terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Todos os dias agora acordo com alegria e pena

IV

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.

Antes acordar era abrir os olhos (apenas) sair da cama.

Levantar e sair da cama não é acordar: descobri.

Descobri isso, porque hoje eu amo.

Ter alegria e pena me acrescenta,

Sou maior hoje que tenho alegria e pena.

E posso estar na realidade onde está o que sonho.

E o que sonho pode ser minha realidade

Sem que isso fira meu sonho.

Ainda não sei o que serei sendo eu mesma,

Mas quando ele me diz alguma coisa,

Eu acordo e me reencontro (acordo).

Quem ama (de fato) não é mais a mesma pessoa,

É completa, mesmo solitária.

E mais completa, se acompanhada.


(Trata-se de uma releitura minha, do Livro de Fernando Pessoa: O Pastor Amoroso).

sábado, 25 de dezembro de 2010

Tire a poeira da palavra amor!

Tirar a poeira da palavra amor, Clarice Lispector nos asseverou. Mas como?
É só assim? Tirar a poeira e se aprumar para amar? Lógico que não! Por isso, há que se tirar todo santo (ou nem tão santo) dia. Ir tirando até o fim, que segundo meu professor de tudo (Clinio Jorge) não existe.
Tirar a poeira da palavra amor ação, é desembainhar a vontade de se melhorar, de se ampliar: de amar, de fato. É abrir espaço para o AMOR e não para esse amor, esse amor... qual mesmo?
É sangrar fazendo o exercício do amor, do amar na cadência das vinte e quatro horias do dia.
Não é fácil, mas Rilke, brilhante ser humano e poeta (e vice-versa) disse, que por isso mesmo, o ato de amar já é Divino, porque não é (mesmo) fácil.
Tenho tentando tirar a poeira da palavra amor, às vezes dá certo (penso). Algumas vezes, falho. Mas não porque sou humana falho porque é natural falhar, sendo deus pequeno, Deus grande ou um Zeus qualquer...
Agora o que não se pode é desistir de tal aventura de ação (ação de AGIR).
Então, peço a Deus que me ajude a tirar todo dia, a poeira da palavra amor e da vontade que tenho de fazêlo.
Um beijo em todos os meus leitores e sugiro: faxina todo santo dia (e nem tão santo assim) na palavra amor!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

PROFECIA DESPEJADA

Deixa eu dizer...
Os favelados aos montes estão por aí,
entrando nos lugares mais recônditos.
Por aí também, a indiferença ampara
os descontentes.

Nenhuma novidade.
Mas ao fundo existe uma mensagem,
e se lermos com carinho,
quase explícita.

Deixa eu dizer:
a vida organiza a virada aos poucos,
mas aos montes,
as mudanças invadem os lugares
e sobretudo as pessoas.

Dos moradores de casa de papelão,
pode vir a solução.
Dos que comem restos (sobras)
virá a comoção do Amor Divino,
espalhará luz cintilante.

Avante.

Dos ombros dos que carregam
além de pedras, sonhos:
desses ombros haverá de aparecer asas,
na força de um novo homem
"numa velocidade estonteante".

Deixa estar.

Plantai vida nas crianças,
são os homens a seguir.
E saiba:
a angústia pode comer
as horas vazias daqueles que sujam o dinheiro.

Deixa eu dizer:
dos que saem às 3 da matina,
vai aparecer o homem que mudará...
Então a límpida mudança há de reinar
e o sol do AMOR há de raiar.

Deixa estar!...


Solineide Maria
2003


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Duvidazinha

O dia trouxe umas lembranças
e acordaram alguns questionamentos.
Talvez, por causa do vento.
Ele disse umas palavras confusas
sobre frio e secura.
O frio me recordou a sua ausência
(falta).

Um não sem palavras.
Esse tipo de negação é muito duro.
Dói feito açoite.
Corta, mas na alma.
A janela um pouco aberta escancarou,
de súbito,
com a força de uma rajada.

O vento quis trazer minha sanidade?
Por isso, acordou meu pensamento
Teria sido isso?
O dia trouxe umas lembranças que acordaram,
em mim,
alguns questionamentos.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Máquina


O filme de 2006, chamado A Máquina, (Estúdio Buena Vista,) trata-se de um excelente romance de Adriana Falcão, que abriu um oceano de possibilidades em minha cabeça. Poderia escrever um estudo, uma análise sobre a questão do amor, do tempo, da razão e da loucura...

O filme foi um brilhante que luziu na velha TV e DVD também antigo. O que nos importou (e importa) é a mensagem, e, nesse caso, a mensagem são as mensagens.
As interpretações luxuosas de Paulo Autran, Wagner Moura e Lázaro Ramos (os dois ainda desconhecidos na época), mais Gustavo Falcão que faz Antônio o protagonista da trama, que tenta levar o Mundo para Mariana Ximenes, que faz Karina, uma moça com intenção de partir de Nordestina, para ir encontrar o Mundo. Afinal, Nordestina (cidade fictícia – no fim do mundo) não tinha nada para oferecer aos seus habitantes.
Há "um mundo de nordestinos" que estão no filme, inclusive Osvaldinho Mil de Itabuna) que faz o pai de Karina.
Aliás, que Osvaldinho Mil elenca um monte de filme bom, entre eles Nosso Lar (2010), outro sucesso do cinema brasileiro. E a gente “sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo” (trecho do conto A Máquina Extraviada de José. J. Veiga).
Trouxe esse trecho do conto de José. J. Veiga – A Máquina Extraviada – porque inicialmente pensei que fosse algo sobre tal conto, mas não era. Mesmo que não seja, fiquei imaginando essa máquina do tempo, que Antonio (do filme) engenhosamente diz que funcionará para que viaje cinqüenta anos no futuro, e traga para sua amada, novidades de lá, como essas máquinas que a gente tenta inventar para fugir do marasmo costumeiro que a humanidade nunca se desvia. Talvez, porque nunca nos damos conta de que a boa novidade é calma, discreta, quase invisível: “é preciso ter olhos de ver.”

O filme é muito bonito! O figurino de Kika Lopes, a fotografía de Walter Carvalho e Marcos Pedroso dirigindo a Arte. Nada mais ilustre do que a música belíssima de Chico Buarque: “Porque Era Ela, Porque Era Eu". E tem uma composição de Flávio José, que ficou lindíssima na voz de Prazeres Barbosa “a diva do teatro pernambucano”, chamada A natureza das coisas, que abençoa o filme com muita luz:
“Amanhã pode acontecer tudo Inclusive nada
Se avexe não A lagarta rasteja até o dia
Em que cria asas
Se avexe não
Que a burrinha da felicidade
Nunca se atrasa
Se avexe não
Amanhã ela pára na porta
Da sua casa.”
A Máquina não é um filme, é uma tarde de prazer em ver coisa boa, ou uma manhã, ou uma noite... É um romance tão bom que virou teatro, filme, resenha.

A Máquina é o Brasil dizendo que Cinema Brasileiro é assim: tem conteúdo para mais de um ator, tem para mais de Mil. E que cresce todos os dias e deixa a gente com sensação de preenchimento e não de esvaziamento, que às vezes é bom, mas não sempre...
Vamos encerrar por aqui, porque dizer demais de uma coisa é não dar acesso ao outro para sentir o prazer da descoberta.

Solineide Maria

Recebi um e-mail de amor (um sonho...)

Recebi um e-mail de amor.
dizia coisas tão bonitas,
Tão bonitas
que nem sei transcrever.
Dizia assim
umas palavras que luziam,
que riam,
que brincavam...

Dizia que às vezes
o amor é esconderijo
de quem não ama.
Dizia que,
muitas vezes,
o amor,
é vontade de amar,
por isso nos enganamos tanto.

Fiquei triste com essa parte.
Por que então continuar,
Já que se sabe que não é amor
é vontade de amar?

Eu amo.
Sempre amei você,
mas não havia,
ainda,
lhe encontrado.

Recebi esse e-mail de amor
e não dormi mais.
Fiquei lendo, relendo,
acabei dormindo na frente do monitor.

Sonhei que havia recebido um e-mail
desdizendo aquele e-mail de amor
tão bonito.
Dizia que amor é coisa inventada,
porque os homens estavam impossíveis...

Para tal foi inventado o amor:
para adestrar o ser.
Eu lia e lia e não acreditava.
Dizia que amor é isso:
uma invenção em favor
da humanidade.

