mim é uma "angústia", também era objeto de pesquisa frequente nos poemas desse mineiro poeta! O nome do poema é "O ano passado". 
Dedico este poema aos meus amigos como elemento de reflexão. 
Tudo acontece numa frequência que não se interrompe. Tudo vai e vem numa constância que não se desequilibra ou corta... 
TUDO É. 
Talvez por isso se diga que "Deus não passa". Lógico! Ele Está! Deus É! 
Santo Agostinho disse sobre o assunto - muito mais consistente do que essa que vos escreve - em seu livro "Confissões" (sugiro apreciação e leitura). Em verdade, a mudança está cá: dentro de nós! 
O próprio Drummond responde este seu poema (O ano passado) com seu poema "Receita de Ano Novo":
"É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." Feliz Ano Novo! 

Solineide Maria de Oliveira

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Estou minguante

Estou numa fase de cansaços.
Talvez esteja na fase minguante de mim.
Devo estar a crescer por dentro,
nem mesmo eu,
tenho acesso aos avanços.

Está tudo do lado interior (de mim)
no momento.
É lá que os plantios crescem, pensam,
tomam intenção de árvore,
de planta...

É isso! Estou minguante.
Deve ser por isso as dores de cabeça
constantes, já que o médico disse:
"é cansaço minha filha..."
Disse e bradou: "o próximo!"...

E deve ser por isso que o coração
está frouxo, balança com tudo:
cena de novela, cena de filme,
nenhuma cena.
Estou numa fase "baixo-ventre"...

Deve ser por isso que durmo mal
dias e dias.
Deve ser por isso a sede constante.
Já que estou a crescer por dentro,
a irrigação pede mais.

Deve ser por isso os sonhos
com pessoas que gostam de plantar.
Ontem mesmo, 
sonhei com o jardineiro "Bigode".

Sinto uma vontade imensa de parar,
ao mesmo tempo de seguir:
romper, como fazem os cipós...
Saem a crescer e crescer...
A romper e subir!

Mas o cipó tem a árvore,
e tem as pedras,
e tem outros onde se agarre.
Eu não tenho ninguém...
Não, neste planeta...

Também...
Estou a crescer por dentro,
estou minguante.
É dentro que devo examinar o momento
de eclodir.
E onde...

De: Solineide Maria
Para: Sr. Bigode  

sábado, 22 de dezembro de 2012

TECNOLOGIA COM EDUCAÇÃO!!!

Fórum em Pós Graduação EAD onde sou aluna.

Expresse sua opnião sobre o tema: " Tecnologias na educação".


Li as argumentações dos colegas e todas carregam notórias e tristes verdades. 
As notórias se situam no plano das "utopias". Existe muita "fala" e pouca ação... 
O Governo (no caso das escolas públicas) "fala que faze isso e aquilo" e até faz: manda not e net books... mas não colabora de maneira "adequada" com a Formação Continuada do professor... Por isso, vários equipamentos acabam virando fendas sem função importante na Educação. 
No caso das escolas particulares, o excesso de "tecnologia" afasta o afeto... Além de haver cobrança quase inumana para que o educador dê conta dos planos, planejamentos, pesquisas, aulas propriamente ditas (nas salas) e uso das novas tecnologias. 
Minha mãe, que estudou até a terceira série do Fundamental I de hoje - costuma lançar a assertiva: "tudo demais são sobras". As tristes verdades são as que se situam no plano do "showzismo"... É muita tecnologia para pouca aula...
É ISSO... Tecnologia sem medida acaba sendo "tecnologismo"... Vaidade pura... 

Solineide Maria de Oliveira

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Oração para não ser carne

Juro que não quero Senhor, ser um pedaço de carne para qualquer um. Uma taça de vinho e pão e luz para uma noite qualquer. 
Juro que não desejo mais da pouca nitidez de palavras que não ficam. 
Dessas palavras que a gente se esforça em rememorar. 
Prefiro a Tua voz a me dizer que fique e descanse no Teu ombro a falta de coragem. 
Depois, deixa que Te faça um peixe ao azeite, deixe que Te sirva água, depois Decidirás se será vinho ou não. 
Depois eu quero Teu pão que me alimenta muito mais. 


Solineide Maria – do Livro de Orações da Mulher (em edição)

Cadê?

É denso sim...
Às vezes me apavoram as coisas que pensava
antes, 
leves...
Levando embora alguns conceitos. 
Mas se vão, pois que vaiam! (rs)
É na incerteza que o poeta vive:
do peso de um amor que não dá certo 
é que os poemas melhores acontecem... 
Mas também, o que é dar certo
ou errado? 
Meta a Metafísica nisso e pronto:
tudo de outro jeito se apresenta, 
a pouca nitidez vai se aclarando...
Mas ter olhos de ver, 
coração de escutar, 
ouvidos de enxergar: 
Cadê?
Quem tem?
Será? 