Mas que a humanidade
ainda não ama
como deveria ser feito.
A invenção estava falhando.
Dizia...

Eu lia e lia e não acreditava.
Acordei no meio da casa.
Devo ter perambulado pela casa
sonâmbula que sou:
atrás de alguma resposta,
uma, que me animasse a ideia do amor
daquele amor, aquele,
do e-mail inicial. Do e-mail de amor.

Eu prefiro o e-mail de amor que recebi.
Eu prefiro amar, ainda que
nunca receba um e-mail de amor.

SOLINEIDE MARIA
(Foi realmente um sonho)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Está alta no céu a lua e é primavera (outra releitura bobinha de Caeiro)

II
Está alta no céu a lua e é primavera.
Penso em ti e dentro de mim fico melhor.
Uma sensação de esperança de que serei feliz
Visita minha alma.
Será mesmo?
Será que amanhã serei feliz?
Afinal, acidentes acontecem. Então que seja comigo
Esse acidente de ser feliz neste mundo,
Que dizem que não é o mundo da felicidade...
Amanhã você virá?
Faremos uma festa para as coisas de minha sala?
Amanhã meus livros serão lidos?
Ai meu Deus, amanhã, então,
Será oportunidade privilegiada de ser feliz
E ser amada
E amar?

Quando eu não te tinha (releiturinha bobinha de Pessoa)

I
Quando eu não te tinha
Gostava das coisas comuns.
Visitava as chácaras onde ainda existia algum verde,
Ficava vendo TV até tarde.
Ai, ai...
Acredita em Deus e lia meio livro
Por ano.
Quando eu não te tinha,
Saía todo santo e demoníaco dia
Para beber no boteco da esquina.
Era muito bom.
Não estava nem aí para os problemas ambientais,
E que tais da contemporaneidade.
Hoje eu não sei...
Não sei mais o que quero, quereria
Da vida.
Não tenho mais jeito com a TV,
E fico embasbacada até, com a morte de uma mosca,
De uma formiga.
Hoje os rios são minha preocupação diária,
Fico tonto só de pensar:
Meu Deus e as crianças que virão?
Ao teu lado fico feliz,
Feito Santa Clara ao lado de Francisco de Assis.
Hoje a vida tem muitas cores,
Muitos sabores...
Tem dores também, mas não quero mais
O que fui antes.
Quando eu não te tinha.

A Poeta Amorosa é uma pretensão de escrever coisinhas bobinhas, a partir das leituras de O Pastor Amoroso de Fernando Pessoa (Caeiro).

Solineide Maria de Oliveira

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

PESSOAL:
Férias enfim!
Daí que estou lendo o que não é obrigatório. rs Leitura por prazer, dessas que a gente lê e sai e volta. Não temos que entregar resumos, nem fichamentos, nem escrever artigo, nem resenhar. Ai, ai... que delícia!
Estou botando em dia a leitura de livros enfileirados na mesinha de madeira gasta. Tadinhos... estavam, já, empoeirados, mas calma meninos e meninas, estou aqui e tenho olhos (de ler) para todos vocês.
Comecei olhando cada um, a carinha de Carlos Drummond assim, cabisbaixo. De cabisbaixo ele não tinha nada, uma figura dessas que andava como quem flutua no universo de muitas produções maravilhosas.
Tem um cara que tenho mais medo: Pessoa. Fico trêmula sabe. É que esta criatura me deixa em fiasco total, pois sua leitura me acende umas questões que não me deixam descansar à noite. Drummond me faz isso também, mas parece que Drummond não me cobra as respostas assim, na lata. Pessoa fica me olhando na sala, na cozinha, na hora do banho. Como quem diz: e aí moça, cadê a resposta? E eu sem dizer palavra.
Clarice e Lygia consegui ler enquanto estava no Curso. Mas retornarei, desta vez, porque as amo. Porque as amo e levarei comigo para sempre, por toda minha vida. Estão atrás de Marina Colasanti que apoia Adélia Prado.
Adélia Prado é uma paixão de 2000. Comecei a ler e falei assim: meu Deus onde eu estava que não havia lido esta mulher? Foi um achamento! Li e reli muitas vezes o seu Bagagem, mas não me devolveram o exemplar que emprestei animada. Coitadinha de mim... E dela, que ficou perdida entre uns livros que jamais saíram de lá. Sabe desse pessoal que quer o livro, mas não lê? Pois é...
E tem uns livros tipo Best-Seller, que o pessoal da Academia critica demais, mas que ajuda muita gente a adentrar-se no mundo da leitura. Não entendo porque criticar a leitura alheia. Uma vez me disseram que tem que ler coisa boa. Meus Deus! O cara (ou a moça) já está lendo, depois a gente fala sobre o que é bom, ou ruim. Se é que eu tenho esse direito...
Pois, pois, e tem as monografias (que viraram TCC) que devo começar agora nas férias. Lógico que seguirão a ordem de minhas leituras por prazer. Depositarei aqui, poemas advindos da leitura de todas elas.
Ah! E tem a Cora Coralina meu Deus... que é uma criatura linda e cheia de paz. Escreveu com a intensidade de uma anjinha infante, dessas que volitam pelos céus de nossas buscas. Palavras lindas, lindas, como as que li outro dia:

Se temos de esperar,
que seja para colher a semente boa
que lançamos hoje no solo da vida.
Se for para semear,
então que seja para produzir
milhões de sorrisos,
de solidariedade e amizade.
Cora Coralina

Um abraço feliz! Por estarmos de férias e por estarmos lendo (por prazer). rsrs

Solineide Maria

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

ABRAÇOS NEGADOS

De tanto procurar por um abraço
as pernas não conseguem mais
(eu acho)
andar por longas horas,
sem tropeçar no vão
das horas nuas.

Abraços!
Oh abraços muy sinceros!
Onde estarão suas boas energias?
Abraços, meus abraços esperados:
existes?
Exististes?
Serei tua?

Para Simone Paulino, que é poeta e escritora e publicou um belo livro intitulado: Abraços negados.
Um abraço Simone!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

D'O Livro da pessoa que Desassossegou (de Solineide Maria)

Sou um poeta sozinho que não sabe escrever.
Vivo apenas. Ou nem isto.
Sou um cidadão qualquer,
Ouço vozes, silencio...
Sou isto? Ou nem isto sou?

O que tenho aprendido?
Tantas vezes me detive num estudo muy frágil:
Procurar em mim, eu mesmo.
Não consegui. Não consigo responder.
E essas cartas...
Tolo, idiota, homem comum!

Já quis ser companheiro, não consegui.
Lutei com alguns sobre questões.
Mas palavras não resistem
Contra a verdade cotidiana,
Pouca e pequena.

É preciso comprar pão, carne, leite,
Pagar o aluguel, o café e a puta.
É preciso ter mãos para o trabalho.
Escrever poesia?
Ora! Vá trabalhar!

É preciso se apaixonar e mentir,
E dizer coisas banais.
Ninguém entende os que não amam comumente.
É preciso dançar a dança comum.
É preciso escrever o que os outros possam entender...
É preciso, sobretudo, se fazer entender feito todos esses outros.

Sou um poeta cansado.
Acordo, levanto, desjejum.
À tarde. À tarde. Atado.
Um ataúde a tarde em mim.

A Noite sim, me consola.
Bela, educada, sincera.
Revela em mim o silêncio que não sei
(nunca soube)
Definir.

A Noite dança comigo. Diverte-se,
Ri e me abraça muitas vezes.
É um abraço generoso. Não o mereço.
Ela é tão boa comigo, e eu, sofredor de mim,
Minhas dúvidas... Escrevo apenas poemas
Sem utilidade.

Para que serve um poema?
A Noite me perguntou um dia.
Eu, talvez mais pueril do que idiota, respondi:
Não sei.
Para desassossegar, falei depois.
Ela sorriu me abraçou e saiu.

Amanheci cansado, sonolento e sedento. Com a pergunta da Noite a me perseguir os passos. Para que serve um poema? Num dado momento, para descansar a voz. Pode ser não pode? Cansada já, às vezes nem ouvida, o poema talvez, tenha tal utilidade. Descanso para a voz. Depois, vendo um velho no jardim da praça, olhar perdido... Refleti que aquela pessoa, se pudesse, poderia se alegrar com um poema (a depender do teor da obra escolhida). Um poema, apenas um poema, basta, muitas vezes, para asseverar sobre uma vida inteira. Para quê meu Deus?! Serve para se ficar calado? Para não ficar calado? Agora devo parar. A vida bate e a hora é dos operários voltarem para cassa. A Noite com suas mãos indispensáveis espera, lá fora, por todos nós.
E eu, que sou um poeta sozinho,
Que não sabe escrever, preciso muito dessa minha amiga.
Levarei para ela, tais respostas possíveis,
As que consegui abranger,
Sobre a utilidade de um poema.
Ela dança comigo e é tão bom.


Solineide Maria
Este material está para ser publicado... Chama-se por enquanto: O Livro da pessoa que Desassossegou.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Interesses

Não analisar.
Não julgar.
Não desperdiçar palavras.
Não cometer o crime de des-amar quem quer que seja.
Não arriscar de menos.
Nem de mais.
Não ser a moça que tapa o vazio de uma noite sombria.
Não decepcionar minha poesia.
Conhecer e reconhecer amigos.
Amar e ser amada.
Aprender a amar amando.
Aceitar os que não gostam de mim
Ou de minha poesia.
Ser feliz.


sábado, 11 de dezembro de 2010

Do Diário de uma Virgem Louca

Em verdade, em verdade te digo que sei que o meu som não causa nada em teu olhar.
Que é difícil, por dentro, nos unirmos. Bem, assim, por fora.
Em verdade, em verdade te digo que não aprendi ainda a me conformar com pouco. Por isso, tanto evoco por ti.
São palavras sem som, eu sei. Mas o que é palavra? E o que é som?
Em verdade, em verdade estou repleta de sins. Preciso aprender a ficar plena de nãos.
Em verdade, em verdade, não é pecado ser tentada, mas é preciso erigir barreiras.
01/08/2020

Solineide Maria
(livro em apreciação por editora)

domingo, 28 de novembro de 2010

Oswaldinho Mil não perde o tempo de encantar em cena

O tempo é invenção dos vivos. Serve para marcar momentos em que se foi alegre, triste, corajoso, covarde, frágil, forte.
Serve para marcar o quando, mas aonde se esconde o presente? O presente não existe, quase. Chega e passa... passou.
O tempo é assim, ansioso. Determinado em ir embora, ir embora, fugir. Deve-se por isso, ter precisão, marcar aquilo que se quer fazer, ter, ser, não ser. Ou ter e não ter, ser e não ser.
O Espetáculo de Oswaldinho Mil, ator oriundo de Itabuna, filho mais que pródigo, traz ao palo do Centro de Cultura, uma discussão filosóficosentimental sobre a questão do tempo.
Não é para rir não. E, talvez por isso, eu o tenha abraçado em minha alma. Precisamos refletir um pouco, precisamos parar de rir um pouco. Precisamos "descarnavalizar" os espetáculos, um pouco.
Não sou contra as peças de humor, jamais. No entanto, é preciso que se tenha a medida sobre as coisas, sabe. Por exemplo:
Oswaldinho fala do tempo que não aproveitamos. E aí? Você pensa sobre isso? Deveria. Deveríamos meus amigos, porque o tempo é ferramenta única. A gente vem e tem apenas aquele exemplar único: "você viverá 80 anos"; "você viverá 50 anos"; "você viverá 35 anos". Daí, que o dinâmico ator pondera, assevera e instiga sobre esse tempo pre-determinado por um Deus que "dizem" existir.
Oswaldinho fala sobre a vozinha que escutamos, aquela que nos indica caminhos. As decisões às vezes em curvas de mais de dois caminhos: encruzilhadas da vida. "Não gosto quando tenho três opções", diz o ator, segurando três copos, momento no qual deve escolher um, para medir o leite, na preparação do bolo.
Cozinhar um bolo em cena, tem uma originalidade múltipla. Remete-nos (a mim me remeteu) ao tempo de infância, quando achava que minha mãe era mágica. Eu não sabia que ela administrava o tempo do cozimento do bolo. Eu pensava isso, que ela, magicamente sabia do tempo certo.
O Espetáculo chega no momento em que ele diz sobre um encontro delicadíssimo: o seu encontro com Dona Clarice, uma senhora amiga de sua avó, num asilo. Essa senhora, delegada aos cuidados de outrens e outros, declara ao visitante inusitado, que se sua avó fosse viva, ela não estaria num asilo. Foi aí que chorei. Ele me acertou. Vi naquele instante que ele não havia aproveitado daquele tempo, tanto quanto deveria.
Por que não voltou no asilo? Por que? Mas quantas vezes nós outros, também deixamos passar o tempo de se dar.
Um amigo meu disse certa vez: "Soli, sinto muito ter desperdiçado o tempo ao seu lado". Isso se deu quando voltei de São Paulo, para Itabuna. Foi num telefonema emocionado que ele me desabafou essa fala linda, linda.
Oswaldinho, eu não sou crítica de arte. Fui tocada, apenas, por sua arte. Bom demais saber de você entre nós, enriquecendo nossos finais de semana com um texto tão profundo, quanto poético. Ou vice versa?
Um enorme abraço,
Em tempo...
Solineide Maria

p.s. Vá ver Oswaldinho em seu Espetáculo hoje, 28/11/2010, às 20:00 no Centro de Cultura Adonias Filho.

domingo, 21 de novembro de 2010

"O amor só começa a desenvolver-se quando amamos aqueles de quem não necessitamos para os nossos fins pessoais."
E.Fromm

Achei tão bonito isso... Lembrei de Saramago.
Aliás sei tão pouco de tudo. É uma leitura que faço... Vejo em Saramago mais Deus (esse que inventaram - dizem) do que os tantos religiosos e "crentes" que já vi e conheço.
Saramago se aproxima de Madre Teresa,Gandhi,Santo Agostinho e do próprio São Francisco. Digo, em questões filosóficas.
Sei que o transcendental em Saramago é o "aqui e o agora". Embora a Metafísica seja bastante interessante (opinião).
Fiquei envergonhada ontem. Minha fala (na sala de aul sobre O Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago) ficou como se fosse pueril demais. E eu nem havia terminado.
Li hoje isso e lembrei de ontem, de Saramago, de Deus, das cegueiras da gente, que nem vê que o outro fica triste, cala e sai.
A gente já ensaiou demais a bondade de ser menos gente e mais humano.
Precisamos praticar a humanidade!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

EU NÃO SEI CONTAR POEMA

Eu não sei contar poema
Me perdoe.
Não sei mesmo escrever um
É tudo trama.

Eu não sei ler um poema
Me desculpe.
São eles que me dão
Leitura e amor.

Nunca soube também
Amar direito.
Disso, creio, já te disse
Mas repito.

Tenho mesmo muitas falhas
Mas suplico:
Tende piedade de mim
Rogai por mim.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Carta para Paulo Freire

Paulo Freire:

Você não me conhece.
Sou uma dessas pessoas comuns, que desfilam pelas ruas, muitas vezes, ensimesmadas, pensando suas impossibilidades.
Ainda não sei o suficiente para me dizer intelectual. Ainda não sei ler direito, não sei escrever direito... Embora esteja cursando uma licenciatura numa universidade pública.
Moro numa cidade do interior do sul da Bahia, no Brasil que você amou. Ainda não sei o que farei quando terminar o Curso. E na condição de estudante, devo permanecer. Mas acho isso bom, porque me desviará da possibilidade de virar uma dessas pessoas que retesam o “pouco” saber a que tiveram acesso.
As suas falas ficam me pedindo reflexão... E, por isso, talvez, não tenha parado. Por isso, talvez, com 36 anos, tenha superado algumas pessoas, alguns pesadelos e muitas barreiras gramaticais.
Por isso, por saber que sou um ser inconcluso, por saber que sou mesmo inacabado (fissurado até) graças a essa certeza, devo ter seguido.
Peço que nos ajude a termos essa consciência para sempre, a de que somos seres condicionados. Peço que guie nosso entendimento para tal verdade, e que nos ampare quando estivermos sucumbindo aos monstros da antipatia, do pedantismo, da ignorância que fazem com que alguns creiam que sabem mais do que o outro. Pois como você asseverou, estamos todos nos inserindo no mundo, a todo o momento.
Peço que nos ajude a chamar o outro para a consciência de tal inacabamento. E que este tenha vontade de buscar um acabamento possível até o próximo, e próximo e...
Porque nunca se está pronto e acabado.
Nada é imutável.
Amém

Carta

Itabuna, 09 de março de 2010.