2010

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

ORAÇÃO DA MANHÃ (de todos os dias antes de a coragem nascer)

Senhor,
quero alisar os cabelos da alegria!
Acariciar as mãos finas da paz...
Ser feliz sem ansiedades "inventadas".
Ajuda-me a ser o que sou,
e não o que querem que eu seja...
Ajuda-me a amar sem pretensões;
a entender que tem gente que vai ficar;
tem quem queira ir embora
(mas não tem coragem..);
tem quem me ame, mas tão mal,
que parece ódio...
Ajuda-me Senhor nascido na simplicidade de uma estrebaria,
ajuda-me a entender de coisas simples,
de coisas sem brilho,
de coisas que brilham sem ter cor
e de minhas supostas "lamparinas"
que teimo em manter em luz baixa...

Solineide Maria


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

VERSINHO PARA VALDIRENE BORGES

Queria um dia só meu...
Deitar e sonhar de olhos abertos.
Tocar o chão e pensar
na vida de um modo lógico...
Queria ser descansada,

serena e leve e bonita...
Feito um quadro de Valdirene Borges
a pintora da vida.
 
 
(SOBRE UMA PINTURA SUA)

Confissões

O cansaço da vida nem tanto, mas me abate a sensação de incapacidade.
Chega perto de mim, roça meu cangote...
Olho para os lados para ver se alguém viu. Acho que não.
Acho que ninguém viu que fquei com medo.
A vida me pedindo determinadas decisões,
eu pedindo prazo...
A maternidade exigindo de mim o que não sei se tenho...
Ser mãe é difífil... E solitária então...
Mãe solteira, então...
Essa minha voz em tom menor
semrpe...
Queria uma voz de trovão,
um corpo de mulata (dessas tipo exportação)
queria "uma licença de dormir"...
Às vezes qeuria acordar e ouvir qualquer música,
ler qualquer coisa,
achar tudo ótimo,
não reclamar das notícias tendenciosas,
ir para praia e tomar cerveja,
ser feliz na bobagem...
Mas li Drummond e me casei com seu estilo.
Mas li João Cabral de Melo Neto e silenciei.
Li Cecília Meireles e emudeci.
Li Adélia Prado e fiquei sem palavras.
Li Clarice Lispector e fiquei em catarse.
Li RILKE e não sei mais nada...
Fico pensando que deve ser bom chegar,
primeiro, com o corpo.
Depois chegar com a voz (alta!).
Depois, já colocada, falar alguma coisa.
Eu tenho que chegar primeiro com a palavra.
A palavra é meu estandarte. Minha saia de renda.
Minha bata de seda. Meu anel de cristal.
Minha maquiagem da moda.
A palavra é minha salvação
e perdição.
A palavra é minha bolsa de luxo,
meu sapato Arezzo,
meu óculos de grife,
minhas mãos esmaltadas,
meu cabelo arrumado...
A palavra que nem sei se sei usar,
é que me salvaguarda.
E a sensação de incapacidade me acompanha,
toda vez que chego perto das palavras...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Para Jesus

Meu Reino é simplório,
não tem casas com piscina.
Não tem garagem com dez carros.
Não tem cavalo com crinas bem urdidas.
Não tem avião nem helicóptero.
Não tem praia particular.

Meu Reino é pequeno,
cabe num peito que deseje amar
e passar.
Ele é simplório,
como os lírios de Meu Pai...
Meu Reino não tem, quase, nada demais.
Meu Reino beira a uma choupana,
se comparado aos reinos deste Planeta.
Mas no meu Reino existem coisas fenomenais:
lá dormem juntas a noite clara e a mansa paz.
Lá ficam juntas a alegria e a mansuetude.
Brincam alegres a disciplina e a cortesia.

Lá quem se afasta para servir,
volta contente.
Quem vem com medo de florescer,
cresce em segredo.
Almoçam juntas a calma,
a tolerância
e a paciência.

E todos os poetas,
de todos os lados
declamam versos pelos lugares.
Em meu Reino, quem quer servir,
é o mais servido;
percebe logo que ele é mais,
que é Divino...
Meu reino é simples,
mas é aberto a toda gente:
não tem porteiro,
não tem portão,
não tem nem porta.

A condição para que alcancem meu Reino é simples:
ame e só ame e mais adiante esquece e adentre.

Poema sob inspiração de Catarina.
Solineide Maria

Outras cogitações sobre o amor...

Será só carne
pele e unhas 
e cabelos?
Será só pernas
mãos e costas
pés e pelos?


Solineide Maria

Pedido para Clarice Lispector

Clarice...
toque minhas mãos.
Ensina-me teu dicionário de palavras invisíveis...
Visíveis, apenas, com os olhos frágeis
da alma.

Uma noite com Rilke

Rilke esteve comigo na noite passada. Contou-me em voz muito educada e doce sobre a paz e a dor. Falou-me que estes sentimentos os quais damos acesso, ainda são pequenos... Mas aos poucos evoluímos, mesmo com emoções tão rústicas...
Disse que paz não é falta de luta. Disse que na vida, uma batalha boa e sofrida é remédio contra qualquer dor.
O poeta alemão me contou também, que o silêncio é a solidão que a alma necessita, para ampliar suas capacidades de lidar com o temor da falta de pão para o espírito.
Rilke me lembrou que nada é em vão. E um pouco sorridente asseverou: “da falta de ombro para chorar é que muitas vezes o nosso fica forte e chega um dia a servir de ‘píer’ para os companheiros.”
Seu olhar me consolava e, num momento em que saboreava do chá que havia lhe oferecido, acrescentou que nestes mares imensos que se fazem na vida dos que buscam a paz, a dor é companhia que engrandece.
Rilke advertiu que o ciúme e a inveja existem. Disse que são frutos do olhar doente do irmão que deseja o que alcançamos. Mas adiantou que tais experiências devem servir, unicamente, como elementos de análise, para que, tal olhar, nunca seja o nosso. E para o irmão adoecido indicou prece.
Falou ainda que todos os ciúmes e invejas e outros males, sejam mais ensinamentos do que perturbações.
O vate acrescentou que a paz e a dor estão sempre juntas. Andam de mãos dadas. Ele disse que é para que não tropecemos por vaidade. Aquele que parece inimigo traz consigo uma dose de lenitivo, que serve para as reflexões mais recônditas...
Rilke pegou minhas mãos e as uniu. Lamentou que ainda que quisesse ficar já se fazia tarde. Rogou que estude ainda mais; que leia ainda mais; que me dedique mais ainda ao ofício de escrever e à literatura.
Rememorou-me que essas coisas não se esgarçam e não se perdem na eternidade. Sorri. Beijei suas mãos de poesia e paz e dor já compreendidas.
Olhei aqueles olhos tênues e tranquilos e fiquei com a lembrança de sua voz doce, com a leveza de sua presença.
Abracei suas lições de amor e morte e paz e dor e prazer e sorte.

3 e 15 da manhã de 21/05/2010 - Solineide Maria

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Desejos Natalinos VI

Marta querida...
faça-me amiga
dessas humildes...
Dessas bem calmas...
Dessas bem simples...
Dessas caladas...
Dessas que ficam nos bastidores
cuidando das dores
e das comidas.


Solineide Maria
para meu novo livro: Desejos Natalinos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Desejos Natalinos V

Quero mais calma 
como tem a madrugada...
Que espera a luz 
sob o impacto da alma...
Que vela ansiosa a chegada 
da alegria...
Sorrindo mouca
contra qualquer agonia.

Solineide Maria Dez. 2012

Desejos Natalinos IV


Para a estrela pedirei mais alegria
para os Reis Magos só um pouco de magia
para Maria dicas de abnegação
ao bom José clamarei por compreensão
ao Deus Menino rogarei por Piedade...
Pois que bem sei carrego ainda
imperfeições seculares...

Solineide Maria de Oliveira

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Desejos Natalinos III

Quando chegar a doce data do Deus Menino,
vou abraçar minha alegria e bem baixinho
direi assim:
Ele nasceu de novo!
Não esqueça disso durante o Ano!


Solineide Maria

Desejos Natalinos II

Queria ver em cada casa a esperança...
feito criança sair correndo e entrar na dança!


Solineide Maria

DESEJOS NATALINOS

Esperarei o doce beijo da alegria,
feito menina que cansou da 
apatia! 
Quero a paz de abraçar a minha filha
como se fosse o próprio Cristo 
ressuscitado!
Como se fosse Maria Santa
útero sacro!


Solineide Maria 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Sonhei com Padre Fábio de Melo.

O sonho se resumia em conselhos espirituais, os quais, esse bravo poeta da Igreja e das coisas da vida espiritual, realizou, em particular, para mim. Ele dizia sobre pausas e recomeços. Sobre luz e sombra... Disse que era melhor descansar no Senhor minhas agonias, do que dizê-las aos humanos. Contou que anda meio cansado sobre as perguntas a respeito da beleza estética que ele carrega. Citou alguns trechos do Evangelho Segundo o Espiritismo e riu quando lhe disse que ele combinaria como Espírita. Sua resposta foi bonita: "sou de Deus, já basta não é?" Que sonho bonito... Disse uma poesia linda, que acabei esquecendo... Mas me aconselhou a seguir com a minha. Falou tão bem sobre as perseguições espirituais... Deu-me conselhos para a Maternidade... Asseverou que "filhos são nossas lições mais difíceis, por isso é bom tirar, no mínimo a média" e riu. Falou sobre outras coisas, mas baixaram o volume do áudio do sonho. Sempre me acontece isso...rs Acordei com sensação de coragem melhor estabelecida. Que sejamos TODOS nós, corajosos em nossas empreitadas pessoais. Que, afinal, acabam sendo entre nós e Deus (como asseverou Madre Teresa). Bom dia!! Solineide Maria de Oliveira 03/12/2012

domingo, 2 de dezembro de 2012

SOBRE AS CRÍTICAS QUE ME ENDEREÇARAM A RESPEITO DA DOAÇÃO DE PRESENTES EM DETERMINADA TAREFA...

um dia a gente vai ter Festa de Natal sem consumismo "em vão"...

No entanto, enquanto esse dia não chega, podemos entender que, por ser algo "cultural", levará mais um tempo AINDA.
Então, vamos com calma...
As crianças (coitadas) já tem problemas demais em aturar pais "tresloucados", egoístas, a falta de água e de ar... pra ficar sem brinquedo.
Sou contra esse ritual sem sentido, mas não posso, sozinha, contra isso tudo!
Minha filha não recebia presente no Natal. Não, comprados por mim. Sempre entendeu que Natal é uma Festa de Aniversário (simbólica) muito especial. No entanto, não posso cobrar de todas as outras crianças (sobretudo as "pobres de marré-de-si") compreensão exemplar sobre este tema.
Vamos semear... Semeando... podemos colher.
Críticas, tão somente críticas, não realizam tarefa nenhuma...