Professora Marialda:

Ao falar o que mais me tocou com relação à Língua Portuguesa nos anos de escola, não podia deixar de fora um lado importante dela, que, em geral, na contemporaneidade, parece sofrer muito preconceito: meus primeiros anos de escola. Esses anos, que vão da primeira à quarta série, são hoje pertencentes ao Ensino Básico.
Naquele tempo, as escolas de maternal até o pré-primário eram chamadas de escolinhas. Eu e meu irmão frequentamos juntos durante seis meses apenas, tempo em que meus pais puderam arcar com tal despesa. Mas não foi nada demais ficar pouco tempo ali, já que minha mãe, com apenas sua quarta série do primeiro grau de escola rural, havia nos alfabetizado.
Conhecíamos as letras do alfabeto e os números. Conseguíamos escrever nossos nomes e ler algumas palavras. E mesmo não tendo decorado a tabuada, já conseguíamos resolver as operações mais elementares.
Foi assim com os seis filhos. Minha mãe alfabetizou todos em casa. De modo que fica difícil entender como hoje, pais – alguns até “doutores” – podem ter filhos tão dispersos e, muitas vezes, avessos à educação, atividades de escola, caderno, caneta, lápis e borracha, livros. Não sei se exatamente qual a ordem.
Achava minha mãe muito sábia, porque a maneira como trouxe a cartilha para nós e nos fez codificar cada palavra, depois pequenas palavras, era, para mim, algo de alto nível.
Sua estratégia de nos ensinar resumia-se a um pedaço de papel, geralmente aquele de embrulho, papel-madeira de enrolar bisnaga de pão (popularmente conhecida como bengala) ou outro qualquer quando não havia aquele, que rapidamente ela obtinha nas gavetas do armário da cozinha. O papel era furado ao meio, e ela o arrastava nas letras, tapando o desenho do bicho ou da coisa que, na cartilha, indicava a letra, e, em seguida, perguntava-nos “que letra é essa? E essa”?
Lógico que, quando chegávamos ao nível do pedaço de papel fendido ao meio para a codificação das letras, já havia repetido conosco, inúmeras vezes, a cartilha todinha. Pois sabia, do alto de sua sabedoria de mãe alfabetizadora, que a repetição nesses casos era indispensável.
Falar de minha escolaridade, sem falar dessa parte importante da alfabetização que tive por parte de minha mãe, seria não alcançar o que, para mim, significaria achar o caminho, o encontro com as palavras, com a significação da escola e tudo o mais. Resumindo: um enorme encantamento.
Quando cheguei à Escola Agrupada Ozanam, para a primeira serie do primeiro grau, a professora Celeste notou algo diferente em mim. Percebeu que eu já detinha um conhecimento maior que o dos colegas. Observou que terminava rapidamente as atividades, e que o dever de casa, muitas vezes, nem chegava a ir para casa. Então, decidiu fazer uma sabatina e prova escrita comigo e, em seguida, transferiu-me para a segunda série.
Foi uma experiência inesquecível: ela pegou minha mão e disse: você hoje vai para a outra sala. A outra sala era maior e, embora os alunos tenham me chamado baixinho de xereta, não liguei.
Gostava mesmo, muito, da professora, pois, apesar da maneira firme com que me tratava, era atenciosa, solícita, e, isso, em minha opinião, era característica importante para uma professora. Aliás, era assim com todos os seus alunos, a implicância deles comigo durou pouco tempo.
Professora Celeste passava atividades diárias para casa. Recheava os cadernos com todo tipo delas: separação de sílabas, descoberta de palavras e sua escrita nos quadros, formação de palavras e interpretação de textos que ela copiava de outros livros e mimeografava para nós. Foi dessa forma que conheci Carlos Drummond de Andrade. Naquele tempo, achar palavras escondidas e ler Drummond quase significaram a mesma coisa.
Minha professora, naqueles saudosos anos, já era o que chamam hoje de professor leitor. E melhor, trazia para a sala as suas leituras, escolhia a dedo, suponho, pois, éramos suburbanos, não tínhamos acesso a muita leitura de livros. Penso que ela lia, mas a emoção que se fazia depois da leitura desse ou daquele texto é que decidia: esse eu posso levar para meus alunos.
Da primeira à quarta série foi assim, um achamento, um encantamento, um sofrer com a matemática, com artigos indefinidos, com o enigma que eram (são) os substantivos, suas classificações e gêneros... Normas e regras...
Passar para a quinta série foi um desespero, ao mesmo tempo uma inquietação boa. O que viria? Deixar professora Celeste foi o mais difícil. Mas a vida segue e foi e vai ser assim para sempre.
Não era mais uma (a “minha”) professora. Agora eram várias (os) e, de certa maneira, nenhum (a)... Mas a vida teria de seguir. Havia de adquirir outras informações, o mundo da escola com mais de quatro salas, mais de uma professora e mais de um horário. Com o tempo pude vencer isso tudo. O que não consegui ultrapassar foi a diferença com que a professora de Língua Portuguesa lidava com seu ofício.
Foram muitos dias escrevendo cópias, muitas tardes perdidas, muita desilusão, muito entrave. Ela, muito indiferente, tomava café com rosquinha na Sala dos Professores, via a revista AVON, comprava calcinha, sutiã, cangas, requeijão, mel de garrafa e tudo o mais que alguma mocinha ou senhora vendedora, arranjada por algum professor da turma dela, levasse, para tais figuras verem, escolherem e contraírem.
Não sei se meus colegas ficavam felizes. Da minha parte, ficava extremamente triste e preocupada. Triste por notar que aquela professora não conseguia ser um diferencial em nossas vidas; preocupada porque sabia que meus textos seriam marcados por esse travessão.
Não sei dizer de nenhuma atividade marcante nesse período. Lembro de ouvi-la falar sobre análise morfológica, mas era tão de soslaio e sem aviso que, na maioria das vezes, ninguém escutava, creio. Nem redação solicitava. Certamente, também acho, para poupar-se ao trabalho de corrigi-las, já que teria de grifar, sublinhar palavras escritas de maneira inadequada para a gramática normativa, conteúdos diversos, criatividade etc. Passemos...
Na sexta tive a surpresa mais desagradável de minha vida. A professora da quinta série seria a mesma da sexta série... Já pensou? Tudo igual, cópias e leituras em voz alta, interpretações sem comentário por parte dela, nenhum acréscimo. Nada.
Procurei professora Celeste para que me orientasse sobre o que fazer, mas ela havia se aposentado e estava em Salvador. Havia de solucionar aquilo, o que poderia fazer? Não admitiam reclamar de professores na Secretaria. Em minha vida escolar, mais um ano a menos na Língua Portuguesa.
De tal maneira seguíamos. Segui. Debrucei-me, então, nas outras disciplinas, elegi Educação Artística como minha predileta e adotei a saudosa professora Terezinha como minha conselheira em leituras. Foi muito bom, a sexta série decorreu, feito tudo, mas é claro que carregaria essa falta de jeito com acentos e grafias, análises e afins.
Até aqui deu para perceber que o que havia conseguido com Celeste era o que permancia vivo em mim. Minha cara professora do Ensino Básico, aquela que me apresentou o mundo da leitura e da literatura. A que mandava atividades de férias para casa, umas dez folhas mimeografadas, com atividades de gramática e interpretação de textos. Meu Deus, quanto esmero. Ela asseverava que era pra gente não voltar enferrujado.
Professora D’Ajuda não sabe, não lembra, mas foi minha professora na sétima série. Eis uma das dificuldades de minha vida: uma professora do barulho, depois de dois longos anos de total nada em Língua Portuguesa.
Muito empenhada, D’Ajuda fez o que não pôde, revisou muita coisa, mas não dava para revisar tudo, senão, teria de nos colocar a todos na quinta série de novo. Muito corajosa, levou-nos até o fim do ano. Muitos foram para a recuperação, alguns repetiram a série e eu passei de raspão como diziam: arrastando a barriga no chão.
Mas aí a senhora poderia objetar: e por que não estudar em casa? E eu lhe responderia: não dava! Era babá nas horas vagas. Família grande e sem muita condição, trabalhávamos cedo, no que desse/pudesse. E livros eram raros, inclusive os didáticos. Mas não parei de ler, sejam os emprestados por Celeste, sejam, depois, os de Terezinha.
Do oitavo e últimos anos não lembro quem foram meus professores e professoras. Mas creio que nada mais iria mudar a falta de braço, de perna e de pulmão na minha vida devido ao fato de ter sido “aluna de ninguém” na Língua Portuguesa. Dizendo melhor, não recordo nada de extraordinário vindo da parte deles. Porém, pensando melhor, creio ter havido uma, na oitava série, primeiro ano se não me falha a memória. Ela tentou entender como eu escrevia até razoavelmente sem saber direito gramática. Recomendou-me, então, um curso depois de findo o tempo escolar...
E foi o que fiz. Uns dois cursos, li e leio mais, escrevi e ainda escrevo mais um pouco, incluindo cartas. Até hoje, levo a sério essas atividades por me serem prazerosas.
Peço-lhe desculpas por não trazer lembranças mais dignas da Disciplina de Língua Portuguesa nesses anos de Fundamental e Médio.
Como cheguei até aqui? Cursos, leituras, que me estimularam a escrever sempre mais: crônicas, poemas, cartas. Conservo até hoje paixão por textos. Eles, talvez, tenham sido o caminho (sinuoso) pelo qual venho alcançando meus objetivos. Isso, embora em andamento, já me é muito gratificante.

Eu te amo tanto e não te digo (para o amor que virá)

O mundo pede homens muy da carne
E tenho pouco a oferecer:
Talvez um quadril, uma perna
Uma coxa, uma costela...

Talvez mãos que sabem aquecer.
Talvez olhos, não, olhos não.
Pois estes mais atiçam que enternecem
A fome de viver.

Eu te amo ainda que não saibas.
Ainda que de longe estejas, homem,
Fitando minhas pobres rimas fáceis,
Ainda que não queiras recebê-las.

Saiba, no entanto, que te escrevo,
As melhores palavras que existem
Dentro do meu peito de menina
E de mulher que nasceu para amar.

Para amar e nunca escutar
A frase verdadeira pronunciarem:
Espera-me amada vou contigo!

Inda assim te amarei mais um instante.
Seguirei tuas estradas, os teus passos,
Estarei ao teu lado e do teu lado.
Inda assim te amarei mais um instante.

Se um dia fitares minha face,
E perceberes minhas flores castas,
Meu vestido de algodão alvo e limpo,
Meu cabelo penteado com carinho.

Se um dia fitares minhas faces,
Meu pote de barro cheio d’água,
Minha mesa e tamborete
E meu sorriso...

nota: ONDE VOCÊ ESTÁ? 
ONDE VOCÊ, VERDADEIRO AMOR, 
ESTÁ?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

De nada adianta amar errado

De nada adianta amar
e não abrir mão
e não dar a mão
e não,
não, não, o tempo todo.

ALGUMAS PALAVRAS À POETA SOLINEIDE MARIA E, SEUS LEITORES.

Em 1999, vivia eu em Porto Seguro, quando pela enésima vez, uma amiga de Itabuna que por lá também vivia, disse-me que eu precisava conhecer Solineide Maria de Oliveira; a amiga foi insistente, disse que Soli... isso; Soli... aquilo; que era uma poeta sensível, que tinha uns escritos interessantes, que era gente boa, enfim... foi convincente.

Feito o contato, Soli e eu, iniciamos correspondência... eram trocas de cartas, poemas, visões de mundo, opiniões, até queixumes eleitorais; ela em Itabuna, eu em Porto, e a internet e os Correios fazendo a ponte.

Fui conhecê-la pessoalmente, apenas, em 2001; quando, de retorno à São Paulo encontrei-a na Estação Paraíso do Metrô e, a essa altura, já sabia que tinha diante de mim uma pessoa especial, uma amiga, uma poeta madura, lapidada, pronta para os leitores.

E hoje, passado tanto tempo de uma amizade sem declínio, meu desejo de estar presente neste momento especial, se realiza através deste texto de homenagem.

A verdadeira poesia não carece de grandiloquência, de artifícios pirotécnicos, nem de ataviados rebuscamentos. Lhe basta ser simples, vir da alma, comunicar a vida e, ter uma linguagem correta. E é assim, a poesia de Solineide Maria.

Soli, escreve com a simplicidade de quem fala; mas, não se engane o leitor, ao contrário do que possa parecer, permeando seu estranhamento diante do mundo, seja perguntando ou respondendo, sua poesia desnuda as relações humanas e propõe outros rítmos, outros sonhos à vida de quem a lê.

A poesia de Solineide fala do encantamento. Não está engessada pela métrica, pela rima ou pelas formalidades poéticas; é simples como um beijo; no entanto, sua prosa alegórica, sua amorosidade, suas inquietações, sua perplexidade diante da vida, e sua densidade, propõem outras leituras, outros entendimentos. O “Mar” ali, pode não ser mar, e a distância pode ser aqui, ao alcance de um abraço. Vista, assim... com outro olhar, a poesia de Soli é multipla e vária. E diversa, é sua forma de olhar o mundo.

Já disseram que a atitude de ler, é uma tentativa -uma vontade- de interpretar o mundo, e escrever, é a pretensão legítima e transcendente de transformá-lo; portanto, poeta, é na distância deste imenso mar que é a vida, aqui tão perto, que te saúdo, e deixo, aqui, o meu fraterno abraço.
Parabéns, pela nova empreitada! Sucesso, sempre!

de São Paulo: Zé Carlos Batalhafam

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Da apresentação

Tensão
tensão
tensão...

São tensas pessoas,
tesas pessoas,
não são
intensas pessoas

que avaliam...

Desprezam
humilham
retesam.

Na maioria dos casos.

domingo, 31 de outubro de 2010

Gula

vontade sem freio
de encher a carne
de dar peso ao corpo
de inchar,
de inchar,
até explodir deste mundo!

(Do Livro dos Poemas Pesados
em análise para publicação)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Depoimento de Clinio Jorge de Souza sobre a autora e seu livro Ali longe no mar

A princípio você me pareceu frágil, tímida e eu esperava de você o que espero de meus alunos, pelo menos no começo dos nossos encontros: algo assim mais ou menos que vai aos pouquinhos criando jeito de texto, tateando, germinando.

Porém, você me surpreendeu logo com sua força estranha, de uma forma muito agradável. Passei a ter prazer ao ler seus textos, fosse o que fosse o que lhe pedisse. Hoje sei de suas crônicas, poemas, crônicas poéticas, enfim até daquele seu artigo que escapava, sempre que podia, para a praia poética.

Não posso estar aí ao vivo, mas creia, Solineide, estou aí em espírito (ainda que vivo, que fique bem clara a metáfora...). Para lhe dizer da alegria de tê-la conhecido, participado um pouco de sua vida poética, dividindo com você leituras, textos, impressões. Foi muito gratificante ter sido convidado a deixar registrado em seu delicado livro um pouco do que penso de você e da sensibilidade dos seus viceversos. São mesmo vices e versos porque falam de mais de uma coisa ao mesmo tempo, palavras-dupla-face, simples por fora mas complexas por dentro e por debaixo, que falam-não-falando.

Só, Sol, Soli, obrigado por existir e escrever coisas que nos tocam.

Que seu livro se espraie por muitos cantos e encante a muitos.

Boa sorte e um beijo saudoso do seu amigo de sempre,

Clinio Jorge de Souza

Eu e professor Odilon. Segundo semestre de 2008.
Obrigada por tudo professor.

Solineide Maria

Gula

comer tudo
todo o lixo
que possa estar à mesa.
comer muito
até o ódio
a deslealdade
a vileza
a mentira.

Do Livro Dos Poemas Pesados
(em análise para publicação)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Luxúria

sangue e pele
veias vão pulsando.
pele e unhas
boca latejando.
asas coxas
de sexo murchando.


Do Livro dos Poemas Pesados
de Solineide Maria
(em análise para publicação)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

POEMA PARA SARAMAGO, PARA OS QUE SE LEVANTARAM, PARA OS QUE SE LEVANTAM E PARA OS QUE ESTÃO A LEVANTAR-SE.


Nesses tempos difíceis já vivemos.
Pais e mães e filhos e netos e cães.
Fomos mendigos da Terra e da terra vencedores.
Mataram-nos,
sobrevivemos.