Solineide Maria

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

PERGUNTAS DIFÍCEIS...

O que fala uma página em branco quando está calada? 
Branco! 
Branco total! 
Falaria da solidão de um Dia de Finados: 
pai e mãe, filho e irmão, mortos? 
O que diz 
a agonia da folha em branco 
quando não se atreve a nada? 
Nenhuma palavra!!!! 
Nenhuma reticência!!! 
Fala coisas que só se ouve 
com os ouvidos moucos do amor? 
Com os ouvidos loucos da paixão? 
Com os ouvidos indiferentes da solidão?
Com os ouvidos surdos da tristeza?


Solineide Maria

Para Lucas
(designer gráfico e amigo)
que me fez algumas perguntas parecidas com as do poema, numa manhã, quando chegava para trabalhar.

sábado, 24 de novembro de 2012

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Poema não escrito

Um poema quer ser escrito,
mas a "poeta" está longe...
pensando nos problemas de agora,
lembrando dias calmos.

Ele senta e toca na mão da poetisa:
mãos macias, maternais, musicais.
Mas a cabeça do instrumento não retorna
aos campos líricos da criação poética.

Ela está presa ao mundo visível,
está atada ao que é fixo,
sofre a inexatidão do que é palpável.

O máximo de metafísico que consegue
é organizar algumas ideias para o dia seguinte...
O poema lhe beija a fronte e retorna para o ar.

Solineide Maria

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Centésima Confissão

Sei que o material que tenho é frágil, 
mas com Teu toque 
pode ficar firme 
pode ser melhor, 
pode seguir e, até, 
servir. 
Pode ser que eu seja vaidosa ou 
pueril, 
pensando que sou alguma coisa...
qual nada... 
Sei que não passo "de menos que um cisco",
mas quero estar presente aonde Fores 
porque sem Tua presença 
a minha desespera... 
Torna-se inútil existência, 
torna-se atalho que leva 
a lugar algum.

Solineide Maria

Poema para Valdirene Borges

Quando Valdirene nasceu, 
um anjo alegre e melancólico, 
desses que vivem em todos os lugares disse: 
Vai, Valdirene ser cor, luz, sombra e vida.

Solineide Maria
Só a poesia alcança
o lábio da esperança!


Solineide Maria de Oliveira

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SANTA TERESA EM SONHO...

Sonhei com Santa Teresa. 
Dizia assim para mim: 
a poesia não tem medo de morrer, 
ela sabe que a vida é só o começo. 
Olhei rápido para ela, 
mas já não estava ali... 
Fiquei me olhando no espelho, 
fiquei com os olhos vermelhos, 
o relógio despertou 
e eu já estava sentada. 

Solineide Maria de Oliveira

terça-feira, 6 de novembro de 2012

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

PADARIA I (para Fernando Pessoa)

Não sou nada 
não quero ser nada. 
Se um dia chegar a ser eu mesma 
já está muito bom.


Solineide Maria

De ser PEQUENO e de ser GRANDE

 Uma formiga muito pequenina, dessas que anda na pele das plantas, por cima da mesa, catando farelinhos de pão, viajou para a floresta para passear. Ficou por uns dias na casa da tia que se chamava D. Formigona. 
Na verdade, D. Formigona era muito pequenina, feito a formiguinha pequenina, mas era tão poderosa sua mordida, que logo inchava o local onde ela dava sua dentada. E tem outra coisa: D. Formigona era muito autoconfiantequarentonizada e se dava muito valor. Sempre aconselhava a formiguinha pequena e tristonha que devia se animar, pois ela era uma Criação Divina, quer melhor que isso? Sempre a assegurava. Porém, não tinha jeito, a formiguinha não se entendia com o seu tamanho e com sua força reduzida e com suas dificuldades pela terra. Grandes pedras para escalar, altas folhagens para vencer... 
Eis que num dos seus passeios pela floresta, a formiguinha encontrou um velho leão, descansando em suas terras. Tomou coragem e foi até ele. Aquele animal enorme, com grandes jubas bonitas, para perguntar sobre tamanho e força. Venceu o medo e chegou às barbas do velho leão. Berrou alto para que ele ouvisse: _ Sr. Leão, pode me responder uma coisa?! _ Sr. Leão! 
A voz fininha, esganiçada, longe... Mas o Sr. Leão ouviu, enfim e perguntou: 
_ O que me perguntou senhorita formiguinha?
_ Sabe me dizer por que eu tinha que ser tão pequenininha? Queria tanto ser grande? Com um rosnado de gato grande, o Sr. Leão riu alto e disse: 
_ Ora... Todos somos de um jeito. Uns são grandes, outros pequenos. Veja o Senhor Hipopótamo, ENORME! Você pensa que ele não passa sufoco, com aquele tamanho todo? Todos têm suas limitações, mesmo que sejam gigantes. 
A formiguinha parou por uns instantes, ficou com ar reflexivo. Ficou assim muitos minutos, enquanto o Sr. Leão arrumava sua juba. Depois desse tempo de reflexão, a formiguinha abraçou um fio daquela juba e para agradecer a lição daquele velho leão. 
A "pequena" voltou contente para a casa de sua tia D. Formigona, a repetir com firmeza: 
_ Sou pequena, mas sou uma cria grandiosa. 