Fomos carpindo a nós mesmos a terra e as coisas todas.
Sofremos.
Sobrevivemos.
Ainda hoje lutamos contra a miséria da fome, contra a fome da miséria,
Contra homens que destroem e contra outros que mentem que querem reconstruir.
Ainda hoje, aqui, ali. Em todo canto.
Em todo o mundo.

Somos os mesmos mudados,
melhorados graças ao Cosmos,
graças à pedra que é outra,
graças ao trabalho morto e vivo de nós mesmos.

Somos a Revolução dos Cravos,
mas somos a de Chico Mendes.
Somos os homens sabidos e idiotizados,
estilo de homem que nos fizeram.
Mas sabemos.

Alguns sofrem e o sabem.
Alguns não querem (ainda) saber de nada.
Como antes. Mas sabe-se que todo tempo de mudez
já não tem cabimento.
Sabemos.

O levante ainda se faz todo dia,
aqui ali Além: no Alentejo.
Sabemos que fomos Sara e Domingos,
sabemos que fomos todos os que sofreram Salazar
e sabemos que os daqui também sofrem como os de lá.
As palmeiras no final das contas, são as mesmas.

O sofrimento, a alegria de levantar o facão
pra capinar no que é seu,
a tristeza de parir e não ter o que dar de mamar,
a emoção de ver os olhos azuis
ou pretos do filho e lhe escolarizar.
Sabemos.

Levantamos ainda, estamos a levantar.
Aqui, ali e além mar.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

TODOS OS POEMAS QUE PUBLICO AQUI, SÃO DE MINHA AUTORIA.

Exceto citações, mas aí, são citações: dou o nome dos autores.
É que ontem, uma menina me perguntou assutada: mas são todinhos seus?!
Na hora ri, mas percebi que precisava notificar por aqui esse acontecimento.
Um abraço a todos.
Solineide Maria

O novo poema não vem, porque a vida anda com pressa demais.
Não vem, porque estamos todos falando com nossos ais.
O novo poema não quer nascer aqui.
Aqui não está acolhedor,
sereno,
bom.
O novo poema quer paz.
O novo poema quer o êxtase do encontro,
quer o veludo da calma,
quer as liras mais tranquilas.
Aqui não tem dessas coisas,
não vem tendo.
Acabou.
O mundo não é viável para um poema assim.
O novo poema, se viesse, desmaiaria profundo.
Não de êxtase, mas de horror!

imagem: "O Êxtase de Santa Tereza", Bernini, 1645-52. Escultura - Capela Cornaro, Santa Maria Della Vittoria, Roma.

SAUDADES DA INFÂNCIA


Por que o mesmo caminho,
feito mil vezes ou mais,
agora não parece o mesmo?
Por que será que acontece?

Por que será que acontece,
de quando a gente dá de crescer,
a rua se torna grande?
Por que será que acontece?

Por que a casa dos pais,
a mesmíssima casa dos pais,
não mais volta a ser a mesma
Por que será que acontece?

Será que no fundo,
bem no fundo,
é pirraça do destino?
Por que será que acontece?

É para nos empurrar
ao crescimento constante?
é mensagem: "Vai e cresce,
buscai novos horizontes".

Por que meu Deus que cresci?
Se com sete, oito anos
já sabia que crescendo
perderia meu brilhante...

NA FOTO, A POETISA CONTAVA COM SEIS ANOS DE IDADE.
Publicado também, no Recanto das Letras em 21/10/2010
Código do texto: T2569387

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Poema de fim do amor (este poema foi escrito para um Concurso. O tema era Fim do muno ou Amor)

No fim do mundo eu já fui,
inalei poeira tóxica,
saltei algumas encostas,
trouxe o último ar limpo para lhe presentear,
chamar sua atenção.
Não aconteceu.
Você não ligou.

Fui nos confins de minh’alma.
De lá voltei com uma sacola de pano,
plena de tantas coisas...
Umas eram brilhantes feito o amor.
Outras, nem tanto, mas luziam cores e expressões de anjo,
asa, água pura.
Coisas quase divinas.
Você até gostou,
mas esqueceu na soleira: alguém as levou.

Peguei um barco para Cidade do Nada.
Trouxe de lá, pra você, a intenção originária.
Saqueei casas vazias,
traí o anjo da morte
e trouxe dele um retalho do trapo que é sua capa,
a última lâmina usada e um seu qualquer verso triste.
Nada disso lhe afetou.

O que afeta a você?
Afeta-lhe o afeto?
Afeta-lhe para o bem ou para o mal?
Você prefere que tipo de afeto?
No fim do mundo já fui para ver se lhe afetava...

No fim do mundo eu já fui, inalei poeira tóxica,
saltei algumas encostas,
trouxe o último ar limpo pra lhe presentear,
chamar sua atenção.
Não aconteceu.
Você nem olhou.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

video

"O beijo mais constrangedor do mundo"

O homem sai de um buraco, depois de ter ficado mais de 60 dias soterrado.
Fora dali, cá em cima, sua amante o aguarda. O homem não sabia...
Não sabia que tudo havia sido descoberto, e ele encoberto por terra lá embaixo.
A mulher se aproxima sem melindres, e ele, atônito: envergonhado?
O homem nem consegue erguer os braços e abraçá-la. Onde está minha esposa (deve ter pensado).
As câmeras filmam a tudo. Fotografam, as outras.
Essa outra nem aí. Feliz da vida com "seu" homem tatu, da outra. Eles que encontravam-se às escuras, nas tocas-moteis da vida, agora ao vivo para todo o MUNDO ver. Ela deve ter ficado excitada.
A esposa, que confusão... A esposa não quis ir recebê-lo. Fez bem, não teve força de saber da traição junto com o mundo inteiro.
Ele saiu ou entrou num buraco pior? E agora para sair desse buraco? Que coisa mais vexatória.
Acho que ele foi o único dos 33 que queria se enfiar no buraco, novamente...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A ASCENÇÃO DOS 33 CHILENOS SOTERRADOS (Subam meus irmãos)

Venham para a vida
viver de novo,
amar de novo,
de novo temer.

Venham ver a vida
daqui de cima;
amar, apesar
de quaquer baixeza humana.

Venham acordar
por cima da Terra,
em cima da cama
de suas donzelas.

Venham gozar da vida
o que há de bom.
Tomar café,
ouvir o sol.

Voltem para cima,
que a vida é boa,
que a vida é leve,
que vocês merecem!

Agradeçam a Deus,
tudo foi Divino,
tudo foi perfeito,
foi maravilhoso.

Abracem seus filhos,
beijem os seus pais,
amem suas mulheres,
Merecem essa paz.

Agradeçam muito
aos seus Protetores.
Porque na verdade
foram cuidadores.

É bom ver o homem
unir-se assim,
por seus semelhantes
acima de qualquer baixeza.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

POEMA PARA CLARICE LISPECTOR

Clarice
me diz de você.
Onde é a tua pressa?
E a tua, clama?

E diz das coisas que escrevias,
escreves ainda,
nessa terra onde as torres
nunca param de crescer?

Clarice,
se eu tiver outra filha,
terá teu nome para alvorecer
as ideias.

Clara feito uma manhã,
toda manhã é bem clara (devia ser).
Clarice, vem me atormentar;
que assim calma, sou sem sal.

E sem açucar.

Solineide Maria
(poema publicado no Recanto das Letras)

domingo, 3 de outubro de 2010

DIA DE ELEIÇÃO (exercitando a cidadania...)

Hoje é dia de votar
rarara...
Hoje é dia de assumir
hihihi...
Hoje é dia de eleger
hehehe...
Hoje é dia de parirmos
novos seres engajados
a nos desobedecer.
Novos seres que
fenecem,
falecem,
afrouxam
quando chegam ao poder.

FATOS E FATORES PARECIDOS COM O REAL NÃO SÃO MERA COINCIDÊNCIA.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Poesia não é brinquedo (coitadinho do poeta)

A Poesia não é brinquedo.
Não manda recado.
Não diz a que horas chegará.
A Poesia não marca encontro.

A Poesia é quem manda.
O poeta obedece.
A Poesia é Senhora,
tem validade ad eternum.

O poeta, coitado, pensa
que manda.
O poeta, coitadinho,
pensa que é dono...

Senhora é a Poesia.
A Poesia tem a chave da hora,
tem a hora,
é dona de si.

Coitadinho do poeta...

PROCURANDO A POESIA...

Enquanto 2011 não vem
e a pausa é cansada...
Enquanto ouço a voz
da saudade de madrugada.