De Solineide Maria Para Flora Maria 19/07/2008

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

PARA JESUS! O NATAL QUE NOVAMENTE SE ANUNCIA!


 
Jesus: desculpa-me essa roupa assim puída...
e essas mãos cansadas de quase nada,
essa sala embrulhada em medo e inglória
por tantos sonhos meus amarelados.
Sei bem que esta
que vos escreve,
deveria ter melhor cadeira 
para ofertar-lhe,
mas olha...
Senta aqui nesse banquinho,
concebido por meu pai
que foi carpina,
era assim que o chamavam 
na empresa...

Toma esse café forte e cheiroso,
foi minha mãe Menino do meu peito,
que preparou cedinho, 
antes de sair
para o Posto pedir uma Consulta...
Faz meses que estamos dividindo
essa quase impossível empreitada...

Por que me fitas tanto 
e em tanto silêncio?
Ai desculpe, 
deve ser por causa desse pão...
Hoje em dia os pães são só fermento...

Desculpas é o que mais tenho ofertado,
mas olha, meu coração não faz teatro.
Acolhe minha família em Suas mãos:
tem um cunhado meu, 
é professor...
vive aturdido em meio às cobranças...
Oh Senhor, deixa que ele experimente
maior progresso financeiro...

Para meu irmão só agradeço.
Ele sabe que nesse momento,
agradecer é mais que ficar quites
com a graça de ter visto a luz
de novo... adentrar em seu coração choroso.

Ampara o meu pai 
e a minha mãe 
que me suportam...
Pois com a idade que tenho 
nas costas
já era tempo de ser tutora deles...
Mas ainda sou filha...
A mesma, quase, de quando
Viestes ao mundo.

Agradece à minha mãe
todo desvelo,
toda atenção e toda caridade,
todo amor e toda rigidez...

Ampara a saúde dos meus irmãos
de sangue
e de amizade.
De casa e do Centro.
E do Colégio Senhor,
pois somos todos
(somos MESMO),
todos irmãos.

Sabe minha filha...
Querido Santo
das mães aflitas?
Está melhor e 
mais autoconfiante!
Sei que a Espiritualidade agiu
em fazer-lhe sentir que o AMOR
é bálsamo que cura,
que cativa,
que encoraja!

Este ano foi duro...
mas com Vossa
presença a dor
é menina que não brincou
na infância.
A dificuldade financeira
é teste para nossas ambições 
por vezes desmedidas.
A solidão acompanhada
é prova para entender
o que de fato fortalece
uma alma desnutrida...

Ai Jesus que delícia de perfume...
Essa flor é mesmo para mim?
Obrigada Senhor, 
meu Doce Irmão!

Ainda é cedo, 
fica um pouco mais
aqui.

O Menino Jesus sempre sereno,
Acolheu minhas mãos em suas vestes
E me disse em palavras muito sóbrias:
_ Ama, ama...
seja sempre uma casa para o Amor.
Sejam suas palavras luz e chama. E que neste Natal todos entendam,
definitivamente que a vida, 
deve ser presente para o próximo. 
Dessa maneira minha filha, torna-se essencialmente ocupação em construção
da verdadeira vida.

Ouvir voz tão serena, 
em palavras de alto
garbo 
deixou-me sem palavras
e num gesto,
só pude oferecer-lhe 
o coração...
Inebriado de paz
por visita tão Alta 
e tão Sublime.


Solineide Maria de Oliveira
25/10/2012
(certamente cheia de inspiração Espiritual)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Senhor, receba por enquanto apenas esta prece...

Ainda não sou gentil, 
não tanto quanto gostaria... 
Ainda elevo a voz, 
ainda eriço a testa, 
não calo, calo, calo. 
Ainda não sei não dizer. 
Ainda não sei usar as palavras certas... 
Os vocábulos me traem... 
No entanto Senhor, 
Tu que sabes que lá no fundo 
guardo o melhor de mim: 
o vestido mais bonito 
(embora puído), 
a sandália mais simples e confortável 
(ainda que gasta), 
o anel mais polido 
(apesar de latão inútil). 
Abraça-me apertado 
quando observardes que 
estou prestes a desistir 
do melhor que há em mim.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Reencontro

Hoje a luz me revisitou: 
escancarou as janelas, 
abriu a porta 
(para que eu colocasse o lixo na rua). 
Fez café e me desejou bom dia 
(quando fui para o Colégio...).
Da esquina
dava pra ver seus cabelinhos ruivos, 
com luzes nas pontas, 
acenando com aquelas mãos 
cor de azul-infinito.

Solineide Maria de Oliveira

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Aqui

Não se distancie demais
posso perder tua face.
Fique por perto...
Não saia sem avisar.
Não esqueça de dizer
que está na sacada:
ando muito esquecida,
posso desesperar...
Fique aqui,
aqui, bem aqui:
dentro de mim.

Solineide Maria
AGORA:
eis o momento exato
para viver feliz
de fato.

Solineide Maria

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

AMIGÃO

Um cachorro sujo e velho parou perto de mim. Olhou-me. 
Parecia que falava sem palavras: olha só que situação a minha... Meu primeiro pensamento foi o de sair de perto dele, afinal, estava limpa (será?) e meu destino era o de uma entrevista para emprego. Já pensou, chegar fétida e com semblante melancólico? Tinha de chegar lá, com ar de quem vira um passarinho colorido: cheia de vitalidade e disposição para crer que “todos somos iguais perante as oportunidades”... 
Não sei bem o que me fez ficar ali parada perto daquele ser que, ao que parecia, esperava a morte. Doente e velho, cansado e só. Sua vida tinha sido boa antes da doença, pois portava uma coleira onde se podia ler: AMIGÃO. Era seu nome? 
As letras eram bonitas, caracteres que pareciam esboçados para ele. Estrelas rodeavam o nome e, no final, tinha uma frase em letras menores dentro de um pequeno coração que dizia: para sempre. Quando li o nome e fiz a investigação do resto da coleira, quedei-me triste e sorumbática. Assim também se faz com os humanos... O cão me olhou como perguntando: precisava chover mais? Em verdade empacara ali para passar a chuva insistente e, no momento em que parecia cessar, veio mais torrencial. 
Já havia esquecido a entrevista empregatícia e nem sabia se acreditava em “amizade”. Nem de bicho para bicho, nem de homem para bicho. Quedei-me melancólica...
A chuva insistia e, em dado momento, aquele cão começou a tossir forte. Primeiro foi um “atchim” descomunal, depois ocorreu uma sucessão deles e, ao cabo o pobre abandonado, já não conseguia ficar de pé. Abateu-se deitado, com os olhos extremamente afligidos (procurando alguma fisionomia familiar?). Estávamos apenas nós dois no ponto de ônibus. Ele me olhou como quem dissesse: vela-me na minha morte? Meu Deus! Comecei a cantar a Oração de São Francisco numa carência de voz que parecia teatral, mas não era... 
Não sei se por estar muito impressionada com o sofrimento daquela criatura, ou se por acreditar que São Francisco é o Deus mais humano entre os Santos, tanto, que ampara até os bichos, percebi o cão começar a respirar fundo. Respiração de quem queria agarrar novamente o suspiro inicial da vida. Aquele que engrena toda ela... 
Lembrei de minha mãe, que tem uma simpatia descomunal pelos bichos sofredores. Pedi à Santa Teresa que apoiasse aquela criatura (ela era poetisa), os poetas entendem desses momentos (e de outros)... Solicitei a assistência de Chico Xavier, ele que amava os bichos e os tinha como irmãos menores. 
Enquanto improvisava preces por aquele ser, não me dei conta de que já o estava acariciando a cara: alisando as orelhas caídas e cobrindo-lhe o corpo cansado e doente com um jornal (que havia comprado para ler enquanto esperava ser chamada na tal entrevista). Ele me olhou com olhos em lágrimas – juro – e como quem parecia dizer muito obrigada, sorriu com suas feições de cão, durante o seu último suspiro.


Solineide Maria de Oliveira
São Paulo - Vila Guarani - 2002

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Compreendi...

A prova objetiva
 tem o objetivo 
de debilitar
seu objetivo.


Para Marise Limeira (companheira de provas objetivas...rs)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O POETA JESUS

Ele me olhou com olhos de amor,
abraçando minhas mãos titubeantes.
Fez um sinal que queria entrar,
em minha casa
simples,
desordenada,
pequena.
Ofereci um copo d'água,
vinha suado,
o sol estava de "rachar".
Ele sorriu...
Talvez pensando assim:
"que pretensão"...
Fiquei vexada, afinal,
o que dizer,
o que, para Ele, poderia ofertar?
Depois de um breve silêncio
Ele me olhou, e perguntou
com voz de algodão:
- Soli, qual é seu medo?
Por que demoras tanto em sua decisão?
Carregue-se de suas obrigações, 
segue minha filha,
não olhes para trás.
Gente... Morri eu acho.
Melhor, desencarnei.
Quando acordei senti uma alegria,
que somente os menestréis explicam.
Havia sonhado com O POETA JESUS.


Dedico à Virgínia Araújo - irmã que reencontrei no CECC.
Solineide Maria de Oliveira

domingo, 7 de outubro de 2012

Pedido ao novo Prefeito de Itabuna

Peço a Deus que não ocorram:
ameaças aos funcionários 
concursados,
"sumiço" de verbas,
preconceito religioso
(ou nenhum outro).
A cidade necessita crescer.

Que as ruas sejam "abraçadas"
pelos olhos vivos da Segurança
Pública,
que as mães não continuem 
amedrontadas...
A cidade precisa respirar.

Que a Cultura volte a sorrir
(há muito ela anda cabisbaixa).
Que o Rio seja rememorado...
Não desfaça dos mil e poucos votos
que lhe asseguraram ser Prefeito.
A cidade tem pressa em ser grande.

Não despreze aqueles que não lhe
cederam crença.
Seja justo e honre as promessas,
sobretudo àquelas que foram
proferidas em nome de Deus...

Não professo da sua Religião,
mas seu Deus é o mesmo Deus 
no qual creio;
e à Ele solicito em minha prece,
que abençoe sua administração
nestes quatro anos em que Itabuna
(minha cidade sofrida),
estará fisicamente em suas mãos.