Enquanto nosso encontro
não acontece.
Enquanto a prece não
funciona.

Enquanto a ansiedade
é quem toma posse
toda semana,
toda semana...

Enquanto não há o que ver
de interessante na TV.
Enquanto isso tudo,
nada: se passa.

Por que não aparece um
poema bem legal p'reu escrever?

NASCIMENTO DO POEMA (ou da necessidade de escrever)

Basta...
sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo.
Rainer Rilke

Não posso, não consigo.
A veia enquadra a mão,
passeiam gestos.
A voz noturna, bombeia as palavras.
Palavras!

Escrevo à luz de nada,
à luz do que queria.
Querer: outro nome para
anti-coisas não possíveis.

Preciso, preciso,
eis o termo correto.
A folha.
O lápis,
caneta?

Não importa,
já vai nascer,
já vai sair...
Apenas uma frase inicia,
uma frase,
o poema, a Poesia.

Para RILKE
De Solineide Maria

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

AINDA

Disse ainda, porque não pude
(ou não posso)
dizer para sempre.

Que o sempre ,
não sei quando,
pode ser um instante.

Disse ainda,
porque sendo assim,
há o momento seguinte:

Outro presente
dentro de um momento
que não existe.

Mas existe...

Ainda que não
seja assim,
às vistas...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Continua...

Olha só. As fotos continuaram.
No entanto, amanhã, postarei uns poemas que dei o nome de Poemas pesados.
Vocês vão gostar (suponho).
São pesados, porque falam de coisas pesadas.
Noutros casos, porque nos pesam nos ombros as palavras que tentam dizer essas tais coisas pesadas.
Estamos vivendo uma época pesada...
Um grande abraço agradecido.

Agradeço eternamente a vocês, pelo cuidado amoroso que deram aos poemas.
Ficou verdadeiramente lindo!
Nunca hei de agradecer direito.

UMA FOTO MAIS QUE ESPECIAL


Minha mãe,
eu,
minha filha,
meu pai.

MINHA FAMÍLIA

Claudia, Agildo, Elenilva, Jefferson e Tcharly


Amigos do Curso Letras - UESC.
Obrigada por comparecerem!
Fiquei imensamente feliz.

INSTITUTO DE FLAUTA PROFESSOR CARLOS OLIVEIRA


Professor Carlos e seus alunos abriram o Evento.
O projeto Instituto Professor Carlos Oliveira, é uma ideia de Carlos (professor de instrumentos). Não cobra nada dos meninos e meninas.
A gratuidade está presente também, na figura sempre alegre em apoiar e ajudar.
Obrigada Carlos. Obrigada aos meninos e meninas, à Silvana - esposa do professor.
Minha noite foi nossa noite!

Cibelle e Solineide


Últimos acertos!
O que falar?
O que calar?
Cibelle deu um show!

Hora de começar!

Mercedes Midlej


Mercedes, sempre elegante, numa conversa com Sira e Zélia.
Lucas, Designer Gráfico(amigo), mirando a todo.

Amigos, amigos, amigos...



Estou de costas e converso com o amigo Luiz Leite e a amiga Clícia.
Professor da UESC, Mestre em História, Marcelo Lins (meu amigo da época do secundário)de mão no queixo. Saboreando um salgadinho? rsrs

Estava tudo muito bonito.

FOTOS DE PAULO FONTES


Uma criatura de olhos de poeta esse Paulo Fontes. Clicou os detalhes assim: poetizando.

Cibelle Midlej - Minha amiga e Mestre de Cerimônia


Um abraço saudoso para Mercedes, sentada.
Minha amiga querida, obrigada por ter ido ao Lançamento, apesar do frio e dos dissabores dqueles dias.
Minha gratidão eterna!

De branco: Sira, Diretora da Aquarela (onde trabalho). As mãos pequenas de Anne, filha de Cibelle. Zélia, no canto esquerdo, minha advogada favorita. rs
Cibelle é a que tem a pasta na mão.
Ao fundo, meu amor.
Um cantinho muito especial!

Convidados



Os dois de camisa amarela: meu irmão Solivaldo Marques(costas) meu cunhado professor Joselito Machado.

Sentado de calça branca (canto esquerdo) professor Carlos, do Instituto de Flauta Carlos Oliveira.

Dona Regina e Seu Lourival. Minha mãe e meu pai.



Foi ótimo! Eles foram, apesar do frio da noite e do pouco jeito com Eventos demorados... Fiquei feliz da vida.

Os meus sobrinhos: André, Rejane, Regina . E Tiago (marido de Regina)

Flores e poesias

ALI LONGE NO MAR - Dia do Lançamento


As fotos são de PAULO FONTES - Fotógrafo de Ilhéus/Ba. Ele poetizou cada pose e detectou a Poesia a noite inteira, através de sua máquina fotográfica.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ALI LONGE NO MAR

RAFAELA

Rafaela querida,
Escrevi umas coisas novas.
A Poesia às vezes não visita quem está com dores físicas... Às vezes, ela precisa se distanciar e olhar pela janela do nosso coração.
Às vezes ela manda recados, pelos corações que nos amam sinceramente. Do tipo que você me deu ontem:
"escreve aí Soli. Seu blog está uma pobreza". rs "Cadê a Poesia"?!
Obrigada viu!
Tomara que lhe seja útil as coisinhas que postei hoje. Hoje que Flora Maria desmaiou na cozinha... Um susto!
Mas agora está tudo bem. Ela se alimenta mal quando está solita em casa. E você sabe, ando agitada pela correria do papel!...
Um grande, imensamente feliz e com Poesia (em tempo) abraço!
Sua eterna amiga,
Soli

Tentativa de Cordel - Sobre a Influência deste na "Literatura chamada de grande"

DEPARTAMENTO DE LETRAS E ARTES
DISCIPLINA LITERATURA DO CACAU I – LTA 058
DOCENTE:
REHENIGLEI REHEM

Professora Reheniglei
Propôs para nosso grupo
Uma leitura importante.
De um texto muito bom,
Palavras muito pujantes,
De um autor pesquisador
Chamado Mark Curran.

Esse moço inteligente
Entendeu depois de estudos
Que o Cordel foi sempre fonte
De inspiração para muitos
Escritores importantes.
Citou o nome de alguns,
Mas escavacou foi dois.

Falou sobre Jorge Amado
Que foi sabido bastante.
Foi o primeiro a escrever
Influenciado sim
Pela escrita do poeta
Que se mistura com o povo.

Esse escritor baiano,
Esperto feito coruja,
Usou de tudo um pouco
Da cultura do folheto.
Dessa linguagem bonita
Que já foi discriminada
Por ser coisa popular.
Veja só, esse escritor
Romancista de mão cheia,
Inspirou-se nos cordéis
Historietas profundas:
Coisa viva de emoção
Porque povo e poesia
É rima que erra não.

Amado pegou o jeito
As palavras, a ideia,
O corpo do cordel mesmo.
Botou dentro das histórias
Bonitas dos seus romances.
Usou da linguagem toda
Dos sofrimentos do povo.

Falou demais do homem pobre,
Que trabalha por merreca,
Falou das mulher da vida,
Falou das mulher sozinha.
Falou dos home avarento
Dos coronéis abastados
Contou de toda essa gente.

Um poeta esse moço
Só que de escrita corrida,
De escritura de romance.
Ele sempre foi famoso
Por ter querido viver
Dentro da vida do povo.

Ariano suassuna
Foi o outro escritor
Estudado por Curran.
Ele mais se debruçou
Na obra tão conhecida
Desse malandro da escrita.
Malandro de muito bom!

A obra intitulada
Auto da Compadecida
Tem tudo o que é cordel
Dentro dela estabelecida.
Eita escritor danado,
O homem é arretado
Outro desse não se avista.

Suassuna até parece
Ter herdado da onça
Sussuarana, astúcia
Demais de hábil.
Literatura do povo
Misturou genialmente
Com a tal da “escrita boa”.

Para tal disposição
Ariano utilizou os cordéis
De Leandro Gomes.
Cordelista de mão cheia
Que nasceu na Paraíba
Sua terra de nascença:
A missão já tinha eia.

Este homem das palavras
Sempre deu a entender
Que gosta mesmo é do povo
E sua linguagem plena
De vida e de transparência.
Não dizem do pó ao pó?
Para Ariano é do povo ao povo.