Solineide Maria de Oliveira

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Oração pessoal...

Fica comigo quando a manhã rompe  
e durante todo o dia.
Quando ficar triste e quando chegar 
alguma alegria.
Quando os que estão ao meu lado forem sinceros
e quando faltarem com a verdade...

Fica comigo e alivia minha falta de amor 
pelos que mentem simpatia...

Fica, Senhor, comigo
quando crer no homem que faz política.
E quando minha descrença pelos políticos desta 
Cidade,
deste
Estado,
deste
País
aflito de pobres, de gentes que não dão certo por falta de anistia, for maior do que minha harmonia.

Fica comigo
mesmo que minha pouca fé Lhe silencie...

Fica comigo quando esteja com alguém
e quando a solidão for minha companhia.

Fica comigo quando alguma indecisão me angustia.
Quando temer o futuro,
quando minha colega de trabalho me repudia...
Quando pensar que posso adoecer 
de melancolia.
Quando faltar luz nas frestas 
dos meus dias.
Quando me dizem a verdade 
e quando me tripudiam.

Fica comigo agora nessa rua vazia...

Fica Senhor, 
comigo,
quando o dia nasce 
e quando a noite se anuncia.

Ainda que o mal persista...
Quando em mim chegar a noite,
e quando raiar o dia.
Fica comigo, rege sua cria.

JARDINEIROS INFIÉIS...

Onde estão as rosas que colhi na manhã de ontem? 
Não cuidei bem delas... feneceram rápido.
No primeiro ato de intolerância... 
Na impaciência. 
Na voz áspera.
Por que se perde o vigor com tanta pressa?
Por que nossas rosas são tão efêmeras?
Por que será que cuidamos tão mal dos nossos jardins internos... Logo eles que não são suscetíveis às estações do ano?..

Solineide Maria de Oliveira

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Caminho para a simplicidade

Ficaram para trás as coisas que prestavam. Agora... Agora nada. Nada mais será igual, nenhuma novidade há nisso. Mas há. 
Há a novidade de não ser como antes, porque é um antes diferente de outros antes. 
Tudo isso, mesclado ao som horroroso que entra pela janela da sala, são motivos suficientes para desistir de tudo. Talvez escrever... 
Isso! Eis a ferramenta de me jogar pela janela “adentro” de mim! E voltar de lá mais fácil, porque o mundo já está farto de complicações...


Solineide Maria de Oliveira
PARA CECÍLIA E CLARICE 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Canção sem palavras...


Nenhuma delas me toca.

Nenhuma sua alegria.
Nenhuma
sua alma boa
Nenhuma...


Ai meu amado,
minha amada,
Amor meu...

Nenhuma delas
conserta 
meu pescoço...
Nenhuma...

Só mesmo essa
canção sem palavras
faz algo em mim
tão divino...

Para Fabrício 
(meu amigo pianista rebelde).

Nossa Senhora dos farrapos humanos?

Deve ter uma Santa para aqueles dias em que estamos um "farrapo humano"... Dias quando acordamos cansadas(os) de tudo e de nada...
Essa Santa deve ter assim uma cara boa... Dessas que aparecem nas melhores revistas de moda... Ela deve ser super corada, deve ter olhos ativos... Deve passar aquela atitude só na pose ne?
Se tal anjo existir, peço encarecidamente que me guie durante essa semana... Porque não sei onde foi parar meu dedão do pé.
Meu melhor perfil para foto...
Minha intenção de atingir a próxima sexta-feira.

domingo, 30 de setembro de 2012

Oração para a simplicidade

Senhor, 
ajuda-me a me ver livre de mim... 
Das minhas preferências (inclusive de amigos). ,
Ajuda-me a calar, 
calar, 
calar, 
até virar um jarro mudo, 
cuja única utilidade 
seja a de servir de abrigo 
para rosas brancas e belas. 


Solineide Maria de Oliveira

terça-feira, 25 de setembro de 2012

sábado, 22 de setembro de 2012

Metal contra as nuvens...

Não quero ser seu soldado:
matar, morrer,
tudo em vão.

Não quero crer
no que crê,
não me chame de irmão.

Não quero amar 
desse jeito...
Amor não seria isso.

Tamanho desequilíbrio
só rima com
servidão.


Não me prometa mais nada,
você não vale
um tostão...

Vá e mate,
morra,
suma.

Não conte 
comigo
não.


Para Renato Russo.
Se você soubesse o que andam fazendo por esses dias aqui no Planeta...


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O velho novo homem de maus hábitos...

O velho hábito,
costume desgraçado!
Não abandona o homem novo
renascido...

Volta e meia  chega perto,
faz companhia.

Hábito sujo,
feio,
pouco e
sem charme.

Por que o homem
não renasce todo dia?
Por que
não lembra de antes
só o que brilhava?

Destinação louca do homem:
ser novo em folha...
amassada...


Solineide Maria

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Mais uma leitura humilde de uma canção do Renato (Russo)

Para Regina (sobrinha)

Metal contra as nuvens seria uma viagem em busca da Terra Prometida? Uma visão de quando se davam As Cruzadas? Um filme épico? Um filme chinês, com direito a espadas e dragões? Todas as alternativas? 
Uma coisa é certa: uma composição poética de alto galardão. 