No Auto da Compadecida
Os folhetos reunidos
O Enterro do Cachorro,
O Cavalo que Defecava Dinheiro
E o Castigo da Soberba,
Estão todas bem visíveis
E era pra ser assim mesmo.

O autor usou de tudo
Do Narrador que é o palhaço
Igual como é no cordel;
Personagens anti-heróis
Como é o caso do Chicó.
Teve inspiração também
De gente que convivia.

Curran o pesquisador
Que escreveu essas passagens,
Teve bastante trabalho
Para dar o seu recado.
Escarafunchou bem profundo
Tudo isso e mais um pouco.
Temos ainda um minuto?


Mais um minutinho dá
Pra gente se despedir
Agradecer Reheniglei
Pela indicação do escrito
Que tanto acrescentou
Sobre a tão bonita
E boa Literatura do povo.

"Cordel" escrito por Solineide Maria, lido na apresentação do texto de Mark J. Curran – Literatura de Cordel pelos discentes: Agildo Oliveira, Bruna Bispo, Jefferson França, Liliana Macedo, Priscila Cardoso e Solineide Oliveira, à Professora Dra. Reheniglei Rehem.

Setembro de 2010.

Versinho pueril (psiu...)

Sinto paz.
Você em minhas mãos,
eu no seu ombro.
O que eu quero mais?

SOBRE CERTA CHEGADA

Precisa, mesmo, que viesses,
E que trouxesses contigo,
Umas flores silvestres.
Flores novas para meu jardim.

Precisava, mesmo, de cores
Novas. De mais pão, mais
Gás no lampião, novas cortinas
Para antigas janelas...

Precisava.
Precisa de nova mobília
Para esta minha sala
Inabitada.

Precisa, mesmo, que viesses.
Que trouxesses umas falas
Novas. Novo discurso,
Ainda que revisto.

Precisava trocar a minha lente,
Cuidar direito da pele,
Deixar de roer as unhas,
Desanuviar...

Precisava, de fato, de tua chegada.
Eu, que nem sabia se virias.
Que nem sei se chegastes de fato.
Ainda mirro uma vez na semana...

Apesar de já ter alcançado
Ser menos mirrada do que antes.
Ainda desconfio de tal felicidade.
Coisa de poeta, desconfio...

Precisa, mesmo, que viesses.
Pois a lâmpada queimada,
Aguardava já empoeirada,
Sua reposição.

Precisava.
Precisava revisar a literatura.
Construir novos versos de ternura.
Ampliar a emoção...

PEDIDO DE CASAMENTO (refutado)

Ninguém quis (quer) casar comigo
ver meu vestido antigo
que a fada da Cinderela
bordou nele uns cristais.

...Ela pôs assim do lado
uma renda primorosa
e nas mangas, fitas tais
que nem sei como dizê-las.

Na barra ela bordou,
em tom charmoso de prata
rosas, flores e trigais.
Para enfeitar nosa vida.

Para enfeitar nossa vida
depois de casados enfim...
Mas ninguém quis,
(quer) casar mais.

Solineide Maria - 09-09-2010

DESEJO

um dia você vai dizer pra mim
as coisas mais bonitas
que já ouvi.

um dia você vai me olhar
assim, como fazem os
apaixonados, e vai sorrir.

um dia eu vou chegar
e lhe tocar até a sua alma
ebolir...

um dia vou conseguir
esconder, o quanto
já preciso de você.

NAMORANDO COM LAMBRETAS

Ele compra e limpa e borda amor nelas.
Faz uma assepsia que dá jeito de ver
até, a alma delas.


Elas ficam assim,
luzindo a paz de ser alimento
e momento de sentar
e olhar aqueles olhos...


Faz o sacrifício de apanhar
uma por uma:
essa sim, essa não,
essa sim, essa...

Vai separando e pensando:
"vai ficar uma delícia".

Eu apenas corto os temperos.
E de vez em quando
esbarro minhas mãos nas dele.

Ele arruma todos eles (os temperos) nelas,
eu olhando o carinho ali,
materializado em forma de mãos de homem.

Ele faz um molho especial,
desses que não se encontra,
desses que não se passa a receita.

Toda vez fica melhor,
toda vez é inédito.
Eu apenas corto os temperos...

Ele salta de alegria com aquele olhar:
"e aí? Está bom"?
Eu respondo que sempre está bom,
e que cada vez melhora.

Ele ri e diz: "se você diz, acredito".
A gente se olha e se fala sem palavras:
é tão bom dividir lambretas com você.

O amor bordado nas lambretas
vira namoro.
A gente conversa, ri, saboreia,
sabota dores,

dissabores cotidianos,
a falta de paz do mundo,
e segue feliz.

O POEMA SOBRE PAZ (QUE NÃO ESCREVI)

Queria hoje escrever um poema de paz.
Sair correndo, brisa leve em minha cara.
Paz!
Viver de hoje em diante em clima de harmonia.

Queria ouvir a doce campainha
Do amor compartilhado.
Sem sombras de amores ilhados,
Sozinhos, egoístas...

Queria ir e vir e abraçar,
E andar de mãos dadas
Coladinha com a esperança.
Colher em mim sorrisos de criança.

Queria tanto acreditar que é verdade,
Que o homem traz em si sinceridade,
Que o coração é mesmo casa
Que abriga emoção.

Quando meu Deus?
Quando vamos ver
A paz aqui em breve alvorecer
As frágeis intenções de nossas veias?

Solineide Maria

DEDICO ESTE POEMA À RAFAELA!

Publicado no Recanto das Letras em 20/09/2010
Código do texto: T2508784

AUSÊNCIA

Sinto sua falta...
Da voz poetizada,
das falas calmas.

Da rosa que você nunca me deu.

Sinto sua mão abrindo eu.
E sua boca nua
falando nada.

Nada além de mim
agora, é verdade.
Mas sou apenas carne.

Carne é pouco,
às vezes incomoda.
Sinto muito
por ser pouco.

Sinto muitas coisas,
mas no fundo,
noraso também,
sinto MAIS, sua falta.

domingo, 19 de setembro de 2010

Poema de acreditar

O que quer que aconteça
vou querer.
Combaterei o frio
por você.
Enxugarei os caminhos.

Quando os dias parecerem frios
vou aquecer.
Tudo o mais que aconteça...

Temo muito eu sei,
mas deixa estar,
que meu peito não teme
se me abraçar.

sábado, 18 de setembro de 2010

TAMBÉM NÃO DORMI

A insônia que invadiu a sua noite,
como intrusa, também veio
no meu quarto.

Deitou e riu da minha cara
de ansiosa,
Coisas de agora...

Fez piada do meu medo,
da minha falta de paciência,
da minha falta de ânimo.

Contou sobre umas coisas de você.
Eu não acreditei.

A insônia falou que fez umas bobagens,
umas traquinagens,
umas viagens.

Foi nessa hora que eu acordei.

O GRUPO

Na descrição inicial, o autor narra a figura do que seria o grupo a que se destinará a falar. Em seguida diz que o grupo é fragmento unido. Ou seja, somos, seria este grupo, reunião de emoções, sobretudo de sentimentos comuns, os mais vulneráveis possíveis. No entanto, em sendo grupo, não saberiam se proteger. Seria, então, reunião inútil...
Reunião inútil, porque não se completa em suas incompletudes. Não se protegem. Sabe este grupo de doze, trinta e seis pessoas, mais, menos pessoas? Sabe o que seja a ideia verdadeira de grupo? Estariam verdadeiramente unidos, apenas, pela certeza da morte e da dor.
O grupo seria uma reunião de seres que dizem ser grupo, apenas, na hora do caos. Mas nessa hora, seria grupo, porque haveria o medo de o caos se instalar próximo demais deste. São humanos buscando pela humanidade que ainda não teriam aprendido, apreendido.
A arrumação da crônica deste autor indica que sabe sobre o que está narrando. Primeiro explica e depois conflitua. Acaba com a ideia de grupo, nos tira o conforto, no momento em que escreve que este saberia sobre suas fraquezas de nascença. Saramago não chama à reflexão, ele nos rapta, nos seqüestra mesmo à reflexão sobre a ideia do que seja grupo: que é grupo?
Pergunta até mais simples de se responder, ao contrário de outra que me faço sempre: que é Saramago?

Sobre a crônica "O grupo" que está no livro Deste e de outro mundo. Editora Caminho, ano 1985.