A referida composição sempre me pareceu emblemática demais, por alguns sentidos dos quais consigo impetrar. O poeta libera um desabafo, que parece estar por muito tempo camuflado, ou há muito esquecido, quando diz: 

Não sou escravo de ninguém
Ninguém senhor do meu destino. 

Mas para quem brada sua voz? Quem seria o interlocutor do seu protesto? Os céus? Deus? Os deuses? Todas as alternativas? Nenhuma delas? 
Estaria o vate, gritando abandonado num cenário devastado por determinada luta? E sobre quais dias desleais o poeta estaria se referindo? Seriam muitas as escolhas sobre esses “dias desleais”, mas parece que As Cruzadas combinariam com o cenário apresentado: as léguas andadas, a fé sem raciocínio... Afinal, foi um momento sangrento, onde se lutava mesmo por quê?...  
Lembrei-me... Era uma luta por alforriar certa terra. Uma, que diziam ser santa... Tinha promoção da Igreja e, talvez, tenha sido uma das mais sangrentas batalhas por razões santas. Parece hoje... 
Alguns expunham que aquele que lutasse nelas, seria salvo. Salvo de quê mesmo? De quem? Consigo enxergar a questão da fé cega, faca amolada - no caso seria espada amolada. 
Ouvindo o noticiário sobre essas coisas de fé e de crença, não dá para rememorarmos essa e outras histórias? 
O que ainda faz o homem lutar e sangrar e morrer por tais questões? Que tipo de fé é essa? 
Essas reflexões me fizeram recordar certa passagem. Não. Não é bíblica. Pertence a outro livro, que diz o seguinte: “A fé viva não é patrimônio transferível. É conquista pessoal”. E há outra assertiva ainda mais séria e condizente, que pronuncia: “A fé cega não é mais deste século”. 
Talvez o aflito eu - lírico do poema em questão, tenha alcançado esse fato e por isso tenha desabafado: “É a própria fé o que destrói”. Claro que esse tipo fé destruiria nobre soldado... Pois que não se trata de ser uma fé raciocinada. Até hoje esse tipo de fé devasta... 
Um pouco adiante, poderia ser possível dizer que tal combatente teria encontrado sua própria razão das coisas. De forma a entender que “a fé raciocinada, que se apóia nos fatos e na lógica, não deixa nenhuma obscuridade: crê-se, porque se tem a certeza, e só se está certo quando se compreendeu. Eis porque ela não se dobra: porque só é inabalável a fé que pode enfrentar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade.” 
Então o guerreiro levanta a voz e solta sua exclamação: 

Quase acreditei na sua promessa!
E o que vejo é fome e destruição!

Dizem que o sopro do dragão é o momento em que a consciência ganha força, renasce e se liberta dos seus verdugos. Acorda do sono imposto pelas desventuras de uma alma em servil. Não tenho como comprovar o que escrevo, são coisas que dizem... Mas faria algum sentido. 
Visitou-me a memória, outra passagem. Sim, dessa vez é bíblica: ocorre em Gênesis, quando se diz de um sopro, dessa vez, Divino. O sopro de Deus seria o vivificador do espírito humano: “Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente”. Poderia ser crido que o lutador da canção teria, enfim, desperto daquela servidão e determina: 

Não sou escravo de ninguém, 
Ninguém é senhor do meu domínio. 

A partir de esse despertar, a poesia revela a história do homem que combate numa guerra sem sentido, já que ele próprio diz: 

Quase acreditei, 
quase acreditei. 

O valioso soldado é salvo por sua consciência que desperta, mas não sem marcas dolentes. Não sem desgastes físicos e emocionais. Não sem descrença da fé que lhe divulgavam: 

É a verdade o que assombra 
O descaso que condena, 
A estupidez o que destrói 
 Eu vejo tudo que se foi 
E o que não existe mais 
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende. 

O acordo entre alma e corpo, parece se realizar enfim. De maneira a assentar o soldado à posição de pessoa, sujeito mesmo. Aquele que pode ser responsável por sua vida (ou morte), mas de porte de sua sanidade. 
Não seria bem o que se vê nas guerras (santas...) atuais. Elas parecem continuar as mesmas... Seus “homens” parecem continuar sem força para lutar contra aquele que se deve lutar: ele mesmo. Lutar contra sua própria ignorância, lutar por vida em vez de morte. Lutar para que haja um sopro de vida que reavive suas “almas” ensandecidas - por que mesmo?... 
Ainda que haja tristeza e o cenário seja desolador, o combatente da composição consegue ter fé que: 

... nossa estória não estará pelo avesso 
Assim, sem final feliz. 
Teremos coisas bonitas pra contar. 

Que essa Terra seja aquela que conseguirmos re-construir a partir de nossas novas consciências! 
Olha o sopro do dragão... 

Amém poeta. 

Solineide Maria

Alusões
http://www.institutoandreluiz.org/estudo_sobre_a_fe.html http://evangelhoespirita.wordpress.com/capitulos-1-a-27/cap-19-a-fe-que-transporta-montanhas/a-fe-religiosa-condicao-da-fe-inabalavel